Crítica: Um Pai[Puzzle]


 

Um Pai (Puzzle)_Ana Beatriz Nogueira_Crédito Marcelo Correa_3 (1)

Por Renato Mello.

“-Eu te amo, você é meu pai, você sabe”, o sussurro de uma filha sobre o caixão do pai, convicta que pelo menos naquele momento ela estava sendo ouvida. “Um Pai[Puzzle]”, em cartaz no Teatro II do CCBB numa temporada que se estenderá até o dia 3 de maio, monólogo interpretado por Ana Beatriz Nogueira que explora as frustrações e o vazio da relação entre filha e pai, direção de Guilherme Leme Garcia e Vera Holtz a partir do livro escrito por Sibylle Lacan que revela as lacunas criadas a partir da eterna ausência de um pai onipresente na esfera sóciocientífica e completamente ausente na vida doméstica.

“Só queria ser aceita e amada por um pai genial que se esquivou dela a vida inteira, até mesmo no leito de morte”, como menciona o próprio programa da peça. Caçula do primeiro casamento de Jacques Lacan, Sibylle careceu desde o nascimento dessa ausência, pois quando nasceu o pai já não habitava o lar, criando outro núcleo familiar(em que nasceria Judith). Projeto gestado por 6 anos por Ana Beatriz Nogueira, o texto adaptado pelo cineasta Evaldo Mocazel trabalha com essa dor latente no interior de uma filha, dando vazão a um estranho sentimento de não pertencimento, do pai “roubado”, da ideia da insignificância perante alguém que tanto se ama e a distância de alguém tão admirado. A partir do tom confessional de Sibylle Lacan, que numa espécie de catarse constrói através de fragmentos dispersos, como o próprio título sugere, um painel da sua visão sobre seu pai numa multiplicidade de elementos aparentemente sem ordem, mas com um raciocínio lógico e com o distanciar do tempo, procurando reconstituir a dor através de uma ótica de inferioridade.

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O desenvolvimento da estrutura narrativa tem o desafio e a complexidade de fazer fluir o monólogo de maneira que não o tornasse maçante a enxurrada de mágoas da personagem, no que o trabalho de Evaldo Mocazel foi exitoso.

Ana Beatriz Nogueira consegue o ritmo correto para o texto, fazendo que um tema que poderia ser tortuoso e entediante dependendo da maneira como fosse tratado, desperte um aguçamento e interesse do espectador. A direção da dupla Guilherme Leme Garcia e Vera Holtz tem papel preponderante, sabendo conduzir Ana Beatriz, de maneira sutil, mas ao mesmo tempo sem perder a força dos sentimentos interiores da personagem, mantendo com consistência a gama de frustrações da rejeitada Sibylle. Um pequeno destaque para a última cena da peça, de extrema beleza e impacto visual, contextualmente dentro do desenvolvimento dramatúrgico e estético, sem se tornar um elemento meramente supérfluo.

A atmosfera criada utiliza de um tom escuro, num jogo de luzes contrastantes puxando para o branco, muito bem elaborado mas sem procurar um papel protagônico, assinada por Maneco Quinderé. A iluminação trabalha com a projeção das sombras da atriz sobre o fundo, num importante elemento para a formatação da atmosfera emocional, evidenciando uma fragmentação no fundo da alma daquela personagem.

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O cenário elaborado por Marcelo Lipiani, com uma ambientação toda escura, conforme já dito acima, está correto dentro do contexto de criação, assim como o tom do figurino da atriz, assinado por Marcelo Olinto.

Interessante e sensível trabalho de direção musical de Zélia Duncan, acrescentando beleza, sutileza e sensibilidade nos momentos em que era utilizada.

Um Pai[Puzzle]” é um espetáculo bem realizado, com uma intepretação competente, que de algum modo tocará uma significante parte da plateia por uma possível identificação com temas que se fazem presente na estrutura familiar de nossos tempos. Tenho reticências de que agradará todos os públicos de modo equânime. Quem não encontrar essa identificação poderá não conseguir embarcar na proposta de viagem ao fundo de uma alma plena de mágoas.

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Fotos de Cena: Marcelo Correa.

SERVIÇO
Temporada: 27/02 a 3/5/2015
Dia/Horário: Sextas, sábados e domingos às 19h30
Local: CCBB Rio
Endereço: Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – Rio de Janeiro (RJ)
Ingresso: R$10 (inteira) / R$5 (meia)
Classificação: não recomendado para menores de 14 anos

FICHA TÉCNICA
Texto: Sibylle Lacan
Adaptação: Evaldo Mocarzel
Direção: Vera Holtz, Guilherme Leme Garcia
Elenco: Ana Beatriz Nogueira

Tradução: Ângela Leite Lopes
Cenário: Marcelo Lipiani
Iluminação: Maneco Quinderé
Figurino: Marcelo Olinto
Direção Musical: Zélia Duncan
Fotos: Marcelo Correa
Produção Executiva: Regina Monteiro
Assessoria de Imprensa: Paula Catunda e Fernanda Lage
Direção de Produção: Silvia Rezende
Realização: Trocadilhos 1000(Ana Beatriz Nogueira)


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