Crítica Teatro Infantil: Contos Partidos de Amor


 
Foto: Rai Junior

Foto: Rai Junior

Por Renato Mello

Seria hipócrita negar que alguns espetáculos geram uma maior expectativa para quem acompanha de muito perto o panorama do teatro infantojuvenil que se faz no Rio de Janeiro. Dentro desse raciocínio, um espetáculo de Duda Maia carrega uma aura própria, o que talvez para outros criadores poderia significar um fardo, pois a mera conceituação como “bom” já representaria uma decepção para o que se espera como um dos pontos mais elevados da temporada.

Sua nova incursão busca inspiração na obra de Machado de Assis, “Contos Partidos de Amor”, que permanecerá em cartaz até o dia 1º de abril no Teatro III do CCBB/RJ.

A proposta suscita de início uma série de desafios, algo que justamente se evidencia nos trabalhos de Duda Maia, a busca por diferentes formas de expressar a essência humana. Uma impensável lógica em adaptar o universo de Machado de Assis para crianças ganha sentido particular, assim com uma temática que gira ao redor de sentimentos como “amor” e “ciúme” para esse mesmo público. Outro desafio a ser ultrapassado é a construção de uma dramaturgia que sustente o espetáculo a partir de uma base literária fragmentada com histórias demarcadas no espaço do tempo machadiano, em que Duda Maia vislumbra sentimentos atemporais para serem contadas para as crianças do século XXI. É exatamente nesse aspecto acrônico que a diretora e o dramaturgo Eduardo Rios foram bem-sucedidos, conceituando ao mesmo tempo que desconstroem definições, ressaltando a força da palavra e refletindo sobre seu peso num trabalho laborioso que cria um jogo de contrapontos entre elas de forma a enxergarmos distensões de todo o seu relevo. O texto de Eduardo Rios se fixou basicamente em 2 contos, “To Be or Not To Be” e “A História da Fita Azul”, que subdividem os espaços narrativos sem que persista uma sobreposição, mas o complemento de um pensamento que sutilmente se deixa plainar pela ambientação.

é que meu guardado é tão bem guardado que às vezes parece perdido, mas não é”.

Foto: Rai Junior

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A expansividade comunicativa do espetáculo não se faz somente a partir da força da palavra, mas também com as falas corporais, amplificando intenções, reforçando dessa forma o peso das sentenças e exprimindo os não ditos. Corpos pulsantes, vitais, complexos, partículas individuais, que juntas formam uma organicidade narrativa coesa. A linguagem corporal é uma marca potente em qualquer trabalho que leve a assinatura de Duda Maia, e em “Contos Partidos de Amor” não é diferente, permeando sentimentalidades pela ambientação, num conceito mais amplo que integra harmoniosamente os diversos elementos teatrais(cenografia, iluminação, figurinos e música).

A escolha do elenco requer alguma complexidade pelas exigências que são atribuídas ao processo de construção proposto. Diego de Abreu, Isadora Medella, Luciana Balby e Tiago Herz atendem inteiramente as predisposições, com habilidades musicais variadas e principalmente uma sustentação mútua como num movimento pendular oscilante no entorno do ponto central, altercando a temática numa modulação que permite fluir com sensibilidade os intentos narrativos. A extensão do trabalho físico parece estar de alguma forma presente pela atmosfera formatada, integrando solidez em elevados níveis. Dentro dessa harmonia cênica que o quarteto representa, um ligeiro destaque por parte de Luciana Balby, sem nenhum detrimento do conjunto, pelo vigor com que desponta e vitaliza as representações, e Tiago Herz pela expressividade de seus gestos e ações, sem ultrapassar limites sutis.

O ciúme passa. O amor fica

Já mencionei diversas vezes como me incomoda em espetáculos infantis um descolamento entre a trilha sonora e a encenação, algo visto com muita freqüência, em que além de nada acrescentar à narrativa, carecem de carisma. Não há como deixar de enaltecer a excelente criação de Rico Vianna, com músicas além de belas, empáticas e que se misturam por dentro da dramaturgia para vivamente fazer parte coesa de todo o processo.

A direção de Duda Maia não permite uma separação dos diferentes elementos, perpassa-os num sentido contínuo, transformando as especificidades em algo que não se sabe bem aonde começa e termina, seja numa paleta tendendo aos tons avermelhados na iluminação de Renato Machado, também cenários e figurinos, Diogo Monteiro e Kika Lopes, respectivamente, numa variante dos tons vermelhos com brancos, pulsando nos corações estampados em formas e recortes.

Dentro daquela premissa que mencionei no primeiro parágrafo, de que classificar como “bom” seria uma decepção às expectativas, para quem encontra no teatro infantojuvenil uma fonte de prazer, “Contos Partidos do Amor” satisfaz por completo quem ali busca uma forma mais apurada de expressão e conceituação. Mais uma vez, Duda Maia apresenta um trabalho referencial.

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Foto: Raí Junior

FICHA TÉCNICA
“Contos Partidos de Amor”
Baseado na obra de Machado de Assis
Texto: Eduardo Rios
Direção e roteiro: Duda Maia
Diretora Assistente: Leticia Medella
Intérpretes-criadores: Diego de Abreu, Isadora Medella, Luciana Balby e Tiago Herz
Trilha Sonora Original: Ricco Viana
Preparação Vocal: Agnes Moço
Figurino: Kika Lopes
Cenário: Diogo Monteiro
Iluminação: Renato Machado
Identidade Visual: Anna Cunha
Fotografia: Rai Junior
Direção de Produção: Bruno Mariozz
Produção: Palavra Z produções culturais
Idealização: Camaleão produções culturais

SERVIÇO:
Temporada: 17 de março a 1º de abril de 2018.
Local: CCBB RJ – Teatro III (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro).
Informações: (21) 3808-2020.
Dias e horário: Sábados e domingos, às 16h e 19h.
Ingressos: R$ 20 (inteira) | R$ 10 (meia para clientes e funcionários do BB, estudantes e maiores de 60 anos).
Bilheteria: de quarta a segunda, das 9h às 21h.
Vendas online: www.ingressorapido.com.br
Duração: 50min.
Capacidade: 69 lugares.
Classificação indicativa: Livre.
Acesso para portadores de necessidades especiais
Para mais informações: ccbbrio@bb.com.br
http://culturabancodobrasil.com.br/portal/


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