Crítica: Ubu Rei


 

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Por Renato Mello

A ambição desmedida de um personagem despido de pudor que deseja apossar-se criminosamente do poder. Expondo em rápidas palavras as linhas centrais da dramaturgia parece até uma abordagem contemporânea sobre eventos de nossos tempos, quando na verdade se trata de um texto escrito há 130 anos. “Ubu Rei”, texto de Alfred Jarry, com encenação assinada por Daniel Herz, em cartaz no Oi Casa Grande até o dia 30 de abril.

Apresentado pela primeira vez em 1896 e retirado de cena quase que imediatamente, dada a rejeição provocada por supostamente ter ultrapassado limites do decoro e da razoabilidade por deixar descair-se sobre o grotesco. O texto foi reescrito pelo autor e só atingiu a notoriedade após sua (precoce) morte, pelos níveis de absurdo e escárnio que atinge, “corrompendo” as estruturas dramatúrgicas então vigentes. “Ubu Rei” é modelado nas linhas conceituais de “Macbeth”, parodiando-lhe as ações impulsionadas na inspiração de sua mulher, deixando o protagonista tentar-se pela ambição ao trono. Durante uma parada militar mata, com seus conjurados, o soberano e seus filhos, mas o príncipe herdeiro e sua mãe se refugiam em uma caverna. Ubu se torna o cruel governante da Polônia, transformando-se num emblema das obras de Jarry, caricatural, ostentoso e egocêntrico. Longe de uma tragédia, situa-se como uma grande farsa e como tal, leva ao riso, um riso devastador e mesmo desrespeitoso. Essa é sua função! Ridicularizar o status quo com personagens absolutamente modernos e desprovidos de um maior psicologismo(como bem aponta Sábato Magaldi, uma herança ficcional do século XIX) que se movem pelo egoísmo, ganância, estupidez e covardia, remexendo na podridão interior do ser humano que chafurda na lama da ambição em sua  busca  infindável da autossatisfação.

A adaptação dramatúrgica de Leandro Soares, a exemplo do que havia feito com Oscar Wilde em “A Importância de Ser Perfeito”, mantém os pressupostos primordiais da obra de Jarry e ainda assim se permite revolvê-la, mas sem perder sua organicidade e os elementos de linguagem teatral do texto original, alcançando resultados práticos bastante positivos devidamente acrescidos pela inventiva concepção estabelecida por Daniel Herz.

Justamente essa concepção de Herz não se curva aos academicismos ou mesmo a uma marcação sintética proposta originalmente nas linhas básicas de Jarry, abrindo as portas para dispositivos originais que se dispersam com naturalidade pela sua proposição cênica, acompanhada de dinamismo e linearidade constante. A estética de Herz amplia a capacidade anárquica das ações do protagonista, com importante contribuição da direção de arte de Bia Junqueira, que flerta com a linguagem do teatro do absurdo com suas enormes tetas de vaca e outros elementos conceituais que nutrem a atmosfera de extravagância. Assim como os figurinos de Antonio Guedes acrescidos do visagismo de Diego Nardes complementam um quadro de cores vibrantes que rebentam o desenho cênico do diretor.

dsc6482A opção de Marco Nanini nos últimos anos em se unir com companhias de trabalhos bem solidificados tem rendido resultados bastante positivos. Assim ocorreu com a Cia Teatro Independente em “Beije Minha Lápide”, texto de Jô Bilac para direção de Bel Garcia e agora na comemoração dos seus 50 anos de carreira com a Cia Atores de Laura estabelece um canal de vitalidade para o ator. Sua atuação expõe de forma clara todo o aspecto psicótico que habita em Pai Ubu, flexionando um escárnio que amplia a tragicidade de seu personagem. Marco Nanini apresenta-se numa brilhante atuação, com plenitude nos atos e no ritmo com que dita suas ações e intenções. Rosi Campos realiza um potente jogo cênico com Nanini, mantendo-se num nível de atuação similar e revolvendo fertilmente a linha do humor, aliado a um interessante trabalho de composição físico que reverbera o lado grotesco não somente de seu personagem, como igualmente de Pau Ubu. Os protagonistas encontram respaldo num elenco de excelente nível e coesão em sua atuação, Ana Paula Secco, Leandro Castilho, Marcio Fonseca, Paulo Hamilton, Verônica Reis, Cadu Libonati, João Telles, Tiago Herz e Renato Krueger, dentre os quais podemos dar um destaque adicional para Ana Paula Secco, com pleno domínio das suas ações e explorando com absoluta competência a zona do humor e com ótimo trabalho corporal, Marcio Fonseca com uma atuação que se esquadrinha numa linha de ação muito bem conduzida, presença cênica e coadjuvando com maestria os impulsos genocidas de Pai Ubu, e Verônica Reis, atriz de fartos recursos técnicos e que dimensiona com precisão os pontos nefrálgicos de seus personagens.

A direção musical de Leandro Castilho alavanca uma vibração que dialoga com a dinâmica cênica, assim como a iluminação de Aurélio de Simoni acentua de forma acertada às intenções propostas pela narrativa de Leandro Soares e pela direção de Herz.

A ótima montagem de Daniel Herz para “Ubu Rei” chega à cena teatral carioca para de alguma forma nos expormos ao ridículo de tudo que andamos presenciando muito além da Polônia de Pai Ubu e dos tempos de Alfred Jarry.

MARCO NANINI em

UBU REI

De ALFRED JARRY. Direção: DANIEL HERZ

Atriz Convidada: ROSI CAMPOS

Com a CIA. ATORES DE LAURA (Ana Paula Secco, Leandro Castilho, Marcio Fonseca, Paulo Hamilton e Verônica Reis), Cadu Libonati, João Telles, Tiago Herz e Renato Krueger.

Produzido por FERNANDO LIBONATI

Adaptação: Leandro Soares
Cenografia: Bia Junqueira
Figurinos: Antônio Guedes
Iluminação: Aurélio de Simoni
Direção Musical: Leandro Castilho
Direção de Movimento: Marcia Rubin
Design Gráfico: Gringo Cardia

Realização: Pequena Central

 


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