Critica Teatro Infantil: Tra-La-Lá


 
Foto: Rafael Blasi

Foto: Rafael Blasi

Por Renato Mello

Lamartine  Babo, um dos mais importantes compositores brasileiros, autor de incontáveis canções e inesquecíveis marchinhas carnavalescas, além de outras facetas como figura emblemática da sociedade brasileira da primeira metade do século XX, recebeu um belíssimo tratamento cênico a partir de projeto idealizado pela atriz, cantora e flautista Anna Bello, com direção de Ana Paula Abreu: “Tra-La-Lá”, em cartaz no Oi Futuro Ipanema até o dia 26 de março.

 “Tra-La-Lá” traduz-se em cena como um conjunto de acertos  que geraram uma ambientação empolgante. Além de produzir imediata empatia com seu “público alvo”, demonstra capacidade de envolver por completo igualmente o público adulto em sua representação.

Ainda em novembro quando chegou em minhas mãos o projeto de “Tra-La-Lá” fui tomado pela curiosidade na simples leitura de sua ficha técnica, composta por alguns dos melhores artistas e criadores do teatroinfantojuvenil carioca. Sem dúvida esse aspecto contribui para compreender o êxito artístico que pôde ser presenciado em sua estreia, no último dia 14 de janeiro. Percebe-se de imediato a harmonia entre os distintos departamentos que compõem o espetáculo, com os elementos interagindo com naturalidade e sem sobreposição ou choques, como que falando todos “o mesmo idioma”. Esse equilíbrio se dá num nível elevado, até mesmo referencial.

Para compreendermos melhor o que leva um espetáculo como “Tra-La-Lá” a completar-se como obra artística, tentarei destrinchar esses elementos para podermos ao final ter a visão do seu todo.

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Foto: Rafael Blasi

Tra-La-Lá” parte de um roteiro ficcional para retratar o universo poético da obra de Lamartine Babo. O roteiro foi escrito por Vanessa Dantas, responsável por alguns dos mais relevantes espetáculos desse segmento nos últimos 10 anos(“Borralheira, uma Opereta Brasileira”, “O Barbeiro de Ervilha” e “O Elixir do Amor”). O enredo se passa basicamente numa praça em que “o viúvo Seu Voronoff trabalha com o seu hospital portátil de bonecos e não esconde uma antiga paixão dos tempos de escola por Dona Juju Balangandã, que aparece todos os dias para vender suas bugigangas na praça.  Armando Boaventura, artista e músico da praça, e os jovens Pedro (neto de Voronoff) e Tina (neta de Juju) vão ajudar o Seu Voronoff a conquistar novamente o coração de Juju”.

Quem conhece razoavelmente o trabalho de Vanessa Dantas sabe de sua obsessão pela perfeição e da profundidade que reside em qualquer trabalho que abrace. Foi justamente na solidez de sua pesquisa, tendo por base a pesquisa do jornalista Pedro Paulo Malta e o livro “Tra-la-lá – Vida e Obra de Lamartine Babo”, de Suetônio Soares Valença, que se desenvolveu uma história que em suas linhas gerais mantém aspectos práticos que possibilitam a inserção do universo de Lamartine e suas canções, cobrindo a dramaturgia com fluidez e naturalidade. Seus personagens, misturam elementos da obra de Lamartine, como seu Voronoff e Juju Balangadã com os aspectos ficcionais, além de utilizar-se do contraste de geração para histórias de amor que se desenvolvem paralelamente. O que resulta do seu texto é o permear de uma sustentação que possibilita para a diretora Ana Paula Abreu abrir diversas frentes de criação e encaixar com naturalidade as peças para a formatação final do espetáculo.

Ana Paula Abreu mescla com equilíbrio distintas técnicas narrativas, como a manipulação de bonecos(sob a supervisão de Márcio Nascimento), a metalinguagem e naturalmente, a música. Sua direção altera a composição cênica com sutileza, compõe ambientes bem-dispostos, movimentação ajustada e principalmente, ótimas soluções para a criação das cenas. A sequência de Voronoff e Juju no cinema, enquanto observam a si próprios na tela, reverberam todo um aspecto de magia pela ambientação sob a execução de “Canção Para Inglês Ver” e tem um resultado visual absolutamente encantador!

Foto: Rafael Blasi

Foto: Rafael Blasi

Mesmo diante de inúmeras informações, não se percebe nenhuma espécie de acúmulo desnecessário, um risco que se corre quando se tem incontáveis referências à disposição.  Ana Paula Abreu condensa com coerência o que realmente importa para dispor em cena de uma concepção clara, limpa e dinâmica que permite o espetáculo ganhar uma cadência natural.

