Crítica: Suassuna – O Auto do Reino do Sol


 

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Por Renato Mello

Uma das maiores expectativas da temporada teatral de 2017, sem a menor sombra de dúvida, se debruçava sobre “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”, em que a Barca dos Corações Partidos permearia sua amplitude artística com o universo de Ariano Suassuna.

A Barca dos Corações Partidos apresentou em 2016 um dos mais impactantes espetáculos do ano com “Auê”, que arrebatou todos os mais relevantes prêmios teatrais, como o Cesgranrio, APTR e o Shell, assim como igualmente os irrelevantes, como nosso Prêmio Botequim Cultural, cuja ausência de citação no release oficial de “Suassuna – O Auto do Reino do Sol” me faz crer na sua pouca representatividade, mas ainda assim me enche de orgulho por estar em mãos tão talentosas.

Tomei conhecimento do projeto meio que por acaso, no início do ano, justamente quando fui entregar as estatuetas do nosso prêmio para a Barca dos Corações Perdidos. No momento que me foi aberta a porta de uma casa na Lapa, revelou-se um inesperado encontro de Eduardo Rios, Beto Lemos, Alfredo Del Penho, Renato Luciano e Adrén Alvez(faltavam Fabio Enriquez e Ricca Barros) com Luiz Carlos Vasconcelos e Laila Garin. Poucas vezes em vida me vi rodeado em parcos metros quadrados de tantos artistas pelos quais nutro admiração. Ao me contarem que estavam ensaiando naquele momento um espetáculo sobre Ariano Suassuna fiquei com um sentimento de testemunhar o germinar de algo de extrema relevância para o movimento cultural em curso neste 2017.

Passados alguns meses, o resultado final já está ao alcance de todos, embora Laila Garin não mais faça parte do projeto.

Em cartaz no Teatro Riachuelo até o dia 20 de agosto, “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”, baseia-se no encontro proposto pela Sarau Agência(Andrea Alves) de reunir três paraibanos para sintetizar num palco de teatro a essência “Suassuniana” pela direção de Luiz Carlos Vasconcelos, pelo texto de Braulio Tavares e canções de Chico César(em parceria com Beto Lemos e Alfredo Del Penho).

O roteiro de Braulio Tavares conta a história de 2 mundos distintos que se cruzam pelo encontro de um casal de apaixonados foragidos das guerras familiares do sertão nordestino com um circo-teatro formado por artistas saltimbancos que vagueiam em meio a retirantes, coronéis e jagunços com destino a Taperoá, na Paraíba, reunindo nessa junção diversos elementos encontrados no universo de Ariano Suassuna. Essa base estrutural tecida na dramaturgia tem justamente o apelo necessário para adentrar-se nesse universo tão rico e peculiar do escritor pelo delineamento de tipos existentes no imaginário popular nordestino que possibilitou justamente a Suassuna criar sua gênese autoral, com personagens que mesmo com sutis contornos entre o popular e o erudito, adensam-se na sua obra, assim como uma notória influência da literatura ibérica medieval na construção de seus arquétipos transmutados para uma aclimatação sertaneja. A apropriação de Braulio Tavares capacita-se para expor num condensamento narrativo as variáveis da riqueza contidas nas obras inspiradoras desse espetáculo.

Luiz Carlos Vasconcelos assenhora-se com clareza não somente do texto de Braulio, mas na forma como efetua a gestão dos diversos elementos teatrais, desde aspectos cenográficos e da composição dos figurinos, explorando a coesão de um trabalho bem amadurecido pelas longas estradas percorridas pela Barca dos Corações Partidos em suas incursões ao Brasil profundo(seja pelos seus trabalhos anteriores, seja nas suas peregrinações artísticas), criando dessa forma um espetáculo que aprofunda-se na matriz de seus objetivos. Contribui para esse alcance a fluência cênica que Vasconcelos impõe para a narrativa, dando um ritmo que faz a dramaturgia de Bráulio Tavares transcorrer harmonicamente, seja pela dinâmica e pela ocupação do espaço físico, contendo construções de impacto visual, estético e dramatúrgico, como à título de ilustração,  a cena da aparição da Compadecida.

Escrever sobre o trabalho dos membros da Barca dos Corações Partidos é adentrar por uma região que soa inesgotável na capacidade com que esses atores, músicos e cantores se apresentam sobre o palco. Composta por Eduardo Rios, Beto Lemos, Alfredo Del Penho, Renato Luciano, Adrén Alvez, Fabio Enriquez e Ricca Barros, integrantes que com distintas influências acabaram em suas complementaridades por criar um híbrido artístico que dificulta a apontar destaques individuais, apesar da contradição existente pelo fato justamente que essas individualidades, com suas diferentes formações e capacidades musicais, constroem o transpassar da expressividade da Barca, desenhando um quadro de cores vivas que em muito expande mestria narrativa contida nas histórias de Suassuna. Ainda assim cabe discorrer algumas linhas adicionais para a composição dos tipos femininos de Ádren Alves, impondo uma marca na personalidade de Madame Sultana, a dona do circo, e  Eufrásia, a senhora líder do clã dos Fortunato, numa clara representação do poder matriarcal em meio a um mundo rude e inóspito. Complementando o elenco, Rebeca Jamir, demonstrando capacidade vocal e compondo adequadamente Iracema, a mocinha apaixonada em fuga, além de Chris Mourão e Pedro Aune.

