Crítica Teatro Infantil: Isaac no Mundo das Partículas


 
Foto: Rudy Hübold

Foto: Rudy Hühold

Por Renato Mello

Tenho bem guardada em minhas lembranças a gravura de uma maçã caindo sobre a cabeça de Isaac Newton que havia na enciclopédia “Conhecer”. Sim, sou do tempo em que se fazia pesquisa escolar utilizando enciclopédias. Achava adorável a ideia de que um acontecimento tão prosaico fosse o responsável pela “Lei da Gravidade”. Alguns anos mais depois, ainda na carreira escolar, me deparei com a aplicação matemática da tal Lei da Gravidade.

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No momento em que a física deixou de ser algo lúdico para se tornar num emaranhado de equações, nossa relação nunca mais foi a mesma, agravado pela descoberta de que a tal história da maçã não passava de folclore. Ainda hoje acordo no meio da noite com um recorrente pesadelo de que zerei a prova de física no Vestibular. Com a respiração sobressaltada no vácuo da madrugada me recordo que apesar de ter sido discursiva, não zerei aquela prova, mas tirei um honroso 0,25 que me impediu de ser eliminado e assim entrar na Faculdade de Direito da UFRJ aonde encontraria o abrigo definitivo daquela sequência de números, barras, letras, chaves e colchetes cuja convicção pessoal é de que não passa de uma metáfora do nada. Mas uma coisa ainda me intriga quase 30 anos depois: de onde diabos consegui arrancar aquele 0,25?

Esse enorme preâmbulo serve de pretexto para abordar o novo espetáculo infantojuvenil que tem justamente como suas premissas introduzir um público muito específico ao universo da física de partículas, estimulando diferentes sentidos, de uma forma que até os mais refratários ao tema, como eu, consigam se conectar fluentemente com a proposta, resultando numa representação artística com capacidade de encantamento pela forma como se estrutura coerentemente a partir de seus vários elementos.

Isaac no Mundo das Partículas” se encontra em temporada no Oi Futuro Flamengo até 25 de março, a partir da adaptação da diretora Joana Lebreiro para o livro homônimo de Elika Takimoto.

Foto: Rudy Hühold

Foto: Rudy Hühold

Sua história começa quando o protagonista Isaac(João Lucas Romero) levanta uma série de questionamentos a partir do singelo gesto de observar um grão de areia da praia de Copacabana. Na interlocução entre o grão de areia(Claudio Mendes) e Isaac, toda uma viagem em busca do entendimento se inicia por lugares como o berço da filosofia na Grécia antiga e pelo que de mais moderno a tecnologia pode proporcionar(Organização Europeia Para a Pesquisa Nuclear), pelo olhar de um personagem enigmático, a partícula subatômica Bóson de Higgs(Julia Gorman).

Ler a sinopse acima pode até causar algum tipo de hesitação aos pais sobre a complexidade da proposta, mas justamente uma de suas maiores qualidades é a forma como a história se desenvolve em busca do entendimento conjuntamente com o público, sempre de maneira divertida, sem jamais deixar aquele ranço de didatismo, pelo contrário, criando um encadeamento que prende a atenção com a incitação da curiosidade. No momento em que os questionamentos vão sendo saciados, novas dúvidas surgem, como na linha do horizonte em ao chegarmos no que pretensamente julgamos ser seu fim, percebermos que sempre tem mais um caminho adiante.

O principal elemento de sustentação da proposta é a forma inteligente que o roteiro de Joana Lebreiro  se desenvolve, jamais fechando questões, pelo contrário, abrindo-as. Mas a diretora se demonstra consciente que a unidade de diferentes artísticos seria fundamental para o êxito da proposta, como a criação de uma estética particular, no caso inspirada no personagem Ziggy Stardust de David Bowie, na movimentação, visagismo, postura cênica. Mas quero ressaltar dois aspectos em particular: a trilha sonora e o videografismo.

Já comentei algumas vezes, principalmente em se tratando de teatro infantojuvenil, o quanto me incomoda várias trilhas sonoras compostas para boa parte desses espetáculos soando inteiramente desconectados da ação cênica. No caso de “Isaac no Mundo das Partículas” a trilha sonora composta por Ricco Viana e Joana Lebreiro tem várias funcionalidades, como preencher questões dramatúrgicas ou quebrar uma atmosfera para lançar-se imediatamente em outra. Mas acima de tudo são canções providas de carisma, que não passam batidas e com capacidade de ocupar o ambiente emocional. As letras são buriladas(quando uso a expressão “burilada” não me refiro a busca de uma complexidade, mas a unidade da elaboração poética com a eficiência narrativa),sem jamais apelar para as simplificações banais que infelizmente tive o desprazer de testemunhar numa recente megaprodução do teatro musical.

