Crítica: Um Estranho no Ninho


 

 um estranho no ninho 1 - felipe diniz

Por Renato Mello.

Dois dos melhores espetáculos em cartaz atualmente no Brasil tem algo em comum: Dale Wasserman. Me refiro à “O Homem de la Mancha” em cartaz atualmente em São Paulo e sobre o qual já falamos AQUI e agora “Um Estranho no Ninho”, que acaba de estrear no Centro Cultural da Justiça Federal com direção de Bruce Gomlevsky. Ambos os espetáculos citados são justamente de autoria desse dramaturgo norte-americano, que simultaneamente tem seus textos encenados em montagens com alto grau de qualidade.

A montagem que acaba de estrear é a primeira de “Um Estranho no Ninho” em palcos brasileiros. A peça originalmente foi montada em 1963 na Broadway e protagonizada por Kirk Douglas e Gene Wilder. Em 1975 ganhou uma maior projeção e visibilidade graças ao grande sucesso de sua adaptação cinematográfica dirigida por Milos Forman, vencedora de 5 Oscars, na qual Jack Nicholson vivia o protagonista McMurphy.

Se esse texto ganha uma montagem em nossos palcos deve-se a perseverança de Tatsu Carvalho. O ator comprou os direitos e mesmo não tendo sido contemplado em nenhum edital, sem patrocínio e com algumas puxadas de tapete(como ele mesmo mencionou na estreia) seguiu em frente e colocou de pé a produção. Convidou Bruce Gomlevsky para dirigi-la, uma escolha que não poderia ser mais acertada, pois trata-se de um diretor que se caracteriza por saber como poucos trabalhar o limite de dramaturgias consistentes, criando espetáculos contundentes, fortes e arrebatadores, justamente o que pede a pujança da dramaturgia dessa peça.

O texto conta a história do condenado McMurphy(Tatsu Carvalho), que simula insanidade com a intenção de escapar dos trabalhos braçais que é submetido na cadeia. Como interno da instituição psiquiatra questiona e confronta permanentemente as rígidas regras a que os demais pacientes são submetidos pela enfermeira chefe(Helena Varvaki), mas esse desafio a autoridade estabelecida terá um preço alto.

A peça é um aterrador relato sobre a luta da humanização contra o abuso de poder exercido sobre aqueles que são considerados “diferentes” e à margem da sociedade, numa atmosfera em que o medo e a repressão são instaurados sem limites, numa tradução extremamente bem realizada por Ricardo Ventura, que consegue transpor para o roteiro final o esmagamento do ser humano diante da força do poder constituído. Não se trata necessariamente de uma história sobre loucos, mas do exercício do poder.

O elenco é composto por Charles Asevedo (Chefe Bromden), Felipe Martins (Dale Harding), Helena Varvaki (Enfermeira Ratched), Henrique Gottardo (Auxiliar Turkle), Hylka Maria (Candy Starr), Isaac Bardavid (Dr. Spivey), Junior Prata (Ruckley), Lorena Sá Ribeiro (Enfermeira Flinn), Marcelo Morato (Cheswick), Rafael Oliveira (Auxiliar Williams), Ricardo Lopes (Auxiliar Warren), Ricardo Ventura (Scanlon), Tatiana Muniz (Sandra), Tatsu Carvalho (R.P. McMurphy), Vitor Thiré (Billy Bibbit) e Zé Guilherme Guimarães (Martini).

