Crítica Teatro Infantil: Bituca, Milton Nascimento Para Crianças


 
Foto: Andrea Rocha

Foto: Andrea Rocha

Por Renato Mello

Adultos entediados mexendo sem parar no celular, acreditando cumprir suas funções de pais enquanto os menores se entretém com qualquer princesa que se mexa no palco. Esqueça por completo esse cenário que quem é habitué dos meandros do teatro infantil já conhece de cor. O que se vê ao longo da apresentação de “Bituca, Milton Nascimento para Crianças” é uma total comunhão entre pais e filhos, empolgados e emocionados. Após a sessão, vi muito adulto já cascudo com lágrima nos olhos. “Bituca, Milton Nascimento” amplia capacidade de seus próprios conceitos originais, mais que teatro infantil, teatro para a família.

Bituca, Milton Nascimento para Crianças” é o terceiro espetáculo do projeto “Grandes Músicos Para Pequenos”, que tem por objetivo principal introduzir ao público infantil obra de artistas que contribuíram decisivamente para compor nosso caráter cultural, como os anteriores “Luiz & Nazinha – Luiz Gonzaga Para Crianças” e “O Menino das Marchinhas – Braguinha Para Crianças”. Tal como os espetáculos anteriores do projeto “Grandes Músicos Para Pequenos”, tem direção de Diego Morais e texto de Pedro Henrique Lopes, cumprindo temporada no Teatro dos Quatro até 27 de agosto.

Como aponta sua própria sinopse, conta “a história do pequeno Milton que, ao ficar órfão aos 2 anos de idade, é adotado pelos patrões de sua avó. Chegando a Minas Gerais, o menino precisa lidar com o preconceito da sociedade por seu negro e ter pais brancos”. Segundo o diretor Diego Morais, “o musical é um tributo ao Milton Nascimento, então nos inspiramos em passagens da vida dele, mas também criamos momentos ficcionais para debater temas como adoção, bullying e preconceito racial de maneira lúdica”.

Uma das principais virtudes nos textos que Pedro Henrique Lopes tem desenvolvido no seu projeto é criar dramaturgias de acordo com o espírito de cada obra musical que embala, algo nem sempre tão fácil de atingir, remetendo à essência de cada um dos artistas reverenciados. Em “Luiz & Nazinha”, por exemplo, me encantou a forma como se utilizou de linhas simples e aspectos singelos para preencher a construção narrativa da sua visão de Luiz Gonzaga. Em “O Menino das Marchinhas”, talvez a maneira como ambientou seu tempo físico no retratar de aspectos que consolidaram no imaginário nacional uma cultura popular carioca seja a grande virtude. Penso que em “Bituca”, Pedro Henrique imprimiu uma maior contundência no aprofundar de temáticas importantes que rodearam o universo de formação de Milton Nascimento, principalmente na questão do racismo vivido por uma criança negra num ambiente predominantemente branco, mas sem jamais perder de vista todo um aspecto lúdico e poético que habitam nas suas composições. Gosto bastante de todos os 3 espetáculos, mas enxergo em “Bituca” um texto mais potente, em que as canções irrigam com inteira harmonia toda a narrativa, elevando os tons de uma descarga emocional sobre uma plateia que se deixa entregar ao mundo que formou Milton Nascimento para todos nós.

A composição cênica de Diego Morais é muito feliz na maneira como realiza as transições dos ambientes sem uma quebra do ritmo, corrobora muito a concepção cenográfica de Clivia Clohen(que abordarei mais abaixo). Diego Morais consegue expor todas as variáveis dos sentimentos extraídos no texto de Pedro Henrique Lopes em diferentes tons emocionais através da sua construção cênica, deixando transparecer cada palavra de canções que de algum modo são hinos que carregamos como uma música interna que nos habita desde nossos próprios remotos tempos, como por exemplo no lindo momento criado para “Canção da América” sob a luz de lampiões, mas ao mesmo tempo sem perder um  humor rasgado que inventou “Para Lennon & McCartney”. O resultado é um espetáculo inteiramente fluído, evitando rebuscamentos desnecessários mas sem abrir mão de uma estética bem definida, talvez por isso mesmo, amplamente eficaz.

O elenco formado Udilê Procópio, Martina Blink, Aline Carrocino, Anna Paula Black, Marina Mota e Pedro Henrique Lopes realiza um eficiente trabalho conjunto, todos com bom domínio da técnica vocal e capacidade interpretativa, mas há que se destacar Udilê Procópio, Aline Carrocino e Martina Blink. Udilê Procópio foi um belo achado para o espetáculo. Além dos aspectos físicos que remetem plenamente ao que deveria ser um Milton criança, Udilê encontra a força, a doçura e a emotividade, impressos tanto na sua interpretação, quanto no seu canto. Aline Carrocino!!! Um dínamo que pulsa permanentemente em cena, impossibilitando-nos de tirar os olhos de sua movimentação, trejeitos e com enorme graça. Sua interpretação de “Coração de Estudante” arranca enormes gargalhadas, não só dos pequenos, mas de adultos que riem como se crianças fossem. A doçura que Martina Blink exprime para a mãe de Bituca é encantadora, emanando suavidade e ternura.

 Os cenários de Clívia Cohen são perfeitos! Volúveis e funcionais, modificando por completo de acordo com as viradas e mudanças nas ambientações, podendo transformar rapidamente um trem num quarto e depois numa sala de aula. Os figurinos, igualmente assinados por Clívia Cohen, ajudam a dar graça e realçar a ambientação, com boa contribuição do visagismo de Vitor Martinez.

Importante destacar os ótimos arranjos de Guilherme Borges. Sofisticados, inventivos, a serviço da dramaturgia, respeitando os princípios básicos e organicidade, vestindo toda a beleza das canções de Milton Nascimento e todo o ambiente de Minas Gerais, com enorme acerto nas diversas formas de expressa-las, principalmente na utilização de “Bola de Meia, Bola de Gude“, como um mote que aclara todo o conceito da montagem.

Iluminação de Carlos Lafert compõe belos quadros que ampliam sensivelmente as expressões de cada cena e música.

 Sem perder de vista  o árduo caminho para realizar um dos melhores espetáculo infantis do ano,  “Bituca, Milton Nascimento para Crianças”, demonstra a força  que habita em canções que atingem as zonas sensíveis de todos nós, crianças ou adultos.

Foto: Andrea Rocha

Foto: Andrea Rocha

Ficha técnica:
Direção: Diego Morais
Direção Musical: Guilherme Borges
Texto: Pedro Henrique Lopes

Elenco: Udylê Procópio, Martina Blink, Aline Carrocino, Anna Paula Black, Marina Mota e Pedro Henrique Lopes

Cenário e figurinos: Clívia Cohen
Iluminação: Carlos Lafert
Visagismo: Vitor Martinez
Produção e realização: Entre Entretenimento

Serviço:
Bituca – Milton Nascimento para Crianças
Temporada: De 05 de agosto a 27 de agosto
Teatro dos Quatro: Rua Marquês de São Vicente, 52, Gávea.
Telefone: (21) 2239-1095
Dias e horários: Sábados e domingos, às 17h
Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia-entrada)
Lotação: 402 pessoas
Duração: 55 minutos
Classificação: Livre
Funcionamento da Bilheteria: De segunda a sábado, das 13h às 21h. Domingo, das 13h às 20h.

Assessoria de imprensa
Racca Comunicação – Rachel Almeida


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