Crítica Teatro Infantil: Pelos 4 Cantos do Mundo


 
Foto: Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

Por Renato Mello

Em seus 15 anos de exercício teatral, a Cia Teatral Milongas tem se notabilizando por explorar diversas possibilidades cênicas, falando de questões complexas e baseando suas experiências numa dramaturgia universal de qualidade, de Tom Stoppard ao escritor Juan Pablo Villalobos, sem jamais abandonar um olhar terno para o público infantojuvenil, que volta agora a ser o centro de suas atenções com a nova proposta “Pelos 4 Cantos do Mundo”, em cartaz no Teatro Ipanema até o dia 15 de abril.

Credito como um dos aspectos mais interessantes de “Pelos 4 Cantos do Mundo” a abordagem oportuna sobre uma das mais importantes temáticas dos nossos tempos conturbados, estendendo sua narrativa em prol daqueles que deixam suas terras em busca de um abrigo no país alheio, no caso específico do espetáculo, o Brasil, justamente no momento que testemunhamos um dos maiores êxodos da história da humanidade. O tema é sério, mas isso não quer dizer necessariamente que se tenha que abrir mão dos aspectos lúdicos e delicados para contar essa história.

Conta a história da travessia de uma menina, refugiada Síria, por países tão diversos e longínquos, como a Itália, Congo, Coréia do Norte e Brasil, na esperança de encontrar seu pai, desaparecido durante os conflitos de guerra.

Pelos 4 cantos do mundo 9 foto Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

A Cia Teatral Milongas, através da dramaturgia de Breno Sanches, realiza um original trabalho no desenvolvimento de uma linguagem particular, que soe universal e ao mesmo tempo clara, utilizando-se dos diálogos não para contar a história, mas para revelar intenções, buscando fonemas regionalistas e talvez, por isso mesmo, universais. A encenação tem a assinatura do próprio Breno Sanches, um diretor que já demonstrou trabalhos anteriores muito bem maturados, e que no caso desta representação revela-se bastante segura, com a construção de toda uma concepção cênica que eleva a capacidade narrativa. O modo como Sanches gesta os diversos elementos, com uma ficha técnica composta por alguns dos mais representativos criadores do teatro carioca, formata toda uma concepção que permite afluir o público para dentro da aventura da pequena Aisha ao redor do planeta.

Quero abrir aqui um parêntese para salientar a contribuição de Ana Carolina Sauwen na direção de atores. Admiro demais o trabalho que Ana Carolina realiza com seu grupo, o Bando de Palhaços, e seu dedo é muito nítido na interferência deste processo, em especial na utilização da expressão corporal dos atores, no modo como se deixam permitir que o corpo revele as emoções e sensações, essencial para a distensão da proposta.

No elenco, Roberto Rodrigues é o responsável por dar vida a Aisha, a menina refugiada, através da manipulação de uma boneca em tamanho natural, confeccionada por Márcio Newlands, interagindo com os diversos personagens representados por Breno Sanches e Hugo Souza, que se utilizando de diferentes técnicas representativas, como a pantomima, influência da palhaçaria e como já mencionei, se comunicando corporalmente. O entrosamento se revela harmonioso, sem dúvida pelo florescimento conjunto de uma sustentação mútua após tantos anos buscando um objetivo comum, permitindo assim uma boa fluência da história que contam.

A concepção cenográfica de Fernando Mello da Costa é outro aspecto que fundamenta justamente o caráter lúdico da representação, em que balões de gás modificam seu sentido, ganhando significações diversas e elemento que transformará a movimentação narrativa, assim como a utilização de tecidos coloridos, numa representação do lenço utilizado pelas muçulmanas para cobrir a cabeça, que a proposta cênica de Breno Sanches disporá com coerência.

Patrícia Muniz trabalha os tecidos, cores e formas na composição dos figurinos, que brincam as diferentes culturas que perpassam o espetáculo. Importante destacar igualmente a boa direção musical de Marcelo H e a iluminação de Ana Luzia de Simoni que cria gradações que realçando todo o estetismo do diretor.

Um trabalho original e com uma narrativa particular que desperta os primeiros sinais de curiosidade em um público muito específico pela individualização das diversas culturas(em um sentido amplo) e por uma temática relevante, mas sem abrir mão do onírico,  da fantasia e da graça. Um belo trabalho da Cia Teatral Milongas!

Pelos 4 cantos do mundo 15 foto Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

SERVIÇO:
Local: Teatro Ipanema
Temporada: 10 de março a 15 de abril
Dias: sábados e domingos, às 16h
Endereço: Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema
Metrô: Estação Nossa Sra. da Paz – Saída Rua Joana Angélica
Bilheteria: de quinta a segunda-feira, sempre com 01h (uma hora) antes do início do espetáculo que estará em cartaz naquele determinado dia da semana.
Aceita cartão de crédito e débito.
Telefone: 2267-3750 (aberta 01h antes do espetáculo)
Capacidade: 193 lugares
Faixa: Etária: livre

FICHA TÉCNICA
Atuação: Breno Sanches, Hugo Souza e Roberto Rodrigues
Direção e Dramaturgia: Breno Sanches
Colaboração Dramatúrgica: Hugo Souza e Roberto Rodrigues
Direção de Atores: Ana Carolina Sauwen
Direção Musical: Marcello H
Direção de Manipulação e Confecção de Marionete: Marcio Newlands
Cenário e Adereços: Fernando Mello da Costa
Figurino: Patricia Muniz
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Coreografia: Paulo Cristo
Preparação Vocal: Jane Celeste e Roberta Bahia
Confecção de Cenário e Adereços: Patricia Muniz e Marcio Newlands
Cenotécnicos: Zé Maranhão e Regivaldo Moraes
Operadoras de Som: Amanda Lavers e Júlia Borges
Operador de Luz: Paulo Ignácio
Fotografia: Renato Mangolin
Edição de Vídeo (teaser): Carolina Godinho
Arte Gráfica: Ivison Spezani
Assessoria de Imprensa: Lyvia Rodrigues (Aquela Que Divulga)
Produção: Pagu Produções Culturais
Realização: Cia Teatral Milongas


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