A complementação dramatúrgica existente nas musicas de Chico César, compostas  em parceria com Alfredo Del Penho e Beto Lemos, com a implementação realizada pelos demais integrantes da Barca dos Corações Partidos, contextualiza as  ideias básicas da proposição, expondo um mundo de particularidades cujas linhas melódicas servem exatamente para a elevação da carga atmosférica.

A cenografia de Sérgio Marimba tem papel determinante para o êxito artístico, desde a concepção da carroça estilizada, com bastante funcionalidade para a movimentação cênica proposta por Vasconcelos, assim como de alguma forma remete seus artistas ficcionais com aqueles criados por Théophile Gautier em seu romance clássico “Le Capitaine Fracasse”, igualmente o fundo negro demonstra boa capacidade para a exploração cenográfica, na qual a tenda do circo se rearmará ao longo da narrativa.

A beleza dos figurinos de Kika Lopes e Heloisa Stockler saltam à cena tanto pela beleza e qualidade dos cortes, como na forma como brinca com as cores, traçando uma paleta que explode visualmente, compondo um retrato vivo do universo de Ariano Suassuna.

Renato Machado modula a gradação da coloração da luz do sertão em intensidades que ajudam a revelar nuances da ambientação de Vasconcelos, enfatizando com adequação os momentos dramatúrgicos.

Não se deve esperar desse último trabalho da Barca dos Corações Partidos algo de “Auê”. “Suassuna – O Auto do Reino do Sol” trilha por outros percursos, ampliando ainda mais a exposição dos recursos desse grupo de artistas, que sob a concepção de Luiz Carlos Vasconcelos, alcançou da mesma forma, um belo resultado artístico.

Demorou, mas tivemos que esperar até junho para o teatro musical carioca apresentar um espetáculo significativo.

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SUASSUNA – O AUTO DO REINO DO SOL
Uma encenação de Luiz Carlos Vasconcelos
Texto: Bráulio Tavares
Música: Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho
Idealização e Direção de Produção: Andrea Alves
Com a Cia. Barca dos Corações Partidos: Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Beto Lemos, Fábio Enriquez, Eduardo Rios, Renato Luciano e Ricca Barros.
Atriz convidada: Rebeca Jamir
Artistas convidados: Chris Mourão e Pedro Aune
Cenografia: Sérgio Marimba
Iluminação: Renato Machado
Figurinos: Kika Lopes e Heloisa Stockler
Design de som: Gabriel D’Angelo
Assistente de direção: Vanessa Garcia
Coordenação de Produção: Leila Maria Moreno
Produção Executiva: Rafael Lydio
Apoio: One Health e ONS

SERVIÇO
Temporada de 15 de junho a 20 de agosto
De quinta a domingo, sempre às 20h30

TEATRO RIACHUELO
Rua do Passeio, 38/40 – Centro
Classificação etária: 12 anos
Duração: 120 minutos
Vendas na bilheteria do teatro e site da Ingresso rápido.
Valor ingressos:

Quinta e sexta:
Platéia Vip – R$ 130
Platéia e Balcão Nobre – R$ 100
Balcão Simples – R$ 50

Sábado:
Platéia Vip – R$ 150
Platéia e Balcão Nobre – R$ 120
Balcão Simples – R$ 50

Domingo:
Platéia Vip – R$ 100
Platéia e Balcão Nobre – R$ 80
Balcão Simples – R$ 40


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalcanti -

    Amei a crítica e o musical!
    Assisti duas vezes e com certeza voltarei!

  2. MAYSA DE LACERDA FREIRE -

    UMA PEÇA DA MAIOR IMPORTANCIA PARA A CULTURA POPULAR BRASILEIRA.A VERSATILIDADE DOS ATORES, AS VOZES MAGNIFICAS DAS CANTORAS E A CENOGRAFIA FAZEM DO ESPETÁCULO UM ALERTA PARA QUE OS GOVERNANTES ATENTEM PARA A NECESSIDADE ABSOLUTA DE INVESTIR EM CULTURA. PÚBLICO ENTUSIASMADO QUE APLAUDIU DURANTE 5 MIN DE PÉ. MAYSA DE LACERDA FREIRE.EDUCADORA

  3. Iza Araújo Pina -

    Sensacional espetáculo! Cômico e emocionante, figurinos maravilhosos, pareciam mesclar o lúdico com o rústico. Incrível a pluralidade dos artistas atores, cantores, músicos e dançarinos, até.
    Pudesse o maravilhoso Suassuna assistir, ele amaria. Extasiante!

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