Crítica: Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos


 

Foto: Leo Aversa.

Chico Buarque é um artista de múltiplos superlativos, possuidor de tanta complexidade, facetas e com uma obra tão vasta e variada que se pode trabalhar espetáculos sobre sua obra de infinitas maneiras. Pode-se analisá-lo sob o ponto de vista de um trovador, de um malandro, de uma mulher, do político, do escritor e mais uma infinidade de perspectivas. Claudio Botelho e Charles Möeller optaram por trazer aos palcos do Teatro Clara Nunes uma visão da sua carreira como autor musical seja no teatro, seja no cinema, seja mesmo na televisão com “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”, aonde capturam seus incontáveis clássicos compostos especialmente para os palcos e telas como:

  • Roda Viva”(1967) – peça hoje meio que renegada pelo próprio Chico, mas com músicas brilhantes
  • Morte e Vida Severina”(1968), sobre a obra de João Cabral de Melo Neto
  • Quando o Carnaval Chegar”(1972) – filme de Cacá Diegues
  • Calabar”(1973) – com Ruy Guerra, proibida pela censura dias antes de sua estreia
  • Gota d’Água”(1975) – com Paulo Pontes
  • Dona Flor e Seus Dois Maridos(1976) – filme de Bruno Barreto, a trilha é de Francis Hime, mas a cena final de “O que Será” é um clássico
  • O Saltimbancos”(1977)
  • Ópera do Malandro”(1978) – que em 1986 virou um ótimo filme de Ruy Guerra
  • O Grande Circo Místico”(1982) – trilha composta com Edu Lobo para o ballet do teatro Guaíra, considerado por muitos como o melhor disco dos anos 80
  • Para Viver um Grande Amor”(1983) – filme de Miguel Faria, o filme é constrangedor, vale pelas canções de Chico e Djavan
  • O Corsário do Rei”(1985) – com Edu Lobo
  • Suburbano Coração”(1989)
.

Nessa relação estão inclusos alguns dos maiores clássicos da história da Música Popular Brasileira e ali se encontra material suficiente para se fazer inesquecíveis espetáculos. Claudio Botelho e Charles Möeller, com sua habitual competência, não desperdiçaram essa matéria prima e fizeram da estreia de “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” uma noite inesquecível para quem estava no Teatro Clara Nunes, um espetáculo daqueles que faz a gente sair do teatro encantado sentindo-se como se estivesse flutuando pelos corredores do Shopping da Gávea, ainda inebriado por algo tão belo e sublime. O ano que se comemora o septuagésimo aniversário de Chico Buarque começou no mais alto estilo que o teatro musical brasileiro poderia chegar.

O universo de Chico Buarque não é desconhecido de Charles Möeller e Claudio Botelho. O próprio Claudio Botelho protagonizou um encantador espetáculo em fins da década de 90, que eu tive o prazer de ver, chamado “Na Bagunça do teu Coração”, juntamente com Claudia Netto e direção de Bibi Ferreira com o repertório de Chico. O título do espetáculo é uma referência a canção “Eu te Amo”, uma das mais lindas de toda a história da música brasileira. Anos mais tarde, já em conjunto com Charles Möeller realizaram uma brilhante adaptação de “Ópera do Malandro” e também de “Suburbano Coração”, que o próprio Claudio protagonizou com Inez Viana.

No caso de “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” fico pessoalmente agradecido a Charles Möeller e Claudio Botelho que acabaram por fazer minha reconciliação pessoal com Chico Buarque, eu precisava muito dessa reconciliação. Minha decepção vinha do seu recente posicionamento um tanto reacionário(no meu ponto de vista) em relação à polêmica da liberação das biografias. É muito duro nos decepcionarmos com um ídolo de uma vida inteira. Não tem como ficarmos muito tempo “magoado” com alguém que é dono da maior obra musical da história da Música Popular Brasileira”.

 No roteiro, criado por Botelho, ele mesmo vive um velho dono de companhia de atores mambembes, que através de um bloco de notas lembra de tempos nostálgicos e (por vezes nem tanto) felizes de sua companhia. Lembranças e reminiscências um tanto imprecisas e confusas, aonde o tempo nos leva a sermos traído por nossa memória, lembrando um pouco alguma característica do personagem central de “Leite Derramado”. Em torno dessas turvas memórias desfilam cerca de 50 músicas. “A opção pelo teatro se explica pelas letras escritas por Chico para seus musicais: todas são pequenas histórias, com começo, meio e fim“, contou Botelho ao jornal O Estado de São Paulo. “Nosso trabalho foi alinhavá-las de uma tal maneira a fim de se parecer com um musical original, ou seja, temos a pretensão de oferecer uma obra que parece ter sido especialmente composta pelo Chico“, completou Botelho.

