Crítica Teatro Infantil: Makuru – Um musical de ninar


 
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Foto: Yvina Raira

Por Renato Mello

Em cartaz para uma temporada prevista até o dia 27 de agosto, “Makuru – Um Musical de Ninar” leva ao palco do Oi Futuro Flamengo uma proposta de avivar a tradição das canções de ninar, sob a direção de José Mauro Brant e concepção musical de Tim Rescala.

Sua proposta, como sugere sua própria sinopse oficial, “gira em torno de uma família – o pai(Brant), a mãe (Ester Elias), a avó (Janaína Azevedo), que, com a ajuda da babá Bartira (Lilian Valeska) tentam fazer o menino Makuru dormir. Os adultos não sabem, no entanto, que em cima do telhado vivem seres estranhos: A Murucututu, a Tutu e o João Pestana, figuras do folclore indígena, africano e português invocados para embalar o sono das crianças. Juntos, os seres mágicos tentam a todo custo serem lembrados pela família para que a tradição das cantigas de ninar escapem do esquecimento”.

Foto: Yvina Raira

Foto: Yvina Raira

Por mais singela que uma superficial leitura possa sugerir, o tratamento dramatúrgico de José Mauro Brant se destaca por todo um embasamento sociológico que permite expandir o conteúdo poético existente num formato que, independente de o relegarmos ao inconsciente, ressurge do seu espaço recôndito desde as primeiras linhas melódicas entoadas em nossas lembranças pelos primeiros contatos musicais que tivemos em nossa existência. Mesmo as opções de Brant por personagens como a Murucutu, a Tutu e o João Pestana, não é obra de uma escolha aleatória, existe ali uma motivação bem sedimentada. Eles revelam os elementos que norteiam o caráter da gênese da formação brasileira, incluindo seus aspectos de terror, acentuado até mesmo pela origem escravocrata brasileira contaminada por ameaças e hostilidades, mas igualmente traços de resistência e preservação cultural das etnias negras e indígenas.

José Mauro Brant estrutura os aspectos psicológicos depreendidos das cantigas de ninar, como o medo da morte, perdas, despedidas e separações, de maneira que se insiram com naturalidade e sutileza, dando coerência para a narrativa e permitindo sua boa fluência. Sua direção encontra boas soluções cênicas para aplicação das propostas de seu texto, utilizando positivamente a disponibilização dos espaços físicos disponíveis, além de uma excelente direção de atores.

A despeito do que normalmente ocorre na maioria dos denominados “musicais infantis”, a música de Tim Rescala não tem o papel de um mero preenchimento dramatúrgico, bem além disso, ela constrói a narrativa de uma maneira que permite o espetáculo girar, formatando a proposta como uma opereta, exigindo inclusive requinte técnico extremo de seus intérpretes e executores. Na verdade, denominar Tim Rescala como um diretor musical seria minimizar o alcance de sua criação artística em “Makuru”, elas lhe alçam a um papel de coautoria. Importante destacar que Ester Elias, Janaína Azevedo e Lilian Valeska tornam-se fundamental instrumento de expansão da capacidade criativa das canções de Rescala, assim como seus ótimos arranjos executados por Paula Martins (flauta), Débora Cheyne (viola), Cássia Menezes (violoncelo), Tibor Fittel (acordeon).

O elenco formado por Ester Elias, Janaína Azevedo, José Mauro Brant e Lilian Valeska, além da qualidade artística, demonstra bastante integração, com um destaque adicional para a brilhante atuação de Ester Elias. Se nota apenas, que ressalto não ver necessariamente como um problema, o desnível na capacidade vocal entre as atrizes e o ator/diretor. José Mauro Brant não canta mal, pelo contrário, é afinado, tem voz agradável e está apto para qualquer musical do gênero, mas diante de três atrizes com a potência vocal de nível elevadíssimo como Ester Elias, Janaína Azevedo e Lilian Valeska, acaba deixando-o desprotegido em cena nos números musicais, independente da sua boa atuação e do acerto em seu processo de composição.

Os figurinos levam o padrão de qualidade Carol Lobato, com tudo que isso significa. Criatividade, bom gosto, bonitos cortes, textura, graduação harmônica das cores, aspectos que podem ser percebidos em diferentes elementos, desde os sapatos, até os detalhes dos azulejos portugueses estampados no figurino de José Mauro Brant.

Os cenários de Natália Lana contribuem bastante para a concepção de Brant, na criação de um ambiente acalentador de um quarto de recém-nascido, com soluções que mesmo simples, permitem às criaturas das canções de ninar se instalarem em cima da casa, composta de maneira que amplia as possibilidades cênicas do diretor. Assim como a vídeo animação dos irmãos Ricardo e Renato Villarouca complementam com bastante eficácia aspectos narrativos e aprofundam a concepção cenográfica.

Importante destacar o trabalho que Bruno Dante vem realizando dentro do ambiente do teatro infantil carioca e no caso de “Makuru”, mais uma vez sua contribuição na criação dos bonecos e adereços se mostrou de bastante relevância para a complementação adequada da proposta.

O desenho de luz de Paulo César Medeiros acentua a ambientação necessária para a eficácia da atmosfera contida na criação  de Brant e Rescala.

Makuru – Um Musical de Ninar” é um espetáculo de ótimo alcance artístico e com profundidade sobre o que discute, compondo uma peça teatral com plena capacidade de ultrapassar o interesse infantil, atingindo igualmente as atenções do costumeiramente desatento  público adulto.

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Foto: Yvina Raira

Serviço:
“MAKURU – Um musical de ninar”

Musical infantil de José Mauro Brant e Tim Rescala que faz um mergulho no universo das cantigas de ninar, resgatando o valor do afeto nas relações familiares.

Texto e Direção: José Mauro Brant | Direção musical, música original e arranjos: Tim Rescala

Elenco: Ester Elias, Janaína Azevedo, José Mauro Brant e Lilian Valeska (atriz convidada)

Músicos: Paula Martins (flauta), Débora Cheyne (viola), Cássia Menezes (violoncelo), Tibor Fittel (acordeon)

Direção de movimento e coreografia: Sueli Guerra | Cenário: Natália Lana | Figurino: Carol Lobato

Bonecos e Adereços: Bruno Dante | Iluminação: Paulo César Medeiros | Ilustrações: Rosinha e Bruno Dante | Vídeo Animação: Ricardo e Renato Villarouca | Maquiagem: Mona Magalhães | Preparação Vocal: Janaína Azevedo e Marcello Sader | Pianista Ensaiador: Tibor Fittel

Estreia: 24 de junho às 16h
Temporada: de 25 de junho a 27 de agosto. Sábados e domingos, sempre às 16h
Local: Oi Futuro Flamengo. Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo / RJ
Ingresso: R$ 20,00 (inteira) | R$ 10,00 (meia)
Horário da Bilheteria: De terça-feira a domingo, das 14h às 20h
Telefone: (21) 3131-3060 | Capacidade do teatro: 63 lugares
Classificação etária: livre. Recomendado para crianças a partir dos seis anos
Duração: 60 minutos

Informações para imprensa
Target Assessoria de Comunicação
Com: Márcia Vilella | Letícia Reitberger


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