Crítica Teatro Infantil: Lá Dentro Tem Coisa


 
Foto: Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

Por Renato Mello

Um projeto que já nasce na singularidade das expectativas. Motivos não lhe faltam, seja pela transposição do universo da “Partimpim” para os palcos, a escalação de um elenco raro até mesmo se um musical adulto fosse, ficha técnica composta por alguns dos mais expressivos criadores do teatro, e o próprio histórico dos idealizadores com seu espetáculo anterior “Mas Por Que?!? A História de Elvis”. Enfim, tudo para quem encontra no teatro infantojuvenil uma fonte de prazer ansiasse pela sua estreia.

Lá Dentro Tem Coisa” se encontra em temporada no Teatro dos 4 até o dia 29 de outubro, sob direção de Renato Linhares a partir da proposição de Felipe Lima.

Segundo aponta sua sinopse oficial, “A história de ‘La Dentro Tem Coisa’ se passa no dia do aniversário de 9 anos de Isabel – na abordagem lúdica da montagem, uma personagem dupla, Isa e Bel, meninas reflexos uma da outra, interpretadas respectivamente por Estrela Blanco e Luellem de Castro. Ao ganhar de presente dos pais a permissão para sair sozinha pela primeira vez, ela escolhe ir até a livraria, não muito longe de casa. No caminho, vai enfrentar o medo e conhecer a coragem e descobrir sensações e sentimentos diversos, bons e ruins, como raiva, mágoa, ansiedade, tristeza, expectativa, insegurança, incerteza, amor, desejo, gratidão”.

Foto: Renato Mangolin

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Com texto assinado por 2 autores com registros muito demarcados em seus trabalhos teatrais, Vinicius Calderoni e Rafael Gomes, reforçados pela forma poética com que Adriana Falcão costuma vasculhar cada palavra, “Partimpim”, coleção de canções lançadas pela cantora Adriana Calcanhotto dentro de um universo estético muito próprio, ganhou nessa adaptação uma amplitude e ao mesmo tempo um desassossego inventivo pela forma como dispõe de aspectos singelos, de pequenas “insignificâncias”, para propor uma narrativa maior a partir da personificação de sentimentos voláteis, construído pelo revolver de fragmentos dispostos aleatoriamente. Um roteiro com capacidade de criar um vínculo sólido com sua obra inspiradora e belas incursões filosóficas.

Foto: Renato Mangolin

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A direção de Renato Linhares desenha cenicamente a dramaturgia com belas soluções visuais sem jamais desconectar-se dos aspectos sutis e delicados. Sua direção de movimentos cadencia os gestos dos atores, como que coreografando uma dança plástica que acaba sobrepondo uma humanização a sentimentos voláteis soltos na atmosfera narrativa, como que os avivando pela ambientação.

Como mencionei na abertura deste texto, é extremamente raro a reunião de um elenco, ainda mais se tratando de teatro infantojuvenil, tecnicamente tão completo. Afirmar a capacidade de Estrela Blanco (Isa), Julia Gorman (Mãe), Leo Bahia (Medo), Leonardo Senna (Pai), Luellem de Castro (Bel) e Simone Mazzer (Coragem) é “chover no molhado”. Há um sentimento reconfortante de que tudo é fácil, simples, parecendo que se divertem em cena, quando na verdade sabemos que por trás de tudo que é aparentemente “fácil” reside uma base artística enorme, árduo trabalho e horas infindáveis de ensaios. É muito agradável assistir um espetáculo em que podemos esperar o imponderável e sermos constantemente surpreendidos. Numa análise mais superficial, podemos dividir o elenco em subgrupos, com atuações conjuntas construídas a 4 mãos Estrela Blanco e Luellem de Castro são as faces conflitantes e complementares de um mesmo espelho, formando numa composição em duo a representação da complexidade do personagem central. Julia Gorman e Leonardo Senna representam todas as contradições dos sentimentos por que passam os pais durante o árduo processo de educação e preparação dos filhos para encarar o mundo lá fora, se deparando com aquele momento tênue entre o represar e afrouxar o elo que os une à filha. Leo Bahia e Simone Mazzer personificam justamente todas essas dicotomias enormes existentes em apenas 2 sentimentos, o Medo e a Coragem.