O elenco embora heterogêneo em todos os sentidos, faixa etária, experiência, tipos físicos, é composto 8 excelentes atores-cantores, reunindo Soraya Ravenle, Malu Rodrigues, Lilian Valeska, Estrela Blanco, Renata Celidonio, Davi Guilherme e Felipe Tavolaro, além do próprio Claudio Botelho, depois de longo período sem protagonizar um musical. “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”, colocam definitivamente Malu Rodrigues e Estrela Blanco no 1º time das grandes estrelas(sem trocadilho com o nome da atriz) dos musicais brasileiros. Malu é perfeita, sua voz é límpida, clara, potente. Esbanja beleza e sensualidade com 2 olhos que parecem 2 faróis(perdoem o clichê),  com uma presença cênica de uma atriz madura. Estrela já faz uma outra linha, é um assombro da natureza, personalidade forte em cena, tal como um personagem saído de João Cabral de Melo Neto. Já havia visto Estrela em “Nada Será Como Antes”, aonde já era possível antever o que o futuro nos aguardava.

Diante de um cenário com alguma influência opressivamente expressionista, criação de Rogério Falcão, repleta de escadas de ferro, por onde os atores se desenvolvem, remetendo um pouco ao universo de Bertolt Brecht e Kurt Weill(cuja “A Ópera dos 3 Vinténs” influenciaram Chico em “Ópera do Malandro)”, Malu Rodrigues abre o espetáculo divinamente cantando “O Circo Místico” diante de um encantado(para não dizer embasbacado) Botelho, o diretor da trupe. Começa então o desfile de um repertório que não aposta somente no óbvio, mas também em canções menos conhecidas de Chico, como ”Invicta” e mesmo na malemolente “Biscate”, passando por “Gota d’Água”, “Sem Fantasia”, Pedaço de Mim”, sempre recriando-as fora do convencionado em nosso imaginário, seja no registro vocal, nos arranjos ou na apresentação. Em “O Meu Amor”  uma canção que expressa todos os sentimentos físicos femininos, pela primeira vez(surpreendentemente) vi sendo cantada num dueto por 2 homens. Recriar “Roda Viva” é um permanente desafio, devido a força do arranjo vocal original criado por Magro(do MPB-4),  para o Festival da canção da Record de 1967, mas Jules Vandystadt(responsável pelos arranjos vocais) se saiu plenamente bem. “Bastidores”, clássico eternizado na voz de Cauby Peixoto ganhou um belo e divertido dueto entre Botelho e Soraya Ravenle. Outro momento bem divertido é “Ciranda da Bailarina”, com toda concordância para o aposto final acrescentado por Botelho. Em “Geni e o Zepelim”, interpretada por Claudio Botelho, com todo o elenco ao fundo, há uma belíssima criação cênica(que se eu estivesse em cena iria me atrapalhar todo com as plaquinhas).

Mas aonde o sublime atinge seu momento mais elevado ocorre com Malu Rodrigues e Davi Guilherme em “Tatuagem”, num momento de intimidade cantado versos da beleza de…” Quero pesar feito cruz/Nas tuas costas/Que te retalha em postas/Mas no fundo gostas/Quando a noite vem/Quero ser a cicatriz/Risonha e corrosiva/Marcada a frio/Ferro e fogo/Em carne viva “. No mesmo nível de beleza e sofisticação Malu Rodrigues, Estrela Blanco e Claudio Botelho cantam “Beatriz”, uma das mais lindas(e difíceis de cantar) músicas da música brasileira.

Tecnicamente perfeito, “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” possui um iluminação deslumbrante, sabendo criar o clima certo para cada cena. Belos arranjos musicais criados por Thiago Trajano, aonde é preciso destacar o baterista e percussionista Marcio Romano. Destaca-se também os lindos figurinos de Marcelo Pies e acima de tudo, os arranjos vocais belíssimos de Jules Vandystadt, que a cada dia que passa vem se impondo como um dos grandes criadores do teatro nacional.

A princípio poderia ocorrer uma associação específica com a concepção de 2 outros espetáculos de Möeller e Botelho, “Beatles num Céu de Diamantes” e “Nada Será Como Antes”(sobre a obra de Milton Nascimento), aonde visitavam a obra de um artista específico e com 8 atores em cena. Mas  “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”, tem uma proposta dramatúrgica mais alinhavada, isso não quer dizer que os outros 2 espetáculos eram necessariamente menores, até porque foram também belíssimos trabalhos, embora esse que agora se apresenta seja o grande ápice.

