Crítica Teatro Infantil: Sakurá


 
Foto: Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

Por Renato Mello

O fim do inverno e o renascer da primavera é um dos momentos mais aguardados pelo povo nipônico há séculos. A floração muda por completo o cenário do país, principalmente o sakurá, a cerejeira típica do arquipélago. Acredita-se que a origem do nome deriva da Princesa Konohana Sakaya Hime(a princesa das árvores das flores abertas), que teria descido dos céus e aterrissado numa cerejeira.

Sakurá”, terceiro espetáculo da Cia Crias da Casa, propõe uma imersão na tradição japonesa para traçar paralelos e contrapontos com o nosso universo imaginário. Com direção geral de Gabriel Naegele, cumpre temporada até o dia 1º de outubro no Teatro Municipal Ziembinski, Tijuca.

Segundo apontamentos de sua própria sinopse oficial, “em um pequeno vilarejo no Japão, é março e as últimas folhas das cerejeiras já são levadas pelo vento. Todos se preparam para os festejos do Hanami, que nada mais é do que contemplar o florescer das cerejeiras, o desabrochar do SAKURÁ. In é um jovem que anseia se tornar um grande Samurai, mas para isso terá que cumprir sua grande missão e enfrentar seu maior inimigo. Yo é uma jovem que desde muito pequena foi prometida para ser apresentada durante os festejos do Hanami. No entanto, ela não deseja seguir a tradição imposta. Dois destinos cheios de aventuras, batalhas e desafios se cumprirão quando cair a última flor de cerejeira, o último Sakurá”.

Sakurá

Foto: Renato Mangolin

O texto escrito por Gabriel Naegele é virtuoso por ampliar a diversidade de percepções não tão usuais no segmento do teatro infantil, movendo uma engrenagem em busca de um olhar sobre princípios e valores, que embora universais, possuem uma abordagem muito particular da cultura oriental. A proposta carrega seus riscos justamente por trilhar zonas menos tangíveis à formação do nosso simulacro, que em mãos pouco hábeis adentrariam facilmente por clichês e estereótipos, desvencilhados pelo autor primeiramente por uma história bem contada sem apelar para voos rasteiros, bem fundamentada em sua gênese e com interessantes ingredientes filosóficos. Outro grande mérito da dramaturgia é a ausência de didatismos, explicações e significações explícitas, deixando justamente abertas janelas reflexivas para seu público questões sobre a importância de se moldar o próprio destino, não se permitindo arraigar a um “predestino” de tradições imobilizantes.

Um dos aspectos que me chamam a atenção no trabalho da grupo é a Cia Crias da Casa integração dos elementos teatrais para uma concepção cênica que esteja plenamente integrada com a história contada. Pode parecer óbvio escrever isso, mas é algo que nesse espetáculo fica muito explícito justamente pela ausência de percepção de um personalismo. Quando cito “ausência de personalismo”, não confundir com ausência de personalidade e nem se insere nisso uma crítica ou um elogio necessariamente, apenas o apontar de uma assinatura muito específica, de um método de trabalho que no caso de “Sakurá” se resolveu muito bem do ponto de vista artístico.

A direção artística de Maria Vidal e Gabriel Naegele cria cenas, algumas bem complexas, que dosam o ritmo em alternância para as várias opções dispostas na narrativa, moldando os diversos elementos teatrais para atingir não somente a intensidade dramática pretendida, mas a construção de uma ambientação que contemple todo um mundo muito particular em seus valores e singularidades, com um destaque adicional para a preparação corporal de Maria Vidal no processo de composição cênica e movimentação dos atores.

O elenco formado Aline Peixoto, Denise Peixoto, Gabriel Naegele, Leo Thurler e Maria Vidal, desdobra-se mais além dos seus papeis, numa complementação cênica mais ampla, ocultos em figurinos sóbrios e sob máscaras, em função da história e ressaltando o que mencionei acima, “sem personalismos”.  Mas nas funções específicas dos personagens, há um eficiente jogo cênico, em especial na composição em duo de Gabriel Naegele e Leo Thurler, faces conflitantes, complementares e complexas entre os opostos que habitam o interior do ser humano. Aline Peixoto igualmente tem atuação destacável, interpretando a jovem Yo, que se rebela contra as amarras impostas por tradições carentes de fundamentações racionais.

Os cenários(Leo Thurler e Gabriel Naegele) permitem por manejos simples a formatação de diferentes configurações que redesenham as necessidades cenográficas com bastante funcionalidade, estruturas estilizadas como bambus, com caprichos em adereços, como nas opções cromáticas(igualmente bem destacadas na iluminação de Ricardo Lyra Jr) ou nas lanternas vermelhas que dimensionam gestos sutis. Os figurinos de Leo Thurler tem eficaz destaque no processo de amplificação do universo proposto e juntamente com o visagismo(igualmente assinado por Thurler), é preponderantes para o trabalho de composição dos personagens, disponibilizando um acento particular pela capacidade de resplandecer aspectos de verdade em personagens fisicamente tão distantes dos atores que os interpretam, sem deixá-los caricatos em nenhum momento, mas calcando-os de elementos que os alçam a uma idealização junto ao público infantil. A trilha sonora de Aline Peixoto e Denise Peixoto preenche com harmonia a proposição cênica, como a sonoplastia igualmente contribui nesse mesmo sentido, como exemplo ao que me pareceu uma citação ao Shisho-Odoshi, o som de uma fonte de água em tubo de bambu que emana um ruído suave e rítmico.

Além de  muito bem estruturado artisticamente, “Sakurá” ergue uma ponte em direção a um olhar dissonante para um público em plena formação de seus valores e referências.

Foto: Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

Serviço:
Teatro Municipal Ziembinski
Rua Urbâno Duarte, 30 – Tijuca
Tel: (21) 3234-2003
Temporada: De 9 de setembro a 01 de outubro
Dias e horários: Sábados e domingos às 16h
Ingressos: R$30,00 (inteira)
Classificação: 6 anos
Duração: 55 min

Ficha Técnica:
Elenco: Aline Peixoto, Denise Peixoto, Gabriel Naegele, Leo Thurler e Maria Vidal
Texto, cenário e Direção Geral: Gabriel Naegele
Assistente de Direção: Ricardo Lyra Jr e Thais Alves
Iluminação: Ricardo Lyra Jr
Direção Artística: Gabriel Naegele e Maria Vidal
Direção Musical: Aline Peixoto e Denise Peixoto
Direção de Movimento: Maria Vidal
Preparação Vocal: Jorge Maya
Preparação Corporal: Maria Vidal
Diretora de Palco: Roberta Thurler
Figurinos e visagismo: Leo Thurler
Adereços: Leo Thurler e Gabriel Naegele
Músicas: Aline Peixoto e Denise Peixoto
Trilha sonora: Aline Peixoto, Denise Peixoto e Yuichi Inumaru
Consultoria de bonecos: Márcio Nascimento e Nini Beltrani
Consultoria Circense: Cristina Moura
Consultoria de Artes Marciais: Ronaldo Damazio
Fotografia: Ton Carvalho e Renato Mangolin
Programação visual: Guilherme Kato
Consultoria de Produção: CultConsult
Direção de Produção e Realização: Cia Crias da Casa
Assessoria de Imprensa: Julie Duarte (21) 987578009


Palpites para este texto:

  1. Amei esse espetáculo. Tudo é muito lindo! Parabéns Crias da Casa.

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