Crítica: Sobre Ratos e Homens


 
Foto: Luciano Alves

Foto: Luciano Alves

Por Renato Mello

Uma excelente montagem da obra de John Steinbeck se apresenta em temporada até o dia 30 de abril no Teatro I do CCBB. “Sobre Ratos e Homens”, com direção assinada por Kiko Marques a partir da tradução de Ricardo Monastero.

Escrito originalmente em 1937, “Sobre Ratos e Homens” foi estruturado no formato que independente de ser lido como um romance, lhe permite igualmente ser representado diretamente como um texto teatral. Suas linhas narrativas abordam uma história de amizade incondicional entre 2 personagens que se encontram em situação marginal, perambulando pelo meio rural norte-americano em plena falência de todos os meios de produção por decorrência da depressão econômica dos anos 30, empurrando cada indivíduo para a renúncia coletiva ao sonho americano pelo esfacelamento social de uma nação, impulsionando na verve de sua dramaturgia questões relacionadas com a diferença, violência, afeto, discriminação e solidão, expostas em intensidades elevadas por um texto mítico.

George(Ricardo Monastero) e Lennie(Ando Camargo)sonham apenas com um punhado de terra para repousar singelos desejos, como criarem coelhos e comandarem o próprio destino. Lennie, intelectualmente deficiente e com paixões infantis, principalmente acariciar dóceis animais, mas o descontrole sobre sua avantajada força física destrói tudo o que ama, colocando-o juntamente com seu companheiro de infortúnios, George, em permanente risco de vida, obrigando-os costumeiramente a abandonar de forma abrupta seus pousos. Possuidor de sagacidade, George é o único capaz de domar minimamente os impulsos de Lennie, cabe-lhe planejar trilhas de vida e fuga para ambos, guiando-os rumo a um utópico futuro.

Foto: Luciano Alves

Foto: Luciano Alves

Construído em 3 atos muito bem demarcados, fascina a forma como Steinbeck conduz seus personagens rumo a uma escalada, que no momento em que se aproximam do topo e já conseguem vislumbrar um horizonte por trás das montanhas, os empurra ao precipício.

A montagem de Kiko Marques é precisa em marcar esse desencadear de movimentos, graduando os distintos níveis sentimentais diante da avalanche que lhes desaba, compondo uma atmosfera cênica que propícia aclarar a intensidade do desenvolvimento dramatúrgico de Steinbeck. A contribuição cenográfica desenhada por Marcio Vinicius, reproduzindo com realismo a estalagem de uma fazenda,  amplia as possibilidades narrativas do diretor permitindo a fluência dos personagens por entre suas engrenagens, assim como a iluminação de Guilherme Bonfanti desempenha papel relevante no modo como sublinha com sensibilidade a altura de cada momento narrativo. Kiko Marques utiliza-se com grande habilidade dos distintos elementos teatrais para impor uma dinâmica que esquadrinha detalhadamente o caráter das intenções de cada personagem, atávicos dentro de um mundo que lhes é costumeiramente hostil. Expõe mesmo na tensão da atmosfera um valor sentimental que lega ao espectador a possibilidade de enxergar aquele mundo pelos olhos de cada personagem. Sua direção de atores fica muito bem marcada pela condução harmônica, alcançando uma gradação uníssona, independentemente do tamanho de suas relevâncias no contexto da narrativa.

Ratos e Homens

O elenco completo é composto por Ricardo Monastero, Ando Camargo, Natallia Rodrigues, Tom Nunes, Cássio Inácio Bignardi, Roberto Borenstein, Pedro Paulo Eva e Thiago Freitas com boas atuações,  personagens bem delineados e composições físicas adequadas. Ricardo Monastero(George) e Ando Camargo(Lennie) realizam atuação conjunta de alto nível técnico, com complementaridade e camadas muito bem sedimentadas. Ando Camargo cativa pela construção de uma docilidade que oculta seu temperamento descontrolado, um “gigante gentil de mãos perigosas”, numa das melhores atuações desses primeiros meses da temporada teatral carioca. Ricardo Monastero  exprime com absoluta precisão, solidez e consistência o acobertamento de nobres valores para sobreviver em um meio rústico, que lhe é capital não somente para sua individualidade, mas principalmente para preservação de Lennie. Além da dupla central é possível um destaque adicional para Roberto Borenstein, vivendo um personagem “condenado” à imobilidade, mas que com a chegada de Lennie e George, passa a compartilhar de seus sonhos comuns, num perfeito trabalho de composição física, vocal e corporal por parte do ator. Importante destacar a personagem Mae, com  interpretação bem defendida por Natallia Rodrigues, cuja função dramatúrgica consiste em ser o  principal elo de desestabilização daquele microcosmo, rodeada de preconceitos e maledicências, que ganha ao longo da narrativa contornos mais humanizados e se revelando apenas um ser estrangeiro a um código de conduta muito bem sedimentado.

Os figurinos de Fabio Namatame reproduzem com eficiência o ambiente rural norte-americano.

Sobre Ratos e Homens”, um espetáculo muito bem representado e concebido numa ambientação que impulsiona extrema força narrativa. Teatro no mais alto nível!

Teatro: Luciano Alves

Teatro: Luciano Alves

FICHA TÉCNICA – SOBRE RATOS E HOMENS
Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
Produção: Dendileão Produções Artísticas

Direção Artística: Kiko Marques
Elenco: Ricardo Monastero, Ando Camargo, Natallia Rodrigues, Tom Nunes, Cássio Inácio Bignardi, Roberto Borenstein, Pedro Paulo Eva e Thiago Freitas.

Foto: Luciano Alves

Foto: Luciano Alves

Cenografia: Marcio Vinicius
Figurinos: Fabio Namatame
Trilha Sonora: Martin Eikmeier
Iluminação: Guilherme Bonfanti
Visagismo: Raphael Cardoso
Maquiadora: Chloé Gaya
Contra Regra: Sidney Felippe
Técnica de Som: Carol Andrade
Técnica de Luz: Kuka Batista
Comunicação Visual: Cristiano Canguçu
Fotos: Luciano Alves
Gestão de projeto e Sustentabilidade: Celso Monastero
Coordenadora Administrativa: Sonia Odila
Assessoria de Imprensa: Máquina de Escrever Comunicação – Catharina Rocha
Assessoria Jurídica: Francez e Alonso Advogados Associados
Direção de Produção: Antonio Ranieri

SOBRE RATOS E HOMENS
Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro – Teatro 1
Rua Primeiro de Março 66 – Centro. Tel.: 3808 2020.
Estreia para convidados: 22 de março, às 20h. Estreia para o público: 23 de março, às 19h.
Apresentações: de quarta a domingo, às 19h. Temporada até 30 de abril
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Bilheteria: de quarta a segunda-feira (fecha terça), das 9h às 19h30
Venda antecipada: inicia-se na segunda-feira da semana anterior à do evento, restrita a quatro ingressos por pessoa.
Duração: 100 minutos. Classificação etária: 10 anos. Lotação: 180 lugares


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

maio 2017
D S T Q Q S S
« abr    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031