Crítica: Tom na Fazenda


 
Foto: José Limonge

Foto: José Limongi

Por Renato Mello

Em temporada prevista até o dia 14 de maio, “Tom na Fazenda” leva ao palco do Oi Futuro Flamengo uma pulsante história que convida o espectador a refletir sobre a compreensão e aceitação do outro, numa aventura humana que inicia o ciclo vicioso de mentiras para manter girando uma roda arraigada de preconceito. O resultado final dessa odisseia é a representação do melhor espetáculo teatral desse primeiro terço de 2017.

A partir do texto do autor canadense Michel Marc Bouchard, com direção de Rodrigo Portella e tradução de Armando Babaioff, “Tom na Fazenda” conta a história Tom(Armando Babaioff), jovem publicitário urbano que viaja até a zona rural para o funeral de seu companheiro. Lá percebe que seu amante nunca havia mencionado sobre a relação de ambos ou sua orientação sexual para a família, o que de início poderia sugerir uma trilha farsesca, começa a ganhar contornos dramáticos com a ameaça do irmão do falecido(Gustavo Vaz) caso revele a verdade para a mãe(Kelzy Ecard). Tom passa a representar um papel que não corresponde ao seu a fim de preservar um segredo em meio ao complexo espiral de violência que a dramaturgia de Bouchard eleva a altas densidades.

A precisão com que  Bouchard enreda sua narrativa se revela  em diálogos bem escritos e na maneira como equilibra a brutalidade com um humor tenso em que os personagens envolvem-se na mentira em busca de uma fuga de tudo aquilo que lhes  parece estranho ou distante de seus valores.

Foto: José Limongi

Foto: José Limongi

A direção de Rodrigo Portella despe sua ambientação de qualquer distracionismo, desde a ausência de maiores elementos cenográficos(Aurora de Campos) ou mesmo na utilização de tons neutros, tanto nos figurinos(Bruno Perlatto) quanto nos objetos de cena, optando por se concentrar na contundência das ações com a criação de uma atmosfera que gradativamente vai se tornando vigorosa até chegar aos limites do suportável pela descarga emocional que atinge um ápice, para em seguida dar uma ligeira afrouxada, permitindo que o espectador retome a respiração, para então voltar a mergulhar rumo ao abismo de lama de seus personagens. Sua encenação é sobretudo física, corpórea, que o diretor não tem pudor em embrutecer, mas sem jamais perder de vista a sutileza. Cria cenas fortes, consistentes e coreografadas que alcançam forte impacto, sendo necessário mencionar o relevante trabalho de preparação corporal de Lu Brites. Depois de dirigir um dos melhores espetáculos de 2016 com “Alice Mandou um Beijo”, Rodrigo Portella rompe 2017 com mais um brilhante trabalho de direção.

Um dos aspectos mais admiráveis da representação é o embate entre os personagens Tom(Armando Babaioff) e Francis(Gustavo Vaz), que apresentam uma dicotomia dramatúrgica entre a repulsa e a atração, fazendo da violência um canal de comunicação mútuo, atingindo diferentes vertentes que acabam por entranhar-se uma sobre a outra, desafiando os limites da dor física, da homofobia e mesmo no desenvolvimento de uma ambiguidade sadomasoquista em que Tom deixa-se prender numa forma derivada da síndrome de Estocolmo. Tom obedece, espancado, não ousa quebrar a parede de silêncio, deixando-se esvair por um caminho de perturbação que cria uma atração em Francis. Armando Babaioff traça com enorme sensibilidade toda uma linha evolutiva para Tom, atravessando uma gangorra emocional que faz com que seu personagem termine o espetáculo inteiramente diferente de seus aspectos iniciais, movimentando-se por trilhas que fogem da racionalidade, que o ator expõe coerentemente. O personagem de Gustavo Vaz apresenta um percurso mais linear, que exige um desempenho sobretudo físico, que o ator encontra na tonalidade de sua interpretação aspectos perturbadores de um ser recluso num ostracismo imposto por um crime cometido no passado, transformando-o num ser invisível junto a uma pequena comunidade rural que o puniu a um impiedoso silêncio, extravasando a dimensão de uma dor represada sobre a fragilidade de Tom.

Foto: Ricardo Brajterman

Foto: Ricardo Brajterman

 Ambos formam com a mãe, Kelzy Ecard, um triângulo trágico. Kelzy Ecard desenvolve sua atuação próxima de uma linha emotiva, inicialmente manipulável, mas que se revela mais lúcida do que se supunha. Atuação magnífica de Kelzy Ecard!

Camila Nhary tem em seu personagem a função de afrouxar a corda através de um relaxamento dramatúrgico que chega em um momento narrativo propício, com diálogos saborosos, mas que acabam detonando os efeitos perversos das mentiras.

A iluminação de Tomás Ribas é preponderante na marcação da densidade da ambientação, contribuindo para que a concepção cênica encontrasse uma gradação de extrema adequação com a pontuação narrativa.

Tom na Fazenda” é uma obra de uma estrutura dramatúrgica impecável, vasculhando a brutalidade de sentimentos homofóbicos e que encontrou na direção de Rodrigo Portella um consistente catalisador para expor-se no mais alto valor artístico.

Foto: Ricardo Brajterman

Foto: Ricardo Brajterman

FICHA TÉCNICA
Texto: Michel Marc Bouchard
Tradução: Armando Babaioff
Direção: Rodrigo Portella
Elenco:
Kelzy Ecard
Armando Babaioff
Camila Nhary
Gustavo Vaz
Cenografia: Aurora dos Campos
Iluminação: Tomás Ribas
Figurino: Bruno Perlatto
Concepção Sonora: Marcello H.
Preparação Corporal: Lu Brites
Hair Stylist: Ezequiel Blanc
Produção: Galharufa Produções
Idealização: ABGV Produções Artísticas

SERVIÇO
Espetáculo: Tom na fazenda
Temporada: 23 de março a 14 de maio.
Local: Oi Futuro (R. Dois de Dezembro, 63 – Flamengo).
Informações: (21) 3131-3060.
Dias e horários: Quinta a domingo, às 20h.
Capacidade: 63 lugares.
Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 18 anos.
Gênero: Drama.
Ingressos: R$ 15 (meia) e R$ 30 (inteira).
Horários da bilheteria:De terça a sexta, das 14h às 20h. Sábados, domingos e feriados, das 13h às 20h.


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