Crítica Teatro Infantil: O Choro de Pixinguinha


 

 

Foto: Claudia Ribeiro

Foto: Claudia Ribeiro

Por Renato Mello

O teatro infantil carioca tem sido bastante feliz nas últimas temporadas pela forma como tem acolhido para as peculiaridades de seu segmento todo um público que inicia o processo de formação de sua identidade cultural, trazendo-o a uma introdução de toda a enorme diversidade que compõe o nosso cancioneiro. Projetos que obtiveram alcance e qualidade artística como os exemplos que podemos citar aqui dos “Grandes Músicos Para Pequenos” de Pedro Henrique Lopes e Diego Morais, com “Luiz e Nazinha”(Luiz Gonzaga), “O Menino das Marchinhas”(Braguinha), “Bituca”(Milton Nascimento) e o recém estreado “Tropicalinha”(Gil & Caetano). Ana Bello, com direção de Ana Paula Abreu, nos ofereceu o universo de Lamartine Babo com “Tra La Lá”, Miguel Vellinho apresentou “Ovelha Negra” com canções de Rita Lee, e José Mauro Brant com “Makuru” falando sobre as canções de ninar. Juntos, talvez nos permita uma interessante compreensão daquilo que poderíamos definir como uma pequena gênese da formação cultural do Brasil no século XX.

Não há como deixarmos de citar nesse contexto o trabalho desenvolvido pela Lúdico Produções com a trilogia “Sambinha”, “Bossa Novinha” e Forró Miudinho”, que tantas indicações, prêmios e reconhecimentos receberam através do seu “eixo criativo”, Ana Velloso, Vera Novello e o diretor Sergio Módena, os mesmo que agora introduzem ao seu público um dos maiores nomes da música brasileira em todos os tempos, Pixinguinha. Esse novo projeto ainda prevê espetáculos futuros sobre Chiquinha Gonzaga e Nelson Cavaquinho, o que considero extremamente relevante, visto que são músicos emblemáticos, representativos, mas que não tem dentro do olhar histórico, a mesma densidade popular de outros nomes(não menos importantes).

O Choro de Pixinguinha” permanecerá em cartaz no Oi Futuro até 4 de novembro.

Dentro do processo criativo do diretor Sergio Módena dois aspectos se destacam para que o espetáculo atinja sua “proposta de princípios”. O primeiro é o embasamento histórico, que permitiu ao espetáculo uma boa investigação sobre a obra e vida de Pixiguinha pelas suas linhas narrativas. O segundo, a formatação musical e arranjos, com uma sonoridade aproximada d fidelidade temporal de Pixinguinha, confluindo para uma melhor inserção no seu universo.

Nessa base estrutural da pesquisa de vida, obra e música, devo confessar alguma resistência de minha parte pela opção escolhida para o desenvolvimento dramatúrgico, ou seja, o formato como toda essa pesquisa iria se desenvolver em história.

De acordo com aos apontamentos da própria sinopse oficial, para realizar uma pesquisa escolar, “Marilú(Ana Velloso) e Bianca(Vera Novello), colegas de turma na escola, estão empenhadas em seu trabalho da aula de música, cujo tema é nada menos do que – Pixinguinha. As meninas, muito estudiosas, não se contentam em fazer apenas uma redação ou um cartaz. Então, chamam os amigos para ajudar a encenar uma ‘peça’ sobre o genial Pixinguinha”.

Penso que faltou maior flutuação por um caminho menos convencional, aspectos que levassem para um inconsciente afetivo que a vida e música de Pixinguinha sempre tiveram a capacidade de transmitir, escapando de um formato que me apareceu um pouco amarrado e ligeiramente evidenciado. Enfim, senti a ausência de algo na base dramatúrgica que permitisse ao espetáculo levantar maiores voos. Ao mesmo tempo as autoras Ana Velloso e Vera Novello foram coerentes na maneira como inserem as canções pelas ações, sem buscar forçar cenas para justifica-las, o que acrescentou bastante para todo o processo.

