Crítica Teatro Infantil: Cinderela Lá Lá Lá


 

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Por Renato Mello

Para contar uma história já encenada no teatro infantil das mais diversas formas, sobre a qual pude assistir memoráveis montagens e outras que pretendo legar aos grotões do esquecimento, a paulistana Cia Le Plat du Jour desembarca no CCBB do Rio com “Cinderela Lá Lá Lá” para numa curta temporada apresentar sua encantadora versão do famoso conto de fadas.

Já havia recebido boas referências sobre o trabalho desenvolvido pela Cia Le Plat du Jour, com um histórico de reinventar os clássicos contos de fada com criatividade e bom humor. O sentimento que me passou a partir desse espetáculo, mesmo sem ter visto trabalhos anteriores que me permitam uma maior amplidão do olhar, é que existe ali dentro o aprofundamento na consolidação de uma linguagem que se desenha numa assinatura muito específica, além de um processo de maturação e decantação da sua narrativa. O que pude presenciar em “Cinderela Lá Lá Lá”, salvo estar muito enganado, é que não se trata de uma especificidade deste trabalho, mas todo um moto-contínuo.

Esse olhar particular já é percebido assim que entramos na sala III do CCBB, mesmo nos pequenos detalhes, nos acabamentos de cenário, figurinos expostos, na disposição do desenho de luz. Já existe ali uma proposta que busca nos acolher para uma atmosfera toda ela muito bem planejada para levar adiante o que nos projeta as diretoras Alexandra Golik e Carla Candiotto.

Ambas igualmente responsáveis pelo roteiro, que como já aponta a própria sinopse oficial do espetáculo, “rodeada de croquis, Cinderela quer ser estilista. A madrastas malvada adora shopping center e vive com máscara de pepino no rosto. Invejosas, suas filhas sonham serem atrizes de musical. O antigalã Príncipe Emo luta esgrima e faz GV, a Fada Madrinha é musa do entertainment e o Pai de Cinderela, que está sempre ausente é um comerciante rico e elegante à lá Gene Kelly”.

A dramaturgia desenvolvida pelas diretoras insere enorme dosagem de frescor e originalidade para a narrativa pela forma como aponta para direções que surpreendem, por vezes em vias adoravelmente absurdas, mas sem perder o fio de coerência na solidez da história. Assim como diverte e ganha a cumplicidade do público na forma como se utiliza de referências modernas. Cabe destacar, que a inserção de “cacos” contemporâneos é um velho e manjado truque, mas no caso específico de “Cinderela Lá Lá Lá”, ao contrário do que ocorre na mediocridade de alguns espetáculos infantis, a abertura criada no texto de Golik e Candiotto permite esse acréscimo de uma maneira que seu encaixe não se dê de maneira forçada, mas irrigando a dinâmica cênica da apresentação.

Me pareceu que pela própria concepção cenográfica da montagem, o tamanho do palco do Teatro III do CCBB tenha ficado um pouco diminuto, ainda mais num espetáculo em que as atrizes entram e saem permanentemente de cena e inúmeras referências sobre o palco, tendo talvez(estou supondo) ocorrido algumas adaptações para uma melhor fluência na movimentação das atrizes. Independente disso, a direção de Golik e Candiotto é excelente, numa proposta desenhada a perfeição para que apenas 3 atrizes interpretem todos os papeis, sem que em nenhum momento ocorra uma oscilação no ritmo da peça e encontrando ótimas soluções para essa implementação. Neste mesmo ano pude assistir aqui no Rio um outro espetáculo de São Paulo que nos trazia semelhança nesse tipo de dinâmica, no caso o “Cinderela” dirigido por Iser Korik, em que Ian Soffredini e Michelle Zampieri interpretavam todos os papeis. O que torna o teatro justamente encantador é que mesmo nessa suposta semelhança, ambos se complementam de modo inteiramente diverso no olhar da mesma obra matriz, sem fazer aqui nenhuma espécie de comparação no julgamento de valor.

