Crítica Teatro Infantil: Memórias de um Pequeno Grande Príncipe


 

Guarda Chaves

Por Renato Mello

A Artecorpo Teatro e Cia leva neste fim de semana aos palcos do Teatro Popular Oscar Niemeyer, Niterói, sua concepção teatral para o clássico de Saint-Exupèry através do espetáculo “Memórias de um Pequeno Grande Príncipe”.

Tive a oportunidade de assistir ao trabalho da companhia durante sua estada em abril último na Casa de Cultura Laura Alvim. Com texto e direção de Rachel Palmerim, “Memórias de um Pequeno Grande Príncipe” propõe uma busca pela nossa beleza interior para que possamos exterioriza-la, demonstrando que, como aponta sua própria sinopse oficial, o que “temos de mais singelo e puro está obscuro no nosso interior”.

Poucas obras na história da literatura universal alcançam zonas tão complexas com tanta simplicidade, esparramando diversas subcamadas pela sensibilidade contida em suas mensagens de otimismo e singeleza. Portanto, propor um olhar particular em uma obra como “O Pequeno Príncipe” é colocar-se numa aventura, um desbravar de novas significâncias que só o elevado poder de dimensionamento de uma manifestação artística como o teatro é capaz de se deixar penetrar.

O texto de Rachel Palmerim estrutura sua narrativa através da confusão mental do aviador perdido no deserto junto a um avião destroçado, ilhado em meio as suas questões interiorizadas. Algo que de algum modo me remetia a uma outra recente proposta teatral, da Cia Mútua da cidade de Itajaí, com seu excelente espetáculo “Um Príncipe Chamado Exupèry”, mesmo embora essas 2 propostas caminhem por trilhas distintas dentro de uma mesma matriz(seja no teatro infantil, na manipulação de bonecos e no autor em comum), refletem ambas numa busca interior  a partir da solidão no meio da imensidão física, que de algum modo abre  as janelas para o resgate da nossa criança, submersa em nós mesmos. A dramaturgia de Rachel Palmerim demonstra capacidade para abarcar esse intento, permitindo ao seu espetáculo uma fluência, para que seu processo de direção ritme compassadamente com a atmosfera que essa história necessita para uma adequada ambientação

No seu processo de concepção cênica, Rachel Palmerim utilizou-se da técnica de manipulação de bonecos como eixo principal da narrativa, aliada com a animação das malas, máscaras e sombras, contando nesse seu percurso com a prestimosa colaboração de alguns dos mais referenciados criadores da cena infantil carioca, como Marcio Nascimento, Marcio Newlands, Gabriel Naegele e Leo Thurler, sendo possível perceber o encorpamento que proporcionaram para um resultado artístico exitoso.

Avião final m

Quando mencionei mais acima à atmosfera, refiro-me ao sentido mais amplo da concepção teatral, alcançado pela convergência da diretora através das soluções cenográficas de Gabriel Naegele, expandindo sua capacidade narrativa, com destaque para a engenhosa forma de (des)construção da aeronave, responsável por uma das mais belas cenas do espetáculos tanto esteticamente quanto na sua tradução cênica, assim como os figurinos de Leo Thurler igualmente se inserem com profundidade nesse  mesmo conceito.

O elenco formado por Alexandre Vollu, Cida Palmeirim, Eliana Lugatti, Rachel Palmeirim, Rafael Tereso e Renato Badeco atuam em conformidade com as necessidades narrativas, atingindo os propósitos pretendidos, numa interação que converge em direção aos elementos propostos, mais especificamente na manipulação do boneco do Pequeno Príncipe, criação de Marcio Newlands e com sua movimentação sob supervisão de Marcio Nascimento, escorando um eixo representativo na complementação dramatúrgica da diretora.

É muito agradável ver que mesmo passados 74 anos desde sua primeira edição, o legado literário de Antoine de Saint-Exupèry  permanece vivo, instigando inesgotavelmente a criatividade de artistas dos mais diversos segmentos e servindo como boa fonte de inspiração para o teatro infantil brasileiro em distintas subcorrentes estéticas, dramatúrgicas e cênicas.

Nuvem

Ficha Técnica:
Direção e Texto: Rachel Palmeirim
Direção de Manipulação: Marcio Nascimento
Elenco: Alexandre Vollu, Cida Palmeirim, Eliana Lugatti,
Rachel Palmeirim, Rafael Tereso e Renato Badeco
Iluminação e operação de luz: Ricardo Lyra Jr.
Boneco do Pequeno Príncipe: Marcio Newlands
Figurinos: Leo Thurler
Cenário: Gabriel Naegele
Adereços: Gabriel Naegele e Leo Thurler
Músicas e Arranjos: Renato Badeco e Rafael Tereso
Preparação Corporal: Fernando Azevedo
Arte Gráfica: Miguel Carvalho
Produção : Cida Palmeirim e Rachel Palmeirim


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