Crítica Teatro Infantil: O Alfaiate de Palavras


 

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Por Renato Mello

Numa temporada que, com 2 ou 3 exceções, tem se revelado desastrosa para a cena infantil carioca, um novo espetáculo da “Trupe do Experimento” abre-nos de perspectivas, à despeito de análises a serem feitas a posteriori, pela seriedade e sinceridade do trabalho que sempre se notabilizou nesse segmento artístico.

A ausência de peças infantis significativas é consequência direta da retração vivida pelo segmento teatral como um todo e que como em toda crise, o teatro infantil sofre ainda mais a intensidade do abalo. Para pintar com mais realismo o quadro obscuro que teremos a frente, pelo que compreendi do edital da empresa que viabilizou alguns dos melhores espetáculos infantis da última década, a OI se limitará a patrocinar 3 produções infantis nos próximos 12 meses, envergando dessa forma um cenário nada promissor se somarmos ainda a falência do Estado do Rio de Janeiro e a política cínica que se desenha atualmente na Secretaria Municipal de Cultura, incluindo até calote nos contemplados do seu último edital.

Sem patrocínio e maiores apoios, “O Alfaiate de Palavras” é um projeto levantado através de financiamento coletivo. Mesmo nessa modalidade tenho testemunhado um maior número de fracassos. O êxito alcançado pela “Trupe do Experimento” representa por si uma resposta para a integridade de uma das companhias teatrais que mais espetáculos produziu nesse segmento artístico nos últimos 10 anos.

Em cartaz até o dia 30 de julho no CCFJ, com direção de Marco dos Anjos, “O Alfaiate de Palavras” é ambientada na década de 50, contando a história de um alfaiate solitário(Fabricio Ligiero) que, como aponta sua sinopse oficial, “não tem mais a esposa. Seu filho, há tempos, foi para Portugal. Os dois se comunicavam por cartas, até que, um dia, elas simplesmente pararam de chegar. Sua única companhia é Astolfo, um rádio que parece sempre “transmitir” o que Hildebrando precisa ouvir, e o carteiro Oduvaldo(Thayan Ribeiro), a quem o alfaiate o qual insiste em repelir por só trazer contas. Mas, hoje, há uma encomenda. Uma caixa grande. Um presente. Uma boneca(Nina Pamplona).

A proposta teatral de Marco dos Anjos representa uma abertura da pesquisa da Trupe do Experimento em busca da maturação de sua linguagem, tendo ao longo desses 10 anos explorado possibilidades em diferentes frentes, que passo a passo e sem atropelos, vai paulatinamente desenhando sua assinatura. No espetáculo passado, “Maia, a Lenda da Menina Água” baseou a força da sua teatralidade na utilização do jogo do ator com as máscaras, e agora com “O Alfaiate de Palavras” com a manipulação de bonecos.

Tendo assistido 5 dos 8 espetáculos que fazem parte do seu repertório, “O Alfaiate de Palavras” é um dos trabalhos que mais gosto, talvez(eu disse “talvez”, ainda tenho que amadurecer a ideia) abaixo apenas d’“O Pequeno Autor”, que ainda guardo com carinho e lamento que não tenha tido outras temporadas.

O roteiro de Aline Marosa e Marco dos Anjos permite a abertura de uma boa variante de janelas cênicas, contém fluência narrativa, correta contextualização de época, com destaque pela maneira adorável como o universo do rádio “invade” o cotidiano dos personagens com suas radionovelas, reclames e jingles, além de um interessante aprofundamento psicológico para as motivações que paralisa o protagonista Hildebrando perante a vida, ressaltando que algumas amarrações da história carecem de uma maior compressão para harmonizar arestas que ficaram soltas, mas ainda assim embasando com eficiência a construção do espetáculo.

O-Alfaiate-de-palavras-04_micUma das grandes virtudes da direção de Marco dos Anjos é como gestou diferentes segmentos para a sua concepção cênica final, resultando numa estética que estimula e encanta, adequando o preenchimento narrativo proposto no texto com uma condução rítmica que respeita o tempo dramatúrgico, sem atropelos e ao mesmo tempo impondo dinâmica narrativa.

