Crítica: Tetéia


 

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Por Renato Mello.

Uma proposta original e bastante interessante terá nesse final de semana suas últimas apresentações no Studio Saraswati de Yoga, localizado na av Ataulfo de Paiva no Leblon.  Trata-se da montagem de “Tetéia”, com direção de André Dale.

Confesso que de início causou-me certa estranheza o local escolhido como palco e cenário para “Tetéia”. Porém, por ser conhecedor do Studio Saraswati, comecei posteriormente a imaginar o potencial que o local reserva e as inúmeras possibilidades que se abririam com a proximidade e intimidade entre a encenação e o espectador. Enquanto aguardava na sala de espera o momento do espetáculo, observava uma pequena sala próxima, o mesmo lugar em que no auge de um forte problema de coluna anos atrás, encontrei o alívio através de sessões de acupuntura. Por que não me deixar levar pela atmosfera de um lugar que só me trazia lembranças positivas? Um espaço que busca o autoconhecimento e a saúde na sua essência, se abrindo agora para a arte teatral e embarcando na viagem criativa de um grupo disposto a explorar diferentes formas de contar uma história.

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Os primeiros acordes emitidos do som do violão de Pedro Cadore, “Tocando em Frente” de Almir Sater, já nos situa de onde estamos e o universo que vai ser retratado. Estamos em qualquer lugar da enorme zona rural brasileira em que o tempo corre diferente e os personagens tem uma visão de mundo muito distante do que encontramos na grande metrópole. O texto escrito por Érida Castello Branco coloca em cena duas mulheres inseridas nesse universo, Marina Monteiro e Taís Trindade, que vivem do ofício de fazer cestas artesanais, enquanto discutem a vida e os acontecimentos recentes ocorridos com uma vizinha, Tetéia, tais como a morte do seu marido, as maledicências relacionadas com pessoas ao seu redor ou ainda como na definição da própria produção: “Tetéia vive num lugar diferente. Lá, as almas se abrem em flor antes de seguirem para o além. Um segredo guardado a sete chaves por um falecido pode ser revelado pela característica de sua flor. Assim acontece com o falecido marido da Tetéia. Sua flor feminina surpreende a todos. As suposições aparecem e a pobre da Tetéia cai na boca do povo.”

Tetéia” é um típico espetáculo movido por uma ânsia de realização e pela doação completa à arte teatral por parte de uma equipe coesa que alguns de seus membros já vem realizando trabalhos de qualidade com pouco orçamento e muita criatividade. Isso é notado claramente no todo, começando pela interligação direta da cenografia de Júlia Marina e a iluminação original de André Pellegrino, que casam inteiramente tanto com a proposta como com a atmosfera da história escrita por Érida Castello Branco. Os sentidos são aguçados na construção desse mundo, seja no cheiro exalado pela palha ou do fogo da vela, a música executada por Pedro Cadore, a luz que parte de todos os cantos da sala ou ainda contato direto do público com os elementos cênicos. Desse modo a  vida de Tetéia vai nos sendo revelada, mesmo que por vias distorcidas, através dos diálogos bem escritos e a construção de todo um mundo particular, mas extremamente forte e que ganham em realidade através da encenação desenvolvida por André Dale.

Montando sequências fortes e com realismo, Dale explora o espaço peculiar em que se realiza o espetáculo de modo inteligente e com uma competente direção de atores. Cabe ressaltar que é a primeira vez que assisto um espetáculo com sua assinatura, porém já possuía uma admiração por seu trabalho como ator, que tive a oportunidade de assistir em ótimas interpretações em peças teatrais como “Uma Carta Perdida” e em “Peça Ruim”, além de uma boa atuação numa que nem gosto tanto como “Eu e Ela”.

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Com enfoques e nuances diferentes, mas dentro de um mesmo contexto, Marina Monteiro e Taís Trindade buscam a essência de personagens dentro de um mundo de crenças e códigos muito particulares com boas atuações. Taís Trindade realiza um registro mais rígido, um tom que revela uma certa amargura por trás dos pensamentos em meio a um mundo em que tudo é visto e falado por todos que estão em seu entorno. Marina Monteiro faz em determinados momentos um contraponto com Taís, fazendo um jogo cênico interessante e que cria uma boa empatia com os espectadores, buscando a emoção do seu personagem de modo mais exteriorizado, com uma grande expressividade do seu olhar e um trabalho muito bem realizado da expressão corporal.

Tetéia” acaba sendo um espetáculo bem-sucedido do ponto de vista artístico por todo um processo de criação, que passa não somente pela montagem da encenação, mas pela interação e intimidade que as atrizes e o diretor levam até o público. Ao final o sentimento ao deixar o Studio Saraswati é de um bem-estar e de felicidade por um espetáculo realizado com qualidade e talento.

Tetéia
teteia3Local: Av Ataulfo de Paiva 706/201
Dias 04 e 05 de julho
Horário: 20:30

Ficha Técnica:
Texto: Érica Castello Branco
Direção: André Dale
Assistência de Direção: Miguel Arraes
Elenco: Marina Monteiro e Taís Trindade
Produção: Tatjana Vereza
Figurino: Anouk Zee
Cenário: Júlia Marina
Iluminação: André Pellegrino
Música: Pedro Cadore
Programação Visual: Enrico Batalha
Programação Áudio Visual: HM Produções


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