Crítica Teatro Infantil: Makupuni


 

arte

Por Renato Mello

O destaque com que o Teatro Ipanema vem ocupando seu horário infantil no último ano pode ser bem medida não somente pela qualidade das peças ali apresentadas, mas igualmente pelas apostas em propostas que saem do óbvio, que por isso mesmo apresentam seus riscos, sem se restringir a nomes já estabelecidos no segmento. É o caso específico do espetáculo que cumpre temporada neste momento: “Makupuni”, texto e direção de Vida Oliveira.

Makupini” é um espetáculo que mistura a interatividade da peça-game com o teatro de animação. Um dos aspectos mais interessantes é a maneira como Vida Oliveira, uma autora que merece um olhar bem atento, cria todo um mundo particular para discutir questões como a aceitação das diferenças e individualidades na relação das crianças com os pais e com seu convívio social.

Segundo aponta sua própria sinopse oficial, “Makupuni é a ilha do futuro. Com tecnologia e ciência, é possível ter uma casa projetada para cada estilo de vida. É possível morar nas nuvens, no vento e até em submarinos embaixo d’água. As crianças são fabricadas no centro da ilha e já nascem perfeitamente educadas e adaptadas às suas famílias, e são encomendadas e entregues em caixas. Eis que em um belo dia, um grande mistério acomete a ilha. Um menino-polvo, que não cabe na casa submarina em que foi entregue; uma menina-âncora, que precisa se fixar no chão, mas sua família vive nas nuvens; e um menino-livro que nasceu numa família digital que não consegue ler o filho. Por causa desses problemas, eles são devolvidos por suas famílias”.

Um dos principais atrativos é a maneira como a sua construção estabelece um jogo interativo para determinar os rumos que o espetáculo deve seguir, que em tese, transforma cada apresentação em algo vivo, mutável e único. A interatividade ocorre através de placas coloridas que recebemos na entrada. Cada cor tem um significado a cada vez que somos estimulados a participar, sendo levantadas de acordo com as opções que desejamos para os rumos do espetáculo, utilizando um software para apurar a escolha da plateia.

É necessário um comando muito preciso e uma base estruturada para poder se aventurar com desenvoltura pelas trilhas possíveis, algo que além de ensaio, exige dinamismo para mudar o rumo do barco para aonde o vento aponta. Aspectos que a direção de Vida Oliveira desenha com eficiência, deixando a estrutura cênica segura, assim como transpõe ao palco uma composição estética que possibilita a materialização do universo que idealizou em seu roteiro, contando para isso com a engenhosidade da cenografia de Paulo Denizot, que com elementos simples, basicamente caixas de papelão, permitem a fluência para a apresentação, assim como se apoia em diferentes técnicas narrativas, começando pelas excelentes criações das projeções de Rico e Renato Vilarouca que contribuem decisivamente para dar forma a toda a carga narrativa, além do teatro de sombras e a manipulação de bonecos.

Em relação a manipulação de bonecos, importante abrir um parêntese para ressaltar que na ficha técnica consta o apoio de Cia Pequod. Não sei até que ponto se deu esse apoio, mas trata-se de uma das fundamentais referências nessa técnica em nosso país, com os bonecos criados por Marcio Newlands.

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Os atores Miguel Araujo e Luiza Sussekind são responsáveis em cena pelo domínio de todas as ações e a consolidação da proposta pela capacidade de comunicação que imprimem junto ao público, demonstrando comando, sem perder a leveza, e harmonia na maneira como conduzem a história.

Figurinos de Raquel Theo veste com adequação as necessidades dramatúrgicas. A trilha sonora de Ricco Viana desempenha papel de destaque, embando com bastante harmonia toda a construção cênica de Vida Oliveira, casando o ritmo com a intensidade dramatúrgica.

Apesar de todo um aspecto singelo e lúdico, a proposta não é simples, aventura-se. Acredito que tenha sido um processo tortuoso em dúvidas e questionamentos para Vida Oliveira. Mas é muito bom saber que existem criadores que estão longe de se acomodar, buscando sempre desafios para expressar sua arte. Meu profundo respeito!

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Serviço:
MAKUPUNI
Local: Teatro Ipanema
Data: 05/08 a 10/09 – sábados e domingos.
Horário: 16h
Entrada: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15 (meia)
Classificação: Livre. Indicado para crianças a partir de 8 anos.
Contato: cegonhabando@gmail.com – (021) 981082856
Lotação: 193 lugares

Ficha técnica
Autora: Vida Oliveira
Diretora: Vida Oliveira
Direção dos bonecos: Miguel Araujo
Assistente de direção: Pedro Maia
Elenco: Miguel Araujo e Luiza Sussekind
Trilha sonora original: Ricco Viana
Cenário e Luz: Paulo Denizot
Projeções: Rico Vilarouca e Renato Vilarouca
Figurino: Raquel Theo
Criação de bonecos: Márcio Newlands
Supervisão da Direção de Movimento: Jacyan Castilho
Produção Audiovisual: Zhai Sichen
Direção de produção: Vida Oliveira
Produção executiva: Joana Martins
Assistente de produção: Miguel Araújo
Identidade visual: Guilherme Borges
Social Media: Kamyla Abreu
Assessoria de Imprensa: Olga Bon
Realização: Cegonha – Bando de Criação


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