Crítica: Um Amor de Vinil


 
Foto: Pedro Murad

Foto: Pedro Murad

Por Renato Mello

Numa crítica que escrevi dias atrás comentava sobre textos ruins que se ocultavam sobre a aura de uma suposta “despretensão”. Um autêntico produto merecedor de se utilizar desse substantivo é “Um Amor de Vinil”, espetáculo com capacidade de criar elos de comunicabilidade através de linhas narrativas singelas com canções que de algum modo fazem parte das reminiscências de nossas vidas.

Em cartaz na sala Fernanda Montenegro do Teatro Leblon, “Um Amor de Vinil” cumpre temporada até o dia 28 de maio, com dramaturgia assinada por Flavio Marinho, sob direção de André Paes Leme, a partir da idealização e produção de Eduardo Barata.

Conta a história de Amanda(Françoise Forton), personagem que se “entrincheira” em sua loja de discos de vinil em pleno apogeu da era do CD, lidando com falhas em suas memórias recentes, mas com uma lembrança prodigiosa com temas relacionados ao passado, que de alguma maneira explica sua afeição ao universo de uma música que lhe remete tempos mais longínquos. Um de seus mais entusiasmados clientes é Maurício(Mauricio Baduh), com quem reparte sua paixão pela música e desenvolve uma afinidade pelo vazio existencial de suas vidas, ela por estar envolta numa solidão refratária a qualquer envolvimento mais aprofundado, enquanto ele se ressente pela ausência de um preenchimento em sua alma por questões relacionadas ao seu casamento e na ausência de desafios profissionais.

Foto: Pedro Murad

Foto: Pedro Murad

Poucos autores tem a capacidade de Flavio Marinho em desenvolver uma história com simplicidade, sem jamais resvalar em rebuscamentos vazios, para alcançar uma eficácia narrativa. Simples, mas longe de ser simplista, existe em sua dramaturgia uma trilha coerente em busca do seu objetivo, que é a junção do entretenimento com a emoção. Algo que alcança “Um amor de Vinil”. Seu texto mantém-se equilibrado ao longo dos 80 minutos de apresentação, inserindo as mais diferentes matizes dentro da contextualização dramatúrgica, permitindo o convívio de canções emblemáticas de momentos ou movimentos com outras desprezadas por ouvidos “mais sensíveis”,  que se enlaçam em momentos de reconforto ao público com opções que saem da obviedade, amenizando a potência de uma música como “Evidências” em um momento de uma temperatura emotiva mais introspectiva, o diálogo de “Como Vai Você” com “Outra vez”, ou pelo viés com que se debruça com “Começar de Novo”.

A direção de André Paes Leme cria um ambiente coeso ao dispor das intenções, pontuando a narrativa em proveito de uma concepção que se deixa permear com a proposta de Flavio Marinho. Estabelece uma boa distribuição física das ações, transições sutis e modula a altura das interpretações dentro de padrões que se coadunam com as necessidades emocionais dos personagens conjuntamente com as canções. Algumas possibilidades poderiam ter sido um pouco mais esmiuçadas, como por exemplo na composição cênica de “Rua Ramalhete”, a bela canção de Tavito, que de algum modo simboliza várias questões abordadas na dramaturgia e com capacidade de estimular uma gradação(a meu ver desperdiçada) num maior envolvimento do público com a atmosfera do espetáculo.

Françoise Forton demonstra bom desenvolvimento corporal, capacidade expressiva e tempo acertado quando explora as zonas do humor, interpretando com correção as variantes emocionais contidas nas canções. Concordo inteiramente com a afirmação feita por Ida Vicenzia no seu texto crítico (AQUI) sobre Mauricio Baduh que “com seu timbre de voz que remete a Roberto Carlos”. Compartilho de sentimento idêntico. Baduh interage harmoniosamente com Forton, possibilitando uma credibilidade no que move(ou paralisa) ambos personagens, apesar da diferença etária entre ambos para partilharem nostalgias próximas, contextualizada na amarração do texto de Flavio Marinho.

