Crítica Teatro Infantil: Casa Caramujo


 
Foto: Guga Melgar

Foto: Guga Melgar

Por Renato Mello

Uma proposta teatral sobre um tema que os pais costumam ter dificuldade de abordar com os filhos: a inevitabilidade da morte. “Casa Caramujo”, texto e direção de Gustavo Paso, em cartaz para uma temporada que se estenderá até o dia 28 de maio no Oi Futuro Flamengo

Como aponta sua sinopse oficial, “ao perceber que poderá perder sua mãe doente, um menino enfrenta a ‘morte’ e consegue aprisioná-la dentro de uma casa de caramujo, que havia sido deixada pelo seu dono (Caramujo) para se banhar. Quando retorna para casa, encontra sua mãe com uma saúde de ferro. Mas, aos poucos, eles e todos os moradores do lugar começam a se deparar com um fato: ninguém consegue mais colher frutos, legumes, verduras e pescar. Aprisionada, a morte deixa de agir e ninguém mais consegue se alimentar, quebrando, assim, o ciclo da vida. O menino então precisa mergulhar no fundo das águas e, com ajuda do Caramujo, resgatar a sua casa e a dona morte”.

– Bergman para crianças?” Logicamente essa piadinha que fiz ao sair da sala de teatro não se referia a alguma similaridade na densidade ou complexidade d’“O Sétimo Selo”, mas pela inteligência com que Gustavo Paso desenvolve sua abordagem para uma temática que pode de início aparentar pouca palatabilidade e que ganha um tratamento, embora revestido de camadas filosóficas, que possui todo um aspecto lúdico buscando expor o sentido do ciclo da vida através de atos prosaicos, como quebrar um ovo, colher, verduras, fazer uma canja ou pescar, articulando uma contextualização de que a continuidade da vida depende necessariamente do convívio com a morte.

Para estruturar sua proposta cênica, Paso se utiliza de distintas linguagens teatrais que convivem harmonicamente ao longo do arco narrativo do espetáculo. Entre as razões que permitem sua coabitação é a consistente carpintaria dramatúrgica, além de um elenco capaz de expressar-se eficientemente nas distintas transições técnicas, como a manipulação de bonecos(sob supervisão de Marcio Nascimento, uma referência nessa técnica), a utilização de máscaras(criação de Marise Nogueira, outra referência), a linguagem do cartoon, e o Teatro Negro, esta última, além de ser uma excelente solução cênica para a narrativa, gera um impacto visual deslumbrante.

Em relação a técnica do Teatro Negro, consultei Marcio Nascimento para um melhor detalhamento:

São lâmpadas que chamamos de luzes negras também, que em contato com cores fosforescente alimentam essas cores. Há uma companhia muito famosa em Praga que monta espetáculos inteiros com esse recurso. Há outras cias também. Acho cansativo! Pois pode se esgotar rapidamente essa ‘mágica’. A ideia é criar essa ilusão mesmo: anular os animadores/atores que usam roupas pretas com fundo preto, realçando os objetos, coisas…Pesquisamos muito que preto era esse que com a luz negra não ficasse roxo”.

Foto: Guga Melgar

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Acredito não ter sido das tarefas mais fáceis a montagem de um elenco que se adequasse às exigências da proposta cênica, mas Gustavo Paso encontrou em Felipe Miguel(Jonas), Antonio Barboza(Caramujo), Marcio Nascimento(Tio Apolinário), Raquel Botafogo(Morte e Geralda) Viviani Rayes(Mãe) e Dody Cardoso(voz do Dr Enguia), um elenco de bastante capacidade. Felipe Miguel tem a função de desencadear os rumos da narrativa com seu pequeno Jonas, com o ator desempenhando satisfatoriamente sua interpretação, encontrando uma tonalidade adequada e sem exageros ou didatismos no percurso da busca do seu personagem pela trilha da maturidade. Marcio Nascimento dá vida ao Tio Apolinário num desempenho que é impossível tirar os olhos de seu foco. Poucos atores se expressam tão bem corporalmente como Marcio Nascimento, com total domínio das cenas que seu personagem surge em destaque, responsável pelos mais deliciosos e engraçados momentos da apresentação. Tal como Marcio Nascimento, costumo encontrar dificuldade em  abordar o trabalho de Raquel Botafogo sem utilizar muitos predicados, tal a  sua quantidade de recursos que já presenciei em outros espetáculos. Raquel Botafogo tem duplo papel, Geralda e a Morte, sendo nesse último o que se destaca, sob a utilização de máscara e de um trabalho de composição de extremo grau de dificuldade, que a atriz realiza com postura corporal e vocal perfeitas, além de um aspecto que costuma ser caro para os atores, o despojamento de qualquer veste de vaidade. Sua atuação em “Casa Caramujo” reforça minha admiração por seu trabalho. Viviani Rayes, outra atriz com um consistente trabalho teatral a fazer parte desse ótimo elenco, embora com características distintas aos caminhos trilhados por Marcio e Raquel, mas com bastante solidez. Viviani Rayes é a mãe de Jonas, uma personagem que é involuntariamente o agente propulsor das ações de Jonas, ao mesmo tempo é quem lhe trará o senso de equilíbrio. Antonio Barboza é o caramujo que  necessita procurar sua “casa”, aonde Jonas aprisionou a morte, que o ator apresenta com bastante empatia e qualidade na sua linha de atuação.

A concepção cenográfica de Gustavo Paso e Luciana Anselmi abre de maneira eficaz um espaço para que a proposta narrativa evolua fluentemente, com muitas transformações ao longo da apresentação, mas sempre à serviço tanto da dramaturgia, quanto da composição cênica do diretor, assim como a diversidade dos adereços utilizados acompanham todas necessidades impostas no roteiro. Os figurinos de Luciana Anselmi contribuem qualitativamente tanto o processo de composição dos atores, assim como na criação da atmosfera lúdica. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros tem papel preponderante ao dialogar e deixar-se permear pelas várias condições envergadas ao longo da encenação.

Casa Caramujo” é um projeto ousado de Gustavo Paso, pela sua temática e pelas opções cênicas, que o diretor alinha com extrema competência e sensibilidade, resultando num ótimo espetáculo destinado ao público infantil

Foto: Guga Melgar

Foto: Guga Melgar

SERVIÇOS:
CASA CARAMUJO
Temporada até 28 de maio
Local: Oi Futuro Flamengo
Classificação: Indicado para maiores de 08 anos
Horário: Sábados e domingos – às 16h
Duração: 50 minutos
Gênero: Infantil
Valores: R$ 20,00 (inteira) R$ 10,00 (meia)
Lotação: 63 lugares – sendo 2 para cadeirantes
OBS: vendas na bilheteria e online – aceita cartões, exceto Ello

Ficha técnica
Texto: Gustavo Paso (inspirado em uma narrativa da tradição oral escocesa do século XI)
Direção: Gustavo Paso
Elenco: Raquel Botafogo, Marcio Nascimento, Viviane Rayes, Antonio Barboza e Felipe Miguel
Figurinos: Luciana Anselmi
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Cenário: Gustavo Paso e Luciana Anselmi
Direção Musical: Andre Poyart
Direção de Produção: Luciana Favero
Técnicas de Treinamento Corporal: Fernando Vieira
Técnicas de Treinamento para manipulação: Marcio Nascimento
Mácaras: Marise Nogueira
Assessoria de imprensa: Duetto comunicação
Realização: CiaTeatro Epigenia


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