Crítica: Srta. Júlia e a Despedida de Si Mesma


 

Srta Julia (6)

Por Renato Mello.

2-estrelas2Ainda no corredor do Shopping, na porta do teatro, reparo um senhor circunspecto de terno e gravata vindo na minha direção. Pensei se tratar de algum conhecido que eu não estaria identificando. Sorri e soltei: “Boa noite. Tudo bom?”, para só então me tocar que a performance já tinha começado. Entramos todos na antessala do teatro em que o ator, junto com mais um casal começou a dialogar com as pessoas e ler alguns textos para o público que ali já se aglomerava. Um deles, com um adesivo da Dilma na camisa, retirou-o e colou na roupa de uma espectadora. Finalmente somos convidados para entrar e nos acomodarmos em nossa cadeira. Uma senhora atrás de mim pergunta para sua acompanhante:
.
Você não vai entrar?
– Ah, não vou não.
– Tem certeza?
– Absoluta! Te espero aqui fora.

Assim começou a minha experiência de “Srta Júlia e a Despedida de Si Mesma”, produção de São Paulo e em cartaz no Teatro dos Quatro do Shopping da Gávea. A peça é dirigida por Heitor Saraiva e Beto Bellini(também autor) e inspirada na obra clássica de August Strindberg.

O espetáculo, segundo a própria sinopse oficial conta a história do “dono de um grupo corporativo, cuja principal empresa é uma rede de televisão, utiliza isenção fiscal para beneficiar-se e beneficiar o teatro. Encontra na vaidade de sua filha, a vítima do próprio produto televisivo de sua corporação que infla os egos, tornando as pessoas individualistas, em um mundo egoísta”.

Srta Júlia e a Despedida de Si Mesma” coloca em cena uma crítica mordaz ao modo de produção cultural nacional baseada em leis de incentivos fiscais, dando desmesurados poderes aos atuais diretores de marketing e grandes empresários, que utilizam a renúncia fiscal para decidirem o que vai se produzir no país de maneira obscura e particular. Para sustentar sua crítica, tendo como o pano de fundo a podridão no seio de uma família aristocrática, Beto Bellini insere referências que vão de Santo Agostinho a Raduan Nassar, embora minha passagem preferida seja a sua citação a Jorge Amado. A questão é que essa crítica acaba ficando vazia pelo excesso de pretensão do texto, que procura em cada fala emitir uma verdade absoluta, se perdendo em diálogos que apesar da agressividade verbal, tem por trás uma base rala e superficial, repleta de frases batidas e citações pseudo-intelectuais, sem nem chegar perto da força da palavra de outros grandes autores do teatro paulistano, cujo nome mais latente é o excepcional Mário Bortolotto. As críticas aos meios de produção cultural brasileira e às leis de incentivo podem até ser legítimas (embora discutível), mas soa contraditória num espetáculo que utilizou-se do mesmo expediente criticado durante os 90 minutos de encenação.

A direção de Heitor Saraiva e Beto Bellini sofre com uma busca incessante pela transgressão. Na verdade os tempos atuais são muito difíceis para os candidatos à alcunha de transgressores. Não é com meras masturbações, nu frontal masculino, beijo lésbico ou coisas do gênero que se consegue. A própria escolha da metalinguagem pouco acrescenta à encenação e os vídeos inseridos ao espetáculo não dão nenhuma contribuição à proposta, sendo absolutamente dispensáveis.

A direção de atores consegue produzir algum acerto e graças a ela o espetáculo proporciona envolvimento com a plateia, num elenco formado por Camilla Camargo, Beto Bellini, Luciana Pacheco, Dani Brescianini, Eduardo Pelizzaro, João Grevaerd, Shirley Cruz e Mateus Abdala. Se Beto Bellini não consegue atingir o êxito como autor e diretor, sai-se muito bem como ator. Dono de grande personalidade cênica, domínio de palco e impostação perfeita da voz. Eduardo Pelizzari também tem atuação destacada.

O desenho de luz criado por Marcelo Jacob é muito bem realizado, sabendo realçar os ambientes e as cenas criadas pela dupla de diretores. Assim como bastante adequados os figurinos assinados por Milton Fucci.

Srta. Júlia e a Despedida de Si Mesma” é um espetáculo que pode até oferecer momentos de prazer para determinado perfil de espectador, o que não é o caso deste crítico careta.

Ficha técnica:
Autor | Beto Bellini
Direção| Heitor Saraiva e Beto Belline Coordenação de Produção | Erika Barbosa

Elenco | Camilla Camargo | Eduardo Pelizzari | Beto Bellini | Danilo Amaral | Luciana Pacheco | Dani Brescianini | Bernardo Mendes | Matheus Abdala e Shirley Cruz.

Diretor de Produção | Danilo Amaral
Assistente de Produção| Lucas Braga
Assistente de Direção | Lívia Simardi
Figurinista| Milton Fucci
Visagista e Assistente de Figurino| Ana Ariosa
Modelista e Costura | Elisângela Silva
Light Design| Marcelo Jacob
Técnico de Multimídia | Âmer Menegassi
Sonosplastia| Henrique Mello
Mídia Social | Marcelo Dallas
Fotos Demian Golovaty
Direção de Arte Gráfica| Leo Marino
Assessoria de Imprensa | Kassu Comunicação
Contador | Wagner Lima
Assessoria Jurídica | Calazans de Freitas Advogados Associados

Horários
Terças e Quartas às 21h.
R$ 50,00


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