O elenco composto por Fabrício Ligiero, Nina Pamplona, Júlia Bravo, Thayan Ribeiro, Muriel Vieira e Diogo Luccas dimensiona com total aptidão as distintas necessidades interpretativas. Fabrício Ligieiro, irreconhecível pelo processo de caracterização, interpreta o alfaiate Hildebrando, enquanto Nina Pamplona com enorme graça dá vida para a boneca Teca, realizando ambos um encantador jogo cênico. Destaque na a composição de ambos personagens para o excelente visagismo de Leo Thurler, a preparação corporal de Marcio Vieira e a preparação vocal de Felipe Valle. Cabe uma informação de que Nina Pamplona se revezará no papel com Júlia Bravo. Thayan Ribeiro é responsável por alguns dos melhores momentos de humor, enquanto Muriel Vieira e Diogo Luccas realizam um trabalho de criação em duo como locutores da radio, explorando com graça diversas possibilidades na modulação de suas vozes.

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A manipulação de bonecos sob responsabilidade de Lívia Bravo e Júlia Bravo a partir da criação de Bruno Dante, insere-se na narrativa com sutileza e cria uma poética que amplia a capacidade de expansão sentimental da representação.

Tanto o visagismo(como já foi mencionado), quanto os figurinos de Leo Thurler contribuem consideravelmente no processo de composição dos atores, como na criação da atmosfera proposta pelos autores. Seus figurinos são um grande acerto pela adequação que impõem aos personagens nos seus delineamentos, como pela época retratada e igualmente pelas qualidades estéticas, dando enorme significação a todo o processo criativo de Marco dos Anjos. Os cenários de Cachalote Mattos contextualizam perfeitamente a época retratada, a caixa que embala a boneca revela-se um achado tanto cenográfico e até mesmo cênico, a utilização das janelas como a verdadeira “porta” de entrada do mundo externo revela-se bastante funcional dentro das intenções originais. A iluminação de Paulo Roberto Moreira tem seus pontos destacáveis nas sombras que cria, sublinhando sensivelmente e mesmo discretamente, os aspectos expressivos do espetáculo.

Quando tudo em volta se revela ruim e amargo, é bom sabermos que ainda contamos com o trabalho da Trupe do Experimento para elevarmo-nos a um plano de sonho, fantasia e poesia.

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Serviço:
O Alfaiate de palavras.
De Aline Marosa e Marco dos Anjos. Direção de Marco dos Anjos.
Centro Cultural Justiça Federal. Av. Rio Branco, 241. Centro.
Tel 3261-2550.
Sáb e dom. às 16h. R$ 40.
Classificação etária 3 anos. 50 min.
Temporada de 03 de junho a 30 de julho.
Não haverá espetáculo dias 03 de junho e 29 de julho.

Ficha Técnica
Texto:  Aline Marosa e Marco dos Anjos
Direção: Marco dos Anjos.

Elenco:  Fabrício Ligiero, Nina Pamplona, Júlia Bravo, Thayan Ribeiro, Muriel Vieira e Diogo Luccas.

Direção Musical:  Daniel Carneiro
Preparação corporal: Márcio Vieira.
Preparação Vocal: Felipe Valle
Criação e confecção de bonecos: Bruno Dante
Criação das próteses: Júlia Bravo.
Figurino: Leo Thurler
Cenografia: Cachalote Mattos
Adereços: Claudia Taylor e Tuca
Iluminação: Paulo Roberto Moreira
Músicas: Thayan Ribeiro
Designer gráfico: Guilherme Fernandes
Assessoria de Imprensa: Gisele Machado – Marrom Glacê Assessoria
Direção de Produção: Marco dos Anjos
Realização: Trupe Produções Artísticas


Palpites para este texto:

  1. Adorei o espetáculo emocionante, transmitiu para mim e meu filho de 6 anos q a família é a única coisa que temos. Obrigada trupe do experimento por essa experiência maravilhosa.

  2. Espetáculo maravilhoso, conseguiu transmitir a importância da família e que ninguém está realmente​ sozinho. Me fez resgatar minha infância de quando escrevia cartas e cartões de natal “que hoje esquecidos” com minha avó para a família e amigos . Parabéns Trupe do Experimento pela iniciativa e por esse pelo trabalho.

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