O mais importante, é que saímos do teatro com o sentimento de sermos privilegiados por pertencermos a um país que existe um criador tão genial como Chico Buarque de Holanda. Um campo tão fértil para se trabalhar, que por mais que já se tenha debruçado em sua obra, ficamos com a sensação que ela é inesgotável.

TODOS OS MUSICAIS DE CHICO BUARQUE EM 90 MINUTOS

De 9 de janeiro a 27 de abril 2013
De quinta a sábado, às 21h. Domingos, às 20h.
Teatro Clara Nunes / Shopping da Gávea
Rua Marquês de São Vicente, 52 – 3º piso. Tel: 2274-9696


Palpites para este texto:

  1. O nome da música é bastidores e nao camarim.

  2. Você está correto, Marcio. Já fiz a alteração. Obrigado!

  3. Olha, com certeza o espetaculo que esse critico assistiu não foi o mesmo que vimos ontem. Ou então o critico e parente de alguem da produção. Ou simplesmente não entende nada mesmo. Não se iludam. Esse espetáculo e péssimo, pretencioso e absolutamente desnecessário. Um horror, uma tortura. Fiquei pensando o que o Chicopensou ou pensara ao ver o tal mmusical. Eu, se fosse ele, processava.

    • Moderação? Então já sei que não sera publicado. Kkkkkk. Valeu pelo espirito democrático.

      • Olá Ivan. Bem-vindo. Pronto, está publicado. Não sendo ofensas pessoais ou coisas do gênero, a divergência é livre por aqui. Quanto as hipóteses que você levantou, vamos lá: Não sou parente e nem tenho nenhum grau de amizade com alguma pessoa ligada a produção. Sobrou a 2ª alternativa: “Ou simplesmente não entende nada mesmo”. Fiquemos então com a 2ª alternativa.
        Abraços

    • César Miguel Sassine Chater -

      Não sou crítico de teatro nem de nada, mas dizer que este espetáculo é péssimo não condiz com a realidade do musical. A interpretação e a voz da Malu Rodrigues e da atriz principal Soraya Ravenle foram os pontos altos da peça.

      • César, minha opinião coincide com a sua. Concordo inteiramente. Abraços

        • Assisti ao espetáculo em Lisboa (Campo Pequeno) em 12 de Março de 2016. Descontando o fato de que era um musical, gênero que não é o meu preferido, destaco como ponto positivo a atuação das cantoras-atrizes, que estavam muito bem e a possibilidade de poder ouvir novamente e ao vivo canções memoráveis de Chico Buarque. O mesmo não posso falar dos rapazes, que apresentaram dificuldades para cantar no tempo “matando os músicos” e no tom, em especial o que fazia o personagem principal.Na saída ouvi comentários de vários portugueses reclamando que o gajo declamava as musicas ao invés de cantá-las e outros murmúrios do tipo, ou seja, as pessoas perceberam.. Outro ponto que destaco é que tudo bem fazer uma menção a possibilidade de prisão do nosso ex-presidente (um pouco forçado falar Bangu, mas sei que foi licença poética), o problema é repetir a “piada” por três vezes, caricaturar o Nordeste somente para realçar o pitoresco e, num complexo de vira-lata, fazer uma piada com os dentes mal cuidados dos brasileiros. No fim, também em outro surto vira lata, enalteceu Portugal para rebaixar o Brasil novamente. Algo muito anti Chico Buarque para um espetáculo sobre Chico Buarque, o artista parecia mais com o Chico Buarque de Orlando do Adnet.

  4. Achei o espetáculo belíssimo.
    Nunca vi nenhum dos musicais, mas entendi perfeitamente a intenção de cada cena.
    Quem não curtiu, muito provavelmente, não gosta de musicais ou só quer ser do contra pra ser mais um chato na Internet.

    • Tenho mesma opinião que você, Susan. Se fui “acusado” de ser parente de algum membro da produção, acho que a crítica que recebi, pelo tom das palavras, teve alguma intenção maior que demonstrar simplesmente descontentamento com o espetáculo. bem vinda, Susan. Obrigado pela participação.

  5. Péssimo, pretensioso e desnecessário é você Sr Ivan Lovison.. assisti o espetáculo sexta-feira e fiquei encantada, achei MARAVILHOSO!!!

    Todo elenco canta bem mas principalmente as meninas dão show – a canção Teresinha cantada por Estrela Blanco foi, para mim, um dos momentos mais divinos e arrebatadores que já vi em musicais!

