Crítica: The Pride


 
Foto: Ricardo Martins

Foto: Ricardo Martins

Por Renato Mello

Resta esta última semana para assistir um dos mais interessantes espetáculos que se apresentam em cartaz na nossa cidade. “The Pride” cumpre temporada até o dia 11 de maio no Teatro Ipanema.

Dirigido por Victor García Peralta para texto original de Alexi Kaye Campbell, autor grego que vem construindo sólida carreira dramatúrgica nos palcos londrinos, recebeu a tradução de Ricardo Ventura para os palcos brasileiros.

Alexi Kaye Campbell ganhou alguns dos mais representativos prêmios do círculo teatral britânico com “The Pride”, desde sua montagem original em 2008. Segundo aponta sua própria sinopse oficial, trata-se de um Drama cômico que “vai e volta no tempo, retratando duas épocas separadas por meio século. A narrativa intercala passagens da história situando-a em 1958, num momento em que a repressão sexual é aguda e a homossexualidade é crime previsto em lei, e em 2008, onde a repressão é exercida de maneira mais diluída e disforme, mas não menos violenta”.

Na década de 50 Philip(Arthur Brandão) é um agente imobiliário, casado com Sylvia(Lisa Eiras), mas que sente o peso da culpa ao descobrir-se atraído por Oliver(Michel Blois), escritor de livros infantis que são ilustrados por Sylvia.  Os mesmos nomes, mas épocas e personagens distintos. No tempo presente Oliver é um jornalista freelancer que destrói seu relacionamento com Philip pelo seu vício em sexo casual e que tem o suporte constante da amiga Sylvia. A partir de um fio condutor aparentemente simples, Campbell consegue enredar um instigante jogo narrativo de justaposição com personagens permanentemente confrontados por contextos que os aprisionam em tempos distintos, seja pelo sentimento de culpa de uma sociedade repressora ou pela compulsão sexual vazia de tempos libertos.

Foto: Ricardo Martins

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A direção de Victor García Peralta é de extrema eficácia ao conduzir de maneira harmônica o movimento pendular da narrativa, não permitindo que a profundidade do texto se esvaia nas transições temporais, deixando o espaço de tempo flutuar, sem jamais deixar de tensionar a carga dramática da relação conflituosa dos personagens com seus próprios comportamentos sexuais, persistindo mesmo quando atinge as zonas do humor(expresso especificamente em 2 dos personagens interpretados por Cirillo Luna, o garoto de programa e o editor), que apesar da comicidade sugerida, mas propositalmente constrangedoras, acabam por impulsionar um sentimento de angústia pela ambientação. A concepção cênica de Peralta tem papel preponderante para o êxito da dinâmica narrativa, através principalmente da engenhosidade do elemento cenográfico concebido por Dina Levy Salem, um banco de madeira divido em 2 compartimentos que permite a formação de vários tipos de desenhos, representando metaforicamente os ponteiros de um relógio e demonstrando-se bastante funcional para as criações das cenas indiferentemente das transições do espaço físico e temporal.

A atuação de todo o elenco tem papel preponderante para o alcance artístico atingido pela da proposta. Teoricamente caberia aos personagens Sylvia, interpretados por Lisa Eiras, uma conotação mais passiva dentro da narrativa, mas na verdade é quem equilibra com sua lucidez toda a impulsão sentimental dos personagens masculinos. A atuação de Lisa Eiras é excelente! Representando numa altura adequada, sem jamais passar por cima da narrativa, mas pontuando com incisão as ações do seu personagem, sendo responsável pelo ápice dramático quando confronta o amante do marido e percebe a dimensão da infelicidade de todos os vértices de um tortuoso triângulo. Michel Blois consegue expressar com competência os sentimentos de seus personagens, seja através do olhar no Oliver dos anos 50, ou com a utilização da modulação vocal e do corpo no personagem contemporâneo. O Philip de Arthur Brandão tem um melhor delineamento no contexto da angústia e do dilema de um homem casado soterrado pela culpa, mas sem a mesma força dramática no tempo presente, porém o ator consegue traçar uma linha eficaz e coerente em ambas situações. Cirillo Luna divide-se em 3 personagens completamente díspares: o garoto de programa, o editor e o terapeuta, explorando com qualidade as necessidades distintas que lhe são exigidas.

Os figurinos de Carol Lobato sustentam eficazmente as necessidades de composição dos diversos personagens. Assim como a iluminação de Tomás Ribas realça o quadro cênico de Garcia Peralta e as imposições da narrativa de Campbell.

The Pride”, é um espetáculo que encontrou na sua montagem nacional artistas e criadores com sensibilidade para buscar no entendimento de suas camadas, toda uma concepção que amplia as possibilidades de discussão de uma temática necessária, ainda mais em tempos em que a intolerância está à espreita esperando a oportunidade de voltar a se impor no grito.

Foto: Ricardo Martins

Foto: Ricardo Martins

Ficha Técnica:

Texto: Alexi Kaye Campbell | Tradução e adaptação: Ricardo Ventura

Direção: Victor Garcia Peralta | Elenco: Arthur Brandão, Cirillo Luna, Lisa Eiras e Michel Blois | Cenografia: Dina Salem Levy | Figurino: Carol Lobato

Iluminação: Tomás Ribas | Trilha Sonora: Isadora Medella |Videografismo: Victor Leobons | Designer gráfico: Marcelo Mendonça | Produção:Arthur Brandão e Mariana Machado | Assessoria de imprensa: Mônica Riani | Idealização: C.I.C. – Clube de Investigação Cênica | Realização: A Távola Produções

Serviço:
Peça The Pride – De Alexi Kaye Campbell. Direção: Victor Garcia Peralta.
Elenco: Arthur Brandão, Cirillo Luna, Lisa Eiras e Michel Blois
Duração: 100 minutos | Local: Teatro Ipanema
Endereço: Rua Prudente de Morais, 824, Ipanema, Rio de Janeiro
Informações: (21) 2267-3750
Estreia: 12 de abril de 2017 (quarta-feira)
Temporada: De 12 de abril a 11 de maio de 2017 (às quartas e quintas)
Horário: 20h | Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$15 (meia). Para os casos previstos em lei. E Ingresso Amigo: R$ 10,00.
Classificação: 16 anos


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