A direção musical de Liliane Secco busca uma inflexão que se ajusta as gradações da narrativa, criando uma atmosfera conceitual sensibilizada no teclado de Gustavo Salgado e no violão de Marco Gérard(também com função de ator).

Repertório:

1) “É PAPO FIRME” – Renato Corrêa e Donaldson Gonçalves
2) “AR DE BOM MOÇO” – Niquinho e Othon Russo
3) “NEGRO GATO” – Getúlio Cortes
4) “NASCI PRA CHORAR” –Dio Dimucci- Versão Erasmo Carlos
5) “NÃO PRECISA CHORAR” – Edson Ribeiro
6) “RUA RAMALHETE” – Ney Azambuja e Tauito
7) “SÓ VOU GOSTAR DE QUEM GOSTA DE MIM” – Rossini Pinto
8) “REVELAÇÃO” – Clodô Ferreira e Clésio Ferreira
9) “COMEÇAR DE NOVO” – Ivan Lins e Vitor Martins
10) “CUSTE O QUE CUSTAR” – Edson Ribeiro e Hélio Justo
11) “É TEMPO DE AMAR” – José Ari e Pedro Camargo
12) “FALANDO SÉRIO” – Maurício Duboc e Carlos Colla
13) “VOCÊ PEDIU E EU JÁ VOU DAQUI” – Antônio Marcos
14) “EVIDÊNCIAS” – José Augusto e Paulo Sérgio Valle
15) “O TEMPO VAI APAGAR” – Getúlio Cortes e Paulo César Barros
16) “ESQUEÇA” – M. Anthony e Roberta Corte Leal
17) “COMO VAI VOCÊ” – Antônio  Marcos
18) “OUTRA VEZ” – Isolda
19) “MUITO ROMÂNTICO” – Caetano Veloso
20) “NÚVEM DE LÁGRIMAS” – Paulo Debétio e Paulinho Rezende
21) “PAULA E BEBETO” – Milton Nascimento e Caetano Veloso

Os cenários de Carlos Alberto Nunes buscam justamente revolver a memória afetiva desvendando capas ícones da história do vinil espalhadas por cubos e falsas colunas, que tem importante contribuição para inserir a narrativa dentro da ambientação proposta. Figurinos de Ticiana Passos ajustados para as necessidades e composição dos personagens. Iluminação de Paulo Denizot explora com eficiência as imposições dramatúrgicas.

Um Amor de Vinil” cumpre exatamente o que se propõe. Desencanado, verdadeiramente despretensioso e  sem jamais buscar maiores elucubrações. É legítimo e nenhum demérito há nisso. Enfim, qualquer maneira de amor vale o canto.

Foto: Pedro Murad

Foto: Pedro Murad

Serviço
Temporada: De 7 de abril a 28 de maio
Local: Teatro do Leblon- Sala Fernanda Montenegro
Endereço: Rua Conde de Bernadotte, 26- Leblon
Informações: (21) 2529-7700
Horário: Sexta e sábado às 21h e domingo às 18h.
Ingressos: Sex e dom R$70,00/ Sáb R$80,00
Classificação: 12 anos
Duração: 80 min

Ficha Técnica
Texto: Flávio Marinho
Direção: André Paes Leme
Direção musical: Liliane Secco
Elenco: Françoise Forton e Mauricio Baduh
Ator / músico: Marco Gérard
Músico: Gustavo Salgado (teclado)
Cenário: Carlos Alberto Nunes
Figurinos: Ticiana Passos
Iluminação: Paulo Denizot
Direção Coreográfica: Marina Salomon
Programação visual: Felipe Braga
Fotografia: Pedro Murad
Direção de produção: Elaine Moreira
Produção e assessoria de imprensa: Barata Comunicação


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

outubro 2017
D S T Q Q S S
« set    
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031