A construção cênica de Sergio Módena funcionou de maneira bastante satisfatória, dividindo através de uma tela transparente em 2 espaços distintos. Próximo ao proscênio ocorria a parte significativa das ações, recebendo interações(eventualmente físicas, mas principalmente musicais) dos músicos, localizados na parte posterior, que por sua vez também eram “provocados” pela fluência dos atores. Além da divisória proposta, a criação cenográfica de Marcelo Marques adquiria aspectos lúdicos com os grande objetos em formato de livros e biografias de Pixinguinha, ao mesmo tempo que afirmavam funcionalidade para a dinâmica narrativa, cujo bom resultado se deve também ao desenho de luz proposto por Aurélio de Simoni. O ritmo imposto por Módena  funcionou ajustado, com altercações programadas dentro do contexto dramatúrgico, que permitiam aflorar pela ambientação a sensibilidade das canções de Pixinguinha.

Há que se tecer elogios para a direção musical de Ricardo Rente, encontrando, como mencionei mais acima, uma sonoridade que harmonizava com a contemporaneidade de Pixinguinha. Assim como a pesquisa musical encontra a essência primordial de Pixinguinha com seu tempo, um músico que esteve presente em quase toda a formação da música nacional, da criação do samba ao lado de nomes seminais como Donga e João da Bahiana, passando pelo início do reconhecimento internacional à música brasileira e a expansão da cultura do choro na alma carioca. Tudo isso fica muito presente na escolha do roteiro musical, com canções simbólicas de Pixinguinha, como “Um a Zero”, “Rosa”, lógico que “Carinhoso”, entre outras, mas não apenas, com a presença também de clássicos de Lamartine Babo e Braguinha

Percebe-se com nitidez como o elenco já soa maturado desde outros espetáculos anteriores, com uma formação composta por Ana Velloso, Édio Nunes, Milton Filho, Patrícia Costa e Vera Novello. Édio Nunes evidenciado em cena, com presença e força, arrebata por seu carisma e vigor cênico. Ana Velloso equaliza com precisão todos aspectos cômicos com uma base de sentimentos que expõe com bastante graça. Milton Filho, expressivo, mas sempre num tom que situa inteiramente a função do seu personagem. Vera Novello e Patrícia Costa completam o elenco com adequação à representatividade dos seus personagens com as necessidades do texto.

Apesar de meu apontamento sobre algumas questões dramatúrgicas, entendo que o resultado final é atingindo, fazendo de “O Choro de Pixinguinha” um bom espetáculo voltado ao público infantil, em que o mais importante é ter trazido algo do encantamento do gênio que foi Pixinguinha.

Serviço:
O CHORO DO PINXINGUINHA
ESTREIA 18 DE AGOSTO – EM DUAS SESSÕES: ÀS 14H E 16H
Temporada: de 18 de agosto a 04 de novembro
Local: Teatro Oi Futuro Flamengo
Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63. Flamengo – Rio de Janeiro – (21)
Dias: Sábados e Domingos, às 16h
Duração: 60 minutos
Classificação Etária: Livre
Lotação: 63 lugares
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) / 10,00 (meia)

Ficha Técnica
Texto: Ana Velloso e Vera Novello
Direção: Sergio Módena
Direção Musical: Ricardo Rente
Elenco Protagonista: Ana Velloso, Vera Novello, Patrícia Costa, Édio Nunes e Milton Filho

Músicos: Felipe Pedro Santos (cavaquinho); André Rente (violão); Ricardo Rente (Sax); Jeferson Silva (Flauta); André Vercelino (Percussão)

Iluminação: Aurélio de Simoni
Cenografia e Figurinos: Marcelo Marques
Preparação Vocal: Débora Garcia
Coreografias: Édio Nunes
Direção de Imagem: Aderson Lago
Engenharia de Som: Filipe Chagas
Programação Visual: Cacau Gondomar
Fotos de Divulgação – Claudia Ribeiro
Assessoria de Imprensa – Duetto Comunicação
Realização e Produção – Lúdico Produções


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