Crítica Teatro Infantil: A Bela e a Fera – Um Musical Sobre a Verdadeira Beleza


 
fera2

Foto: Marcos Carvalho

Por Renato Mello

Com exceção do Teatro dos Quatro, existe no próprio meio uma estigmatização com o teatro infantil praticado no Shopping da Gávea. Nesse contexto o Teatro Vanucci assume um papel de protagonismo. Devo admitir que tal visão não é sem propósito e nem obra de um preconceito vazio, mas decorrência da ausência total de curadoria ou seleção criteriosa por parte dos teatros, sendo que no caso específico do Vanucci sua (má) fama muito deve ao que se denominou a boca pequena como “rodízio de teatro”, com espetáculos diferentes se apresentando às 14, 15, 16, 17 e 18 horas, com o público que deixa o teatro de uma sessão esbarrando com o público da sessão seguinte, com 10 minutos de intervalo entre ambas apresentações. Como me questionou um diretor de teatro infantil: como montar um cenário decente em 10 minutos? Igualmente pergunto que desenho de luz é possível elaborar? Que ajuste de som se pode fazer? Obviamente trata-se de uma visão mercantilista por parte do teatro, com a única preocupação ocupar($$$$$) seus horários e entendendo que teatro infantil não necessita de uma maior elaboração artística ou estética. “Aaaah! É só para criança”, me ironizou certa vez o músico Jay Vaquer sobre essa situação.

Tal quadro tem como resultado prático a acomodação de “artistas” preguiçosos. “É o que temos”, dão de ombro, conformados. Mas para artistas inquietos de alguma forma acaba sendo combustível para manter vivo seu espírito criativo ao driblar os obstáculos.

Toda generalização é perigosa. Nesse cenário imposto pelo “esquema VanucciCarla Reis é uma adorável exceção(não é a única), com um histórico de seriedade, desenvolvimento criativo e parcerias artísticas bastante produtivas. Mesmo suas opções dramatúrgicas pelos contos infantis teimam(felizmente) em remar contra a corrente.

Sim, outro ponto estigmatizado e um prato cheio, sob a capa do “domínio público”,  para aproveitarem-se e copiar num palco filmes inteiros da Disney. Recordo-me que 2 anos atrás fui ver uma adaptação de “A Bela e a Fera” no Teatro dos Grandes Atores(outro teatro sem o menor critério de seleção de espetáculos infantis) que no release que recebi dizia “uma livre adaptação do famoso conto ‘A Bela e a Fera’”. Cabreiro, tratei na véspera de assistir ao desenho e ler o livro para traçar comparativos. No dia seguinte minhas suspeitas se confirmaram. Do livro pouco tinha, cerca de  90% dos diálogos do filme da Disney estavam integralmente copiados e todas as músicas do desenho utilizadas sem o menor critério. Poucas vezes saí tão revoltado do teatro com tanta desfaçatez.

Como já disse em outros textos, nada tenho contra adaptação dos contos clássicos, acho inclusive necessários na preparação do espírito infantil no caminho da vida prática. Mas também não vejo sentido em sua montagem sem a busca de um acréscimo artístico. É justamente nesse ponto que Carla Reis se difere de muitos de seus pares.

fera12

Foto: Marcos Carvalho

Não é seu primeiro espetáculo adaptado desse conto escrito em 1740 por Gabrielle-Suzanne Barbot e que tem sua versão mais difundida nas modificações realizadas em 1756 por Jeanne-Marie LePrince, embora existam registros mais remotos dessa história que datam 1550. Creio que a primeira montagem de Carla Reis se deu em 2013 e posteriormente realizou uma adaptação natalina.  A diretora modificou o texto anterior, músicas e alterou algumas questões de personagens em comparação com sua montagem anterior.

Um dos aspectos cruciais de sua estrutura narrativa é a duradoura e frutífera parceria com Bruno Camurati, neste caso reforçada por Wagner Mônaco, que inserem na dramaturgia canções que dialogam e acrescentam bastante para a fluidez ao espetáculo, além de ritmarem a apresentação com a apurada qualidade artística de letras e melodias.

A dramaturgia de Carla Reis concentra 90% das suas ações dentro do castelo, excluindo todo o contexto aldeão do texto original, o que se tratando da condensação em 50 minutos, acaba sendo uma opção bem-sucedida, enxuga o essencial e dessa forma consegue um melhor delineamento dos personagens que fazem parte do entorno dos protagonistas.

