Crítica Teatro Infantil: Ovelha Negra


 
Foto: Sheila Oliveira

Foto: Sheila Oliveira

Por Renato Mello

O universo de Rita Lee é a inspiração para a mais nova proposta teatral da Cia PeQuod. Com direção de Miguel Vellinho, “Ovelha Negra” se apresenta até o dia 26 de novembro no Teatro Maria Clara Machado, no complexo do Planetário da Gávea.

Diz-se que a expressão “ovelha negra” é originária das antigas religiões pagãs que consideravam todo animal preto com uma representação da força das trevas, que acabavam muito utilizados em rituais de sacrifício aos Deuses. Hoje tem uma conotação relacionada a alguém que não segue os valores impostos por sua família, algo que tem estreita ligação com os padrões seguidos por Rita Lee e narrados no livro que lançou há poucos meses “Rita Lee – Uma Autobiografia”, um motor que propulsionou Miguel Vellinho, segundo suas próprias palavras  a “falar sobre o diferente, o que não se encaixa, o que está fora da curva, enfim, vamos falar sobre o que é ser uma ovelha negra, usando o repertório de uma artista única, estupenda em tudo o que fez e que marcou profundamente minha adolescência, uma época em que também eu me vi na pele de uma ovelha negra”.

O espetáculo reúne oito bonecos de manipulação direta, representando a forma de ovelhas para contar a história dos personagens ficcionais Rita e Beto, que se sentem desencaixados dentro de suas estruturas sociais e que a partir do encontro entre ambos, a identificação mútua e o sentimento de proximidade servirão como o suporte para se afirmarem diante das imposições comportamentais de seus grupos.

Um dos aspectos mais interessantes, sem dúvida o grande acerto do espetáculo, é a maneira como o universo musical de Rita Lee irriga inteiramente toda a proposta teatral para alcançar um resultado final encantador, independente se parte do público alvo não conheça suas músicas. A forma como as canções são inseridas cenicamente preenche de vigor a representação, executadas ao vivo por todo o elenco, que se reveza nos mais diferentes formatos de condução e nos instrumentos musicais sob a ótima direção musical de Roberto Crivano. Pude perceber em todo o redor a reposta imediata das crianças pela maneira como reagiam corporalmente, se balançando, mexendo os membros ou sorrindo, jamais indiferentes. Uma prova inequívoca da força que existe na obra musical de Rita Lee, despertando sempre algum tipo de sentimento relacionado tanto com a vitalidade quanto a sensibilidade.

Me chamou a atenção no processo de criação de Miguel Vellinho  a sensação de simplicidade no desenvolvimento dramatúrgico e cênico, mas que um olhar mais aprofundado percebe o inverso. Existe na sua implementação uma série de complexidades a se ajustarem para se atingir essa aparência. Se tudo parece ser simples é porque o espetáculo flui fácil, sem deixar um sentimento de que a engrenagem não anda ou um arrastar de correntes pelo palco. Há toda uma condução muito bem engendrada, a dinâmica soa leve para movimentações que nem de longe são fáceis e exigem um trabalho quase coreográfico do elenco para que as estruturas cenográficas perpassem uma a outra com naturalidade na mudança das cenas.

Os bonecos confeccionados por Marcio Newlands, Liliane Xavier e Miguel Vellinho ajustam-se para a composição da ambientação, um formato de ovelhas, mas com comportamentos e gestuais humanos permitindo-lhes uma concepção lúdica.  Manipulados e vividos pelo elenco formado por Liliane Xavier, Gustavo Barros, Miguel Araújo, Julia Ludolf e Laura Becker, que sem nenhum resíduo de personalismo e sempre em suporte mútuo, demonstram interação e empatia no andamento narrativo da história.

Os figurinos de Carla Ferraz trabalham adequadamente com tons pretos, cinzas e brancos de forma a não criar uma interferência mais aprofundada no diálogo entre atores e bonecos, ao mesmo tempo que explora um conceito estético que pareceu-me próximo de um desenho típico do tropicalismo, mas sem o uso das cores fortes(se isso é possível), pode ser apenas piração minha, mas foi o que compreendi de suas reais intenções. O fato é que o resultado final é bastante positivo.

Por fim, em relação as canções inseridas, algumas escolhas fugiram que poderia ser uma obviedade, dando destaque a temas que contribuíram para a criação de um sólido tratamento dramatúrgico, entre as quais fazem parte “Ovelha Negra”, “Shangrilá”, “Xuxuzinho”, “Ando meio desligado”, “Agora só falta você”, “Balada de um louco”, “A minha menina”, “Este tal de Roque Enrow” e “Fuga nº II”.

Ovelha Negra” é mais um espetáculo da PeQuod com capacidade de agradar não somente o público infantil, mas igualmente aqueles que os acompanham, por numa história muito bem contada que exprime toda a pungência artística existente na obra de uma das maiores personalidades de nossa música.

Foto: Luiz Alves

Foto: Luiz Alves

FICHA TÉCNICA
Direção e texto: Miguel Vellinho | Músicas de Rita Lee | Direção Musical: Roberto Crivano | Cenário e Figurino: Carla Ferraz | Bonecos: Marcio Newlands, Liliane Xavier e Miguel Vellinho | Adereços: Celestino Sobral | Elenco: Liliane Xavier, Gustavo Barros, Miguel Araújo, Julia Ludolf e Laura Becker | Realização: Cia PeQuod – Teatro de Animação

Serviço: Ovelha Negra – Musical infantil inspirado nas músicas de Rita Lee.
Com a Cia PeQuod. Texto e direção: Miguel Vellinho.
Local: Teatro Maria Clara Machado | Endereço: Rua Padre Leonel Franca, 240 – Gávea | Tel: 21. 2274-7722 | Temporada: 04 a 26/11/2017
Dias e horários: sábados e domingos, 16h
Ingressos: R$ 30,00 inteira e R$ 15,00 meia
Duração: 50 minutos | Classificação indicativa: livre
Assessoria de Imprensa: Mônica Riani


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