Crítica RJ: Solos de Memória


 

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Por Renato Mello.

O Castelinho do Flamengo em conjunto com a exposição “Gaveta de Memórias”, da artista plástica Anna Bella Geiger, está apresentando um espetáculo de extrema delicadeza, “Solos de Memória”, cuja temporada decorrerá até o dia 18 de outubro.

Solos de Memórias” é um conjunto de 5 textos costurados com grande sensibilidade pela diretora Morena Cattoni. Todos escritos individualmente pelos próprios atores que os apresentam: Gisela de Castro, Daniel Chagas, Marcéli Torquato e Natasha Corbelino, em que num jogo cênico coletivo elaboram uma estrutura dramatúrgica que mescla emoção, humor, lirismo, amor ou afeto numa busca por reminiscências que habitam em cada um deles, flertando com suas próprias histórias de vida  ao mesmo tempo com uma liberdade criativa que os levam a voos de fantasia através de um processo  de construção de uma dramaturgia diversa e que consegue ao mesmo tempo ser una.

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Morena Cattoni consegue nesse processo da carpintaria dramatúrgica encontrar a correção do momento que dever deixar seus atores livres para seus devaneios e o momento de trazê-los de volta para amarrá-los numa mesma teia, encontrando a conexão direta do desvendar das gavetas de Anna Bella Geiger aos mistérios inconscientes que se apoderam de nossas memórias.

É justamente num lugar impregnado de memória que tudo se realiza, o Castelinho do Flamengo. Naquela linda construção eclética inspirada nas tendências italianas do início do século que somos convidados a subir sua escada de madeira maciça que vai estalando a cada passo que nos aproximamos das histórias reais que ali habitam com as fictícias que nos esperam a partir do momento que no último patamar de subida, sob a 11998125_1043346345708438_159737634_niluminação dos vitrais franceses, avistamos Gisela de Castro, “um tanto atrasada” para recepcionar cada um dos visitantes e começarmos finalmente a viagem pelo denso caminho do tempo e espaço.

A partir de minha progressão por aquela atmosfera ficava imaginando quantas histórias estão guardadas em cada um dos diferentes ambientes daquela fascinante construção em viveu o senhor Avelino Fernandes e sua família quase um século atrás. Quantos amores não concretizados aquelas paredes não testemunharam? Quantas amarguras vividas? Alegrias? tristezas? Vidas vividas! Histórias deixadas para trás. Quem por trás daquelas janelas viu a tragédia na frente do prédio? Como viveu ali a pequena Maria de Lourdes após a morte dos pais? Tantas eram as minhas perguntas em meio a uma história real de vidas passadas que iam se misturando com as pungentes dramatizações de cada novo texto que nos inundavam na sensibilidade do decorrer dos acontecimentos que ali vivíamos nesses instantes que se sucediam, a cada novo mundo que se abria por trás de cada porta que entrávamos.

Como as memórias de gente que não conhecemos ou situações que desconfiamos não terem existido podem tocar fundo nossa alma? Esse é justamente o grande trunfo de “Solos de Memórias”, gavetas reais ou fictícias que vão sendo abertas, com deslumbrantes interpretações dos 4 atores Gisela de Castro, Daniel Chagas, Marcéli Torquato e Natasha Corbelino, impregnando o Castelinho com verdades de sentimentos.

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Segue-se então a seguinte ordem: 1- A Grande Beleza(Gisela de Castro), 2- Substantivo Feminino(Daniel Chagas), 3- Peixe Calmo(Marcéli Torquato), 4- A Bioquímica dos Desejos(Gisela de Castro) e 5 – Rio no Mapa de Alverina e Claudia(Natasha Corbelino).

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Planta do Castelinho com o ambiente de cada texto e ator

A condução de Morena Cattoni é acertada em todos os sentidos, principalmente em cima do grande risco que é trabalhar com textos diversos interpretados solitariamente pelos atores, em que na grande maioria desse tipo de proposta costuma ocorrer um desequilíbrio e constantes oscilações. Porém no caso de “Solos de Memória” o equilíbrio foi atingido, com cada um deles tocando num ponto diferente de nossa sensibilidade, com uma sutiliza nos gestos, no acerto de cada tom de voz, no ritmo ditado das palavras, atingindo um elevado grau de qualidade interpretativa, a acima de tudo, com uniformidade e harmoniosamente, independente do caminho percorrido por cada uma das emoções ali vividas por Gisela, Daniel, Marcéli e Natasha.

Solos de Memória”, um espetáculo lindo e encantador, que nos leva a “decifrar o eco de antigas palavras, fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos…”

SERVIÇO
Exposição: Gaveta de Memórias
Local: Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho – Castelinho do Flamengo – 3º piso
Endereço: Praia do Flamengo, 158
Abertura: 21 de agosto, às 17h
Visitação: de 21 de agosto a 18 de outubro, de 3ª feira a domingo, das 10h às 18h
Entrada franca
Classificação Livre

Teatro: Solos de Memória
Local: Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho – Castelinho do Flamengo – 3º piso
Endereço: Praia do Flamengo, 158
Temporada de 22 de agosto a 18 de outubro
Horários: 3as e 4as, às 19h e sábados e domingos, às 17h
Duração: 70 min
Entrada franca
Capacidade: 20 lugares
Reserva pelo email solosdememoria@gmail.com
Informações: 21.96648-1497
Classificação 12 anos

Assessoria de Imprensa
Christina Martins –


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalcanti -

    Parabéns pela linda resenha, enriqueceu minha visão do espetáculo!

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