Crítica: Tubarões


 
Foto: Camila Koschdoski

Foto: Camila Koschdoski

Por Renato Mello

Se apresentando na sala multiuso do Sesc Copacabana, o espetáculo “Tubarões” entra na fase final da sua temporada, encerra no dia 3 de setembro, com dramaturgia assinada por Daniela Pereira Carvalho juntamente com o elenco e o diretor Michel Blois.

Uma casa de praia em um ponto longínquo do mapa. Um lugar ainda intocado do efeito do tempo em que a intensidade emocional ali vivida 20 anos atrás parece presente pela atmosfera, como que presa naquele espaço físico. No reencontro os sentimentos escavados afloram de modo pungente. A temática de um reencontro que vasculha as memórias de tempos passados de um grupo de amigos não é original, mas se bem construída suscita interessantes reflexões, mesmo em nós na passiva condição de ouvintes. Quem fomos? O que nos tornamos? Que fizemos de nossas vidas? Aonde mudei o rumo?

Segundo sua sinopse oficial:

Stella(Bianca Joy), Cícero(Christian Landi) e Murillo(Alexandre Varella), se reencontram para passar um final de semana em uma casa de praia da juventude, onde viveram profundas emoções, amores e descobertas. Cada qual seguiu distintos rumos em suas vidas: Stella é uma advogada poderosa e independente, casada com Bernardo (Alonso Zerbinato); Cícero é professor de cinema e mora fora do Brasil há anos, casado com o biólogo marinho Daniel (Cirillo Luna); Murillo administra a fortuna que herdou de seu pai e namora Clarisse (Bia Bertu), uma menina quase vinte anos mais nova e submissa. 

 Daniela Pereira de Carvallho, Michel Blois e o elenco desenvolvem uma narrativa em que a partir da metáfora do tubarão como uma representação do tempo, em que apesar de se seguir adiante, os destroços deixados pelo caminho sedimentam uma marca permanente,  sabedores que o efeito implacável do ciclo da vida será insuficiente para se atingir todas as aspirações. Há nesse processo dramatúrgico um tom existencialista que nos alcança emocionalmente a ponto de invariavelmente criar uma identificação com algum compartimento emocional de nossas lembranças mais distantes. Não necessariamente como uma nostalgia, mas como algum fantasma que invariavelmente geramos e criamos no íntimo durante nossa trajetória rumo a um utópico amadurecimento. Um olhar para o passado como um espectador de si mesmo, um sentimento de não reconhecimento próprio. Esse talvez seja o grande mérito do texto, permitir uma amplidão de perspectivas.

Ainda sobre o texto, persiste uma demarcação muito específica de que tempo é esse que os aprisiona a partir de referências explícitas, desde as músicas que de algum modo expõe fragmentos sentimentais de tempos passados, mesmo em canções não tão datadas(como “Sodade” de Cesaria Évora), até mesmo citações de personagens e fatos presentes nos anos 80.

Foto: Camila Koschdoski

Foto: Camila Koschdoski

De início a concepção cênica pode causar algum estranhamento pela opção cenográfica de Antônio Guedes e Sandro Vieira, com uma instalação tubular de PVC com diversos ambientes, mas desde as primeiras movimentações delineadas pela direção de Michel Blois, percebe-se seu acerto pela maneira como amplia a noção espacial, aprofundando um olhar, com acontecimentos ocorrendo sucessivamente em planos diferentes, enriquecendo bastante a construção e a dinâmica imposta por Blois.

Pode até parecer superficial essa formatação de análise, mas é possível dividirmos os personagens em 2 grupos. Stella(Bianca Joy), Cícero(Christian Landi) e Murillo(Alexandre Varella) representam justamente essa dicotomia entre a nostalgia e a frustração ao se depararem com suas memórias emocionais e com o vazio existencial por elas gerado. Já Bernardo(Alonso Zerbinato),  Daniel (Cirillo Luna) e Clarisse (Bia Bertu), que inicialmente soam passivos, como que estrangeiros em relação aquelas vivência, acabam ao longo da narrativa criando  uma zona de interferência na atmosfera de seus pares, isso se dá não somente pelas intervenções narrativas, mas também pela diferença de gerações, em que as referências não possuem as mesmas significações. Existe uma boa fluidez na relação dos atores em cena, sem que perceba-se algum destoar, com atuações bem equilibradas dentro da densidade de seus sentimentos(expostos ou represados).

Os figurinos de Antônio Guedes de acordo com a proposta do espetáculo, com adequação aos personagens e dentro do que se espera de uma narrativa passada à beira da praia. Tomás Ribas assina o desenho de luz, conseguindo ambientar diferentes necessidades cênicas em ambientes distintos.

Ao mesmo tempo que traz um atraente retrato existencial de uma geração, “Tubarões” demonstra como o passado tem a capacidade de se impregnar inexpugnavelmente ao longo do nosso viver.

Foto: Camila Koschdoski

Foto: Camila Koschdoski

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia: Daniela Pereira de Carvalho, Alexandre Varella, Alonso Zerbinato, Beatriz Bertu, Bianca Joy Porte, Christian Landi, Cirillo Luna e Michel Blois
Direção: Michel Blois

Elenco: Alexandre Varella, Alonso Zerbinato, Beatriz Bertu, Bianca Joy Porte, Christian Landi e Cirillo Luna

Iluminação: Tomás Ribas
Cenário: Antônio Guedes e Sandro Vieira
Figurinos: Antônio Guedes
Programação visual, fotos e filmagem: Rodrigo Turazzi
Direção de produção: Luísa Barros
Produção executiva: Ana Studart
Administração: Amanda Cezarina
Mobilização de recursos: Marcela Rosário
Mídias sociais: Rafael Teixeira
Idealização: Christian Landi e Daniela Pereira de Carvalho
Realização: Santo 7 & Cena e Sesc Rio

Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany


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