O elenco formado por Anna Bello(Juju Balangandã), Leonardo Miranda(Seu Voronoff), Leandro Castilho(Armando Boaventura), Isabela Rescala(Tina), Daniel Haidar(Pedro) e Matias Zibecchi(homem-banda) tem atuação admirável. Anna Bello faz um interessante trabalho de composição para seu personagem através das nuances que se impõem na sua expressão vocal, assim como o instrumento corporal, com contribuição do figurino de Carol Lobato no arranjo físico do personagem. Leonardo Miranda, que traz um histórico recente representativo no teatro infantojuvenil, imprime mais uma vez ótima atuação repleta de humor, carisma e versatilidade. Leandro Castilho! Um talento enorme do teatro, seja como ator ou músico. A presença de Leandro Castilho em qualquer elenco(infantil ou adulto) é um pressuposto de  afirmação e qualidade pelo domínio técnico que demonstra, expandido numa tonalidade adequada aspectos de humor, para não falarmos de sua inesgotável capacidade musical. Isabela Rescala, que juntamente com Daniel Haidar representa o jovem casal, netos de dona Juju e seu Voronoff,  apresenta vasto domínio musical e impõe segurança no processo de composição do seu personagem(percebido em pequenas sutilezas e detalhes), atuando com graça e solidez. Daniel Haidar consegue sair-se bem em diferentes necessidades que a narrativa lhe apresenta, desde a representação do típico cantor-galã da era do rádio ao neto de seu Voronoff.

Foto: Rafael Blasi

Foto: Rafael Blasi

Como seria natural para a proposta complementar-se, a direção musical tem um papel preponderante, na qual Marcelo Rezende responde numa execução admirável e criativa. Seus arranjos e o modo como dispõe da habilidade do atores foge do lugar comum e do que se esperava, surpreendendo em sua forma por diversas ocasiões, como executar o hino do Fluminense em ritmo de tango, explorar o instrumento vocal dos atores como base melódica e na rotação instrumental que utiliza. A condução musical acompanha a evolução dramatúrgica e mantém um aspecto vigoroso ao espetáculo.

O roteiro musical do espetáculo  é composto pelas seguintes canções:

Babozeira, Tamanho não é documento, Seu Vonoroff, Eu sonhei que tu estavas tão linda, AEIOU, Chegou a hora da fogueira, Linda morena, Joux Joux Balangandã,             O teu cabelo não nega mulata, Medley de marchinhas, Medley dos Hinos de Futebol, Eu quero um retratinho de você, Canção para inglês ver, Ride palhaço, Aí, hein!, No rancho fundo, Eu queria ser ioiô e Cantores do rádio.           

A cenografia de Carlos Alberto Nunes reveste o aspecto lúdico, com elementos que agradam esteticamente, com distintas referências e utilidades nos objetos de cena, recriando com beleza e graça a praça central.

Os figurinos de Carol Lobato mais do que beleza, envolvem  aspectos que contribuem para um melhor entendimento tanto dos personagens, quanto da própria narrativa. Encanta nos desenhos de Carol Lobato a maneira como trabalha as formas, as texturas e as cores. Importante mencionar o olhar detalhista com que a partir pequenos elementos atinge efeitos que proporcionam um ganho real ao todo, assim como a consistente pesquisa de época.

Aurélio de Simoni realiza ótimo desenho de luz, que possibilita um dimensionamento ao trabalho cênico, cenográfico e estético na concepção da atmosfera pretendida, assim com encontra soluções simples, mas que geram encantamento à ambientação.

É de extrema importância que a obra de Lamartine Babo chegue ao público infantil com a qualidade e seriedade de um espetáculo como “Tra-La-Lá”. Ainda é prematuro tecermos qualquer tipo de avaliação das expectativas da temporada infanto-juvenil de 2017, mas independente do que virá, “Tra-Lá-Lá” é desde já uma referência do melhor que esse segmento pode oferecer.

Para ser aplaudido de pé!

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Foto: Rafael Blasi

FICHA TÉCNICA
Direção: Ana Paula Abreu
Direção Musical e arranjos: Marcelo Rezende
Texto: Vanessa Dantas
Pesquisa: Pedro Paulo Malta
Idealização: Anna Bello
Direção de Movimento: EléonoreGuisnet-Meyer
Figurino: Carol Lobato
Cenografia: Carlos Alberto Nunes
Iluminação: Aurélio de Simoni
Confecção dos bonecos: Bruno Dante
Audiovisual e Foto: Rafael Blasi
Programação Visual: Clara Meliande
Direção de produção: Renata Blasi
Produção: Diálogo da Arte Produções Culturais
Realização: Doravante Produções Artísticas
Elenco:
Anna Bello (Dona Juju Balangandã)
Daniel Haidar (Pedro)
Isabela Rescala (Tina)
Leandro Castilho (Armando Boaventura)
Leonardo Miranda (Seu Voronoff)
Matias Zibecchi (músico)

SERVIÇO:
Temporada: De 14/01 a 26/03.
Dias e horários: Sábados e Domingos, às 16h
(não haverá espetáculo nos dias 25 e 26 de fevereiro).
Local: Oi Futuro Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 57 (Ipanema).
Tel.: (21) 3131-9333.
Ingressos: R$ 20 (inteira) | R$10 (meia)
Duração: 60 minutos.
Classificação: Livre.
Gênero: Musical infantojuvenil.
Horários da bilheteria: De terça a sexta, das 14h às 20h. Sábados, domingos e feriados, das 13h às 20h

Assessoria de imprensa do espetáculo
Bianca Senna
bianca@astrolabiocom.net

Paula Catunda
paula.catunda@gmail.com

Informações sobre Oi Futuro:
Barbara Gazal – Comunicação Corporativa Oi
barbara.gazal@oi.net.br
(21) 98766-1151 | 3131-1147


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