  6. O Brasil tem milhões de técnicos de futebol e outros milhões de críticos – críticos de tudo, que não se conformam nem respeitam a opinião dos outros…
    Fui assistir “Todos os musicais” no sábado (06/09/14) no Teatro FAAP, em São Paulo e gostei muito. Não sou profissional em artes cênicas para julgar tecnicamente mas considerei a montagem muito bem feita e a apresentação impecável. E convenhamos, Chico é Chico… embalada por suas canções, qualquer eventual falha fica insignificante.

  7. Em sua música “Pra ninguém”,Caetano Veloso também cofunde – Bastidores com Camarim – eu já confundi com Cabaré.

  8. Renato, vou assistir ao espetáculo na próxima 6ª, em sua reestréia em SP. Se eu não gostar, vou aí no seu botequim tirar satisfações contigo. Posso? Devo? kkkk Adorei a sua missiva e espero gostar muito também do musical.

    • Ok Paula, pode tirar satisfação comigo se não gostar rsrs É um espetáculo que recomendo, com pessoas de inegável talento e dirigido por uma dupla de criadores do que tem de melhor no Brasil. Mas…o que escrevi foram impressões pessoais e não verdades absolutas. Mas acho que você vai gostar. 😉

  9. Eu particularmente não gostei do musical. Sim, as músicas foram muito bem executadas (principalmente o Roda Viva e Teresinha), gostei bastante do elenco (achei o Claudio Botelho o mais fraco de todos, tanto em termos de atuação quanto de vocal), e a produção foi muito bem feita. Dito isso, senti falta de uma conexão maior entre as músicas e a história. Achei a história fraca, e não vi sentido para algumas músicas estarem lá. Além disso, me irritou que aos 90 minutos de peça, eles simplesmente nos lembram que o tempo acabou, mas foda-se, a peça vai ter mais meia hora, mesmo que no título diga que são 90 minutos. Na boa, achei muito longo, não precisava de duas horas pra contar aquela história, sendo que algumas músicas sobraram (por exemplo, A Bailarina, que não encaixou na história e ainda por cima a versão que fizeram não foi muito boa, ou a Joana Francesa, que apesar de belamente cantada, também sobrou). E se a peça tem mais de 90 minutos, não ponha no título que ela tem 90 minutos. Porque o que aconteceu pra mim é que tudo que veio depois do anúncio de que os 90 minutos acabaram se arrastou, e eu ficava olhando no relógio, contando os minutos pra acabar. Pra mim a produção e os atores estão de parabéns, mas o roteiro e a direção não me agradaram.

  10. Olha, saímos de casa, meu marido, minha filha e eu, para nos divertir. Fãs de Chico Buarque, tanto pela obra, quanto por sua história, nos deparamos com a falta de profissionalismo do ator que, ao expor sua posição, num momento muito delicado do país, não soube respeitar a indignação das pessoas que se sentiram afrontadas em suas ideias: o ator simplesmente mandou as pessoas irem embora do teatro! No nosso caso, pagamos o total de 225 reais. Profissional é aquele que faz o seu trabalho respeitando as crenças de cada um, que sabe receber os aplausos e também as vaias,e, principalmente sabe pedir desculpas! Se quiséssemos assistir a manifestação contra o governo teríamos somente ligado a TV.

  11. Parabéns Ana, pelas palavras. A minha indignação se compara à sua. Palco não é palanque.

  12. Não disse??? Era a isso que eu me referia quando critiquei o espetáculo do Botelho em 2014. Fica claro que ele não entende nada de Chico Buarque. E aí está a comprovação: tanto não entende que falou mal do PT. Helloooo!!!! Falar mal do PT num espetáculo do Chico???? Não sabe nada do Chico! E a maneira como se referiu aos negros??? Essa pessoa que se sente um rei em cena e que não pode ser afrontada por um negro, nao pode entender nada de CHICO!!! Isso fica claro ao assistir o espetáculo!!! Ah, e para os que me acusaram de ter outras intenções além de expressar minha opinião nesse post, digo-lhes: Moro no interior do Paraná. NÃO FAÇO PARTE DO METIÊ!!!! Não quero destruir nada. Pelo contrário. Fizemos um puta esforço pra ver esse espetáculo e nos sentimos traídos porque AMAMOS o CHICO e aquilo NÃO ERA CHICO. Só Isso. Muito obrigado! Viva a democracia e o repeito à diversidade! Viva a raça negra e viva Chico Buarque do BRASIL!

  13. PLATEIA MAIS FENOMENAL! NÃO VAI TER GOLPE!

    INTERVENÇÃO POLÍTICA HORRENDA!

    ADIR ASSUNçÃO FALOU TUDO!

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