10_Leonardo Senna e Julia Gorman_crédito Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

Um aspecto que considero relevante abordar é a questão da música ao vivo. Como faz diferença! O espetáculo ganha uma outra pulsação. Isso de fez muito presente em “Lá Dentro Tem Coisa”. Sei que essa opção nem sempre se faz por vontade, mas por questões pertinentes a orçamentos e mesmo a logística de alguns espaços teatrais específicos para o segmento infantojuvenil. Por vezes, utiliza-se a música com play back e os atores cantando ao vivo, válido, mas perde-se algo. Infelizmente o play back integral ocorre corriqueiramente com atores dublando em muitos casos vozes alheias. Isso sem falar no mais grave de tudo, como este ano mesmo testumunhei, a reprodução de gravação original da Disney, incluindo a voz dos dubladores da versão em português(e os pais aplaudindo entusiasmados os falsos agudos da atriz no palco).  A direção musical de “Lá Dentro Tem Coisa” dimensiona acertadamente a altura e a capacidade da narrativa pelos sensíveis arranjos de Felipe Habib, recriando a forma de algumas canções que tinham um registro bem marcado. Durante a apresentações, são executadas pelo elenco, juntamente com os músicos Gustavo Salgado, Evelyne Garcia, Bartolo e Marcelo Callado as seguintes canções: “Lição de Baião”, “Oito Anos”, “Ciranda da Bailarina”, “Ser de Sagitário”, “Borboleta”, “Formiga Bossa Nova”, “Fico Assim Sem Você” e “Saiba”. A trilha também traz “Poeta Aprendiz”, de Vinicius de Moraes e Toquinho, gravada por Calcanhotto no livro-disco homônimo.

A direção de arte foi conceituada por Vik Muniz, A cenografia assinada por Bia Junqueira, composta por esculturas, talvez instalações, que possibilitam aos atores não só interagirem por elas, mas igualmente servirem-se dela para “brincarem” em cena, adensando para a ambientação algo de etéreo, que vai de encontro com todo o aspecto orgânico da proposta.

Algumas palavras se repetem neste texto, talvez isso diga bastante sobre o espetáculo, como as variações do substantivo “conceito” e do verbo “brincar”. Palavras que não tenho como deixar de utilizar nos figurinos de Thanara Schönardie , deixando justamente um sentimento de  brincar com a gradação, a força das cores, a fosforescência dos tecidos,  variações e contrastes diante do desenho de luz de Tomás Ribas que lhes revelavam diferentes tonalidades.

Não sei ainda afirmar se “Lá Dentro Tem Coisa” é o que de melhor se apresentou neste ano no teatro infantojuvenil, mas sem dúvida está no patamar das mais elevadas criações artísticas do segmento destinado a um público que começa a formar seu olhar para o mundo que existe não muito além da porta de sua casa, começando a descobrir o mundo do lado de fora.

Foto: Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

FICHA TÉCNICA
ELENCO
Estrela Blanco
Julia Gorman
Leo Bahia
Leonardo Senna
Luellem de Castro
Simone Mazzer

IDEALIZAÇÃO – Felipe Lima
DRAMATURGIA – Adriana Falcão, Vinicius Calderoni e Rafael Gomes
DIREÇÃO – Renato Linhares
DIREÇÃO MUSICAL – Felipe Habib
DIREÇÃO DE ARTE – Vik Muniz
CENÁRIO – Bia Junqueira
FIGURINO – Thanara Schönardie
ILUMINAÇÃO – Tómas Ribas
PRODUÇÃO DE ELENCO – Marcela Altberg
PROGRAMAÇÃO VISUAL – Flavio Albino
FOTOS DE DIVULGAÇÃO – Daryan Dornelles
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO – Ana Paula Abreu e Renata Blasi
PRODUÇÃO – Diálogo da Arte Produções Culturais
REALIZAÇÃO – Sevenx Produções Artísticas

SERVIÇO:
Temporada: De 02/09 a 29/10.
Dias e horários: Sábados e Domingos, às 17h
Local: Teatro dos Quatro
(Rua Marquês de São Vicente, 52 – Shopping da Gávea)
Tel.: (21) 2239-1095
Ingressos: R$ 60 (inteira) | R$30 (meia)
Duração: 60 minutos.
Classificação: Livre.
Gênero: Musical infantojuvenil.
Horários da bilheteria: Segunda a sábado, das 13h às 21h. Domingo, das 13h às 20h. Ou até horário do último espetáculo.


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