O modo como são conduzidas pelas diretoras em cena,  Bebel Ribeiro, Flávia Strongolli e Paula Flaibann, sustentam a coluna central da proposição, numa representação que exige a utilização de diversos atributos  técnicos para se complementar cenicamente, formando as atrizes um tripé que se equilibra mutuamente em todo o transcorrer da apresentação, que qualquer desnivelamento descarrilharia o andor,  utilizando-se com qualidade da direção de movimentos, da técnica corporal, vocal, coreografia(assinada pelas próprias atrizes),timing do humor e um belo jogo cênico. Mesmo dentro desse processo coletivo é possível perceber a abertura para o surgimento das individualidades, em que cada uma das atrizes a seus respectivos tempos, tenham deixado suas presenças e desse modo transformam o espetáculo em algo vivo, emocional e eliminando qualquer resquício de uma mecânica fria.

Como já citei mais acima, os cenários e figurinos de Marco Lima surgem com extrema beleza na sua concepção, mas igualmente servem com adequação na implementação da proposta pela moldagem de  uma dinâmica que permite a modificação completa paulatinamente com o caminhar narrativo.

A trilha sonora assinada Gus Bernard e Cia Le Plat du Jour joga com uma abertura de possibilidades que acentuam a exposição do humor pela maneira com que brinca com as canções, desde citações a “Chicago” até no estribilho do “arrebita” do Roberto Leal e realçando aspectos que são muito bem explorados na direção de Alexandra Golik e Carla Candiotto

Assisto uma média de 4 a 5 variações sobre “Cinderela” por ano no teatro infantil, mas devo dizer que “Cinderela Lá Lá Lá” ganha, ao lado de “Borralheira, um Opereta Brasileira”(direção de Fabianna de Mello e Souza), um lugarzinho de destaque no meu coração.

Quero ansiosamente conhecer outros trabalhos da Cia Le Plat du Jour.

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SERVIÇO – “CINDERELA LÁ  LÁ LÁ”:
Centro Cultural Banco do Brasil – Rio de Janeiro
Data: De 15 a 30 de julho de 2017 (de quinta a domingo)
Horários: Quinta e sexta às 15h; Sábados e domingos, às 14h e 16h (4 sessões)
Duração: 70 minutos
Local: Teatro III do CCBB-Rio
Endereço: Rua Primeiro de Março, nº 66 – Centro – Rio de Janeiro
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia entrada)
Funcionamento da Bilheteria: De quarta a segunda, das 9h às 21h
Capacidade da Sala: 86 lugares
Tel. para informações: (21) 3808-2052
Acesso para pessoas portadoras de necessidades especiais e cadeirantes.
Fraldário (térreo) e estacionamento para carrinhos de bebê (no teatro).

FICHA TÉCNICA:
Criação: Cia Le Plat du Jour.
Texto e Direção: Alexandra Golik e Carla Candiotto.
Elenco: Bebel Ribeiro, Helena Cerello e Paula Flaibann.
Elenco Stand in: Flávia Strongolli e Beatriz Diaféria.
Trilha Sonora Original: Gus Bernard e Cia Le Plat du Jour
Letras das Músicas: Cia. Le Plat du Jour.
Produção Musical: Marco Boaventura e Carina Renó.
Produtora de som: Trilha Original Estúdio.
Iluminação: Wagner Freire.
Cenário e Figurino: Marco Lima.
Cenotécnica e Adereços: FCR Produções Artísticas.
Coreografia: Paula Flaibann, Helena Cerello e Bebel Ribeiro.
Assessoria de imprensa: Ciranda Comunicação.
Projeto Gráfico: Carla Antunes.
Ilustração: Iara Jamra.
Direção de produção: Cia. Le Plat du Jour.
Coordenação de projeto: Andréa Marques.
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalcanti -

    Montagem muito interessante! As três atrizes são incríveis! Tudo funciona e adultos e crianças se encantam! Parabéns Cia. Lê Plat du Jour!
    Amei a crítica Renato!

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