Algumas soluções cênicas foram alteradas entre as montagens. A que mais me chamou a atenção foi a transformação do príncipe na besta, justamente um dos maiores achados da sua 1ª montagem, que causavam impacto visual pelo desenho de luz combinado com a movimentação do elenco nas sombras e utilização de acrobacias. A variante encontrada na atual montagem se mostrou consistente, embora menos surpreendente. Carla Reis desenha com eficiência o esquadrinhamento cênico e explora o humor num alcance que contribuem positivamente para o preenchimento narrativo, apenas ressalvando como desnecessário o artifício de alguns “cacos contemporâneos” nos diálogos. As coreografias de Carla Reis dialogam com o tom narrativo, dando leveza e  dinâmica, enfatizando o tom bem-humorado tão típico dos seus trabalhos. Um destaque especial para a utilização da canção “O Meu Sangue Ferve Por Você“, hit dos anos 70 de Sidney Magal, que na interpretação de Giovanna Rangel e Augusto Volcato ganham o público(não afirmo, mas tenho uma vaga lembrança que essa sequência estava na 1ª montagem).

fera4

Foto: Marcos Carvalho

A Fera de ambas adaptações possuem predicados distintos(sem fazer aqui qualquer comparação de capacidade entre Nando Moretzsohn e André Rayol). Nando Moretzsohn na montagem anterior compôs um personagem que se expressava com bastante eficiência na utilização do equilíbrio corporal e da técnica circense, enquanto André Rayol consegue uma capacidade vocal e uma impostação física que ampliam um entendimento de seus sentimentos e intenções. Por falha de um detalhamento mais preciso em minha memória não tenho como afirmar se essa diferença de características acabou por alterar algumas questões cênicas da diretora, mas admiro ambos atores.

Julie Duarte interpreta a protagonista Bela, uma personagem que rompe com os padrões impostos para as mulheres em sua época, recusando o mero papel de vislumbrar-se como uma genitora submissa em seu futuro de vida, com uma cultura rara para as mulheres de sua época, imaginativa, personalidade forte, uma sensibilidade aflorada que lhe permite ver mais além do que lhe apontam seus olhos. Julie consegue dar ênfase para essa mescla de sentimentos e faz com naturalidade a transição que remexe seu personagem, numa atuação que dosa sutileza, graça e força.

Os papeis coadjuvantes são defendidos por Augusto Volcato, Ed Muñoz, Giovanna Rangel, Giulianna Farias e Pedro Thomas Vanucci, com destaque para as atrizes. Giovanna Rangel é uma atriz que já tive a oportunidade de assistir em várias oportunidades, sempre  se destacando pela espontaneidade e carisma, sendo que na última vez que a vi em cena acabei desapontado, não por sua atuação, mas por vê-la num espetáculo muito aquém de sua capacidade. Fico contente em assistir mais uma atuação sua conduzida pela segurança da direção de Carla Reis, que consegue explorar admiravelmente seus recursos técnicos. Conheci Giulianna Farias igualmente pelas mãos de Carla Reis, que na época me chamou a atenção pelas suas possibilidades na exploração das zonas humorísticas, algo que mais uma vez realizou com bastante competência num papel com características muito específicas. Ed Muñoz, Augusto Volcato e Pedro Thomas complementam com correção as atuações e as funções que lhe são impostas.

fera6

Foto: Marcos Carvalho

André Guerra tem a ingrata tarefa de implementar um cenário em 10 minutos. Com soluções simples alcança eficiência na sua proposta e consegue abarcar o imperativo narrativo e cênico de Carla Reis. Os figurinos de Fernanda Lima se encontram dentro da contextualização necessária.

Em meio a espetáculos, inclusive em tempos muito recentes, que me deixaram de cabelo em pé, com direito a Branca de Neve, Aurora, Elsa, Homem Aranha, Batman e Charada dentro de um mesmo palco de teatro(Alô DC Comics! Alô Marvel! Vocês autorizaram? Pagaram os direitos autorais?), ainda assim encontramos no Shopping da Gávea artistas comprometidos com o fazer da sua arte um espaço imaginativo e original. Carla Reis é quem melhor defende essa trincheira, que se um dia resolver mirar em seu exemplo, seria um lugar incrível no desenvolvimento de um teatro infantil consistente.

fera10

Foto: Marcos Carvalho

FICHA TÉCNICA:

Texto e Direção: Carla Reis

Elenco: André Rayol, Augusto Volcato, Ed Muñoz, Julie Duarte, Giovanna Rangel, Giulianna Farias e Pedro Thomas

Trilha Sonora Original e Direção Musical: Bruno Camurati e Wagner Mônaco
Composições: Bruno Camurati
Arranjos Instrumentais: Wagner Mônaco
Cenografia: André Guerra
Figurinos: Fernanda Lima
Iluminação: Éder Nascimento
Sonorização: Fernanda Nanzali
Coreografia: Carla Reis
Fotos: Marcos Carvalho
Direção de Produção: Roberta Marinho Duarte
Produção Executiva: Erika Thomas
Realização: Setembro Produções


Palpites para este texto:

  1. Carla Salomao -

    Eu e a minha filha Maria Eduarda amamos a peça…Os figurinos estavam lindos!!!
    Todos os atores estão de Parabéns!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

novembro 2017
D S T Q Q S S
« out    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930