Falar das qualidades do trabalho de Rico e Renato Vilarouca é um pouco cair em terrenos da obviedade. Aqui a questão não é meramente da capacidade dos efeitos e imagens, mas o encaixe com ações e intenções, permitindo a flutuação do público para dentro da proposta.

A ambientação cênica de Joana Lebreiro opta por dispor os atores-músicos Julia Gorman, André Arteche e Júlia Shimura num plano ligeiramente superior ao fundo do palco, enquanto os personagens vividos por João Lucas Romero e Claudio Mendes desenvolvem as ações próximos ao proscênio, mas sem que ocorra uma desconexão entre ambos planos. As laterais vazadas por formas venezianas, num projeto cenográfico assinado por Natália Lana, em que os espaços  acabam sendo adequadamente aproveitados pelas ações da diretora.

Foto: Rudy

Foto: Rudy Hühold

A escalação do elenco foi uma escolha bastante feliz, com artistas de conhecida capacidade tanto como atores e músicos. Nesse campo, notadamente João Lucas Romero, a quem reputo como um dos mais representativos atores do atual teatro infantojuvenil, ótimo músico, criando uma composição correta na correlação da expressividade de sentimentos inerentes a faixa etária do protagonista, sem jamais ultrapassar a altura interpretativa de um personagem que quanto mais aprende, mais dúvidas suscita. Julia Gorman mais uma vez demonstra sua inesgotável capacidade expressiva, vocal e como multi-instrumentista. A segurança que transmite é sempre um suporte para permitir que a direção alce voos mais altos. Claudio Mendes, interpretando o grão de areia, interage adequadamente com João Lucas, dominando as ações com sua forte presença de cena e um bom tempo de humor. André Arteche e Julia Shimura tem maior parte de suas participações vinculadas aos aspectos musicais, mas atuam com correção quando puxados pela narrativa.

Figurinos de Bruno Perlatto atendem inteiramente a proposição de Joana Lebreiro, explorando as referências de David Bowie, assim como toda uma psicodelia, que por vezes interage com as intervenções das projeções dos irmãos Villarouca e o visagismo de Diego Nardes, Diva Correia e Lucas Souza.

Joana Lebreiro com sua habitual capacidade criativa, rege uma feliz conjunção de vários nomes significativos do teatro carioca, numa ficha técnica de muito bom nível, para fazer de “Isaac no Mundo das Partículas” a porta de entrada de uma temporada promissora para o Teatro Infantojuvenil.

Ficha Técnica:
Isaac no mundo das partículas
Baseado na obra homônima de Elika Takimoto
Texto adaptado e direção: Joana Lebreiro
Elenco: André Arteche, Claudio Mendes, João Lucas Romero, Julia Gorman e Júlia Shimura
Stand-in: Vicente Coelho e Pedrinhu Junqueira
Projeções do espetáculo e videoinstalação ‘Os mundos de Isaac’: Rico Vilarouca e Renato Vilarouca
Direção Musical: Ricco Viana
Canções: Ricco Viana e Joana Lebreiro
Figurinos: Bruno Perlatto
Iluminação: Paulo César Medeiros
Cenário: Natália Lana
Direção de movimento e Coreografias: Bruno Cezario
Diretora Assistente: Brunna Napoleão
Visagismo: Duoelo Visagismo
Maquiadores: Diego Nardes, Diva Correia e Lucas Souza
Figurinista Assistente: Rachel Rozenberg
Assistente de Figurino: Luisa Marques
Cenotécnico: André Salles
Técnico de Som: Leandro Meireles
Operador de Luz: José Luiz Jr.
Operadora de vídeo: Stella Maiques
Mídias Sociais: André Mizarela (Humans Creative Group)
Assessoria de Imprensa: Rachel Almeida (Racca Comunicação)
Programação Visual: Renato Vilarouca e Rico Vilarouca
Fotos: Rudy Hühold
Administração Financeira: Rodrigo Gerstner
Assistente de Produção: Marina Caran
Produtora Executiva: Débora Amorim
Direção de Produção: Camila Vidal
Idealização: Joana Lebreiro e Camila Vidal

Serviços:
Espetáculo ‘Isaac no mundo das partículas’:
Temporada: de 27/01 a 25/03
Teatro Oi Futuro: Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo.
Telefone: 3131-3060
Dias e horários: sábados e domingos, às 16h
Ingressos: R$ 20 (inteira) R$ 10 (meia)
Lotação: 63 lugares
Duração: 1h10
Classificação indicativa: livre
Funcionamento da Bilheteria: de terça a domingo, das 14h às 20h.

Instalação ‘Os mundos de Isaac’, de Rico Vilarouca e Renato Vilarouca.
Inauguração: 03/02/18, às 17h15.  (Fica em cartaz até 19/03)
Oi Futuro/Térreo: Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo.
Telefone: 3131-3060
Dias e horários: de terça a domingo, das 11h às 20h
Entrada franca
Classificação etária: livre.


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