Durante o processo de ensaio e concepção do espetáculo me chegou a informação de que Bruce teria proibido seu elenco de assistir ao filme. Compreensível decisão, pois é um trabalho que deixou marcas profundas pela sua qualidade enquanto obra cinematográfica e que conta com uma daquelas atuações memoráveis de Jack Nicholson. O quanto isso poderia influenciar ou mesmo se transformar num elemento intimidatório? Como criar um registro original com algo que deixou marcar tão fortes? Mas não acredito que tenha sido o caso de Tatsu, que como também me relataram, conhece o filme de trás para frente. Como se desvincular diante do público de uma atuação como a de Nicholson? O tamanho do desafio escolhido por Tatsu foi enorme e o que se viu em cena demonstra a sua capacidade de sair dessas armadilhas, num processo de criação muito pessoal, memorável e irrepreensível para o cínico e debochado McMurphy. Um personagem que inicia o espetáculo com um aspecto de superioridade diante de um ambiente composto por pobres almas penadas e que ao perceber sua impossibilidade de suplantar as limitações impostas depois de murros em ponta de faca, acaba por entrar num turbilhão de desespero ao perceber que não tem mais o controle da situação. A enfermeira Ratched é o principal elemento de confronto de McMurphy, numa belíssima atuação de Helena Varvaki, uma mulher sádica, controladora e que mantém o ambiente com punhos de ferro como se fosse uma juíza que concede e revoga os privilégios ao sabor de suas contrariedades, assim como procura destruir quem se opõem aos seus desígnios.

Um aspecto que impressiona, mas não surpreende, é a capacidade que Bruce Gomlevsky tem em lidar com um elenco numeroso tirando o máximo de cada um dos elementos, sem deixar em cena nenhum personagem ou ator à deriva. Mesmo que o personagem não tenha fala sua presença não é gratuita. Assim foi com seus trabalhos anteriores como “Festa em Família” e “O Funeral”. Mas ao contrário daquelas peças que trabalhavam com as feridas do dilaceramento interior e oculto da alma, aqui os sentimentos são mais expostos, eloquentes e vibrantes. Charles Asevedo é um destaque como o grande chefe em estado catatônico, que nos entreatos com a força de seu olhar despertava um grande enigma na plateia pelo que esperar dele naquele ambiente. Victor Thiré, como o virgem inocente Billy Bibbit, que pela sua fragilidade se torna uma das maiores vítimas do estado tirânico da enfermeira Ratched também é responsável por bons momentos. É até um pouco injusto realizar esses destaques individuais diante de um elenco completo e muito competente. Mas também não podemos deixar de citar esse grande ator que é Isaac Bardavid , cuja simples presença no centro da cena já despertava grande atenção e devoção por parte do público.

É preciso destacar os cenários concebidos por Pati Faedo, utilizando-se de divisões gradeadas e tubulares para a criação do ambiente principal, em que ocorre as principais ações, além de ambientações em plano superior que mesmo num palco que não seja das dimensões mais generosas, soube aproveitas cada espaço, sem deixar campos mortos. Extremamente bem composto e muito bem planejado para a ambientação da história contada. A iluminação bem desenhada por Elisa Tandeta expõe de maneira competente as cenas e o cenário. Mais um ótimo trabalho de Elisa. Os figurinos de Alessandra Padilha e Jerry Rodrigues dentro do contexto condizente com a peça e com correção.

Um Estranho no Ninho” é um espetáculo de altíssimo nível, que conta com um diretor que tem a perfeita noção de cada intenção e tendo como resultado final uma peça teatral arrebatadora. É visível ao final, mirando bem no olhar de cada um desses grandes atores em cena, que naquele palco existe um puro desejo de se realizar o melhor que essa arte pode proporcionar.

SERVIÇO:
Temporada: de 01 de março a 3 de maio de 2015
Horário: sextas, sábados e domingos, às 19h
Local: Centro Cultural Justiça Federal
Gênero: Drama
Duração: 130 minutos
Classificação: 14 anos

FICHA TÉCNICA:
Texto: Dale Wasserman
Tradução: Ricardo Ventura
Direção: Bruce Gomlevsky
Direção de produção: Rafael Fleury e Tatsu Carvalho
Cenário: Pati Faedo
Iluminação: Elisa Tandeta
Figurinos: Alessandra Padilha e Jerry Rodrigues
Visagismo: Uirande Holanda
Trilha original: Mauro Berman
Técnico de luz: Rafael Tonoli
Ass. de direção: Lorena Sá Ribeiro
rogramação visual: Ana Andreiolo
Fotografia: Felipe Diniz
Ass. de produção e camareira: Fernanda Moura
Assessoria de imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação
Coordenação de projeto: Midday Produções Artísticas e Culturais.


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