Crítica: Um Sonho Para Méliès


 
Foto: Rodrigo Menezes

Foto: Rodrigo Menezes

Por Renato Mello.

Quando tomei conhecimento de “Um Sonho Para Méliès” através de Lyvia Rodrigues, assessora de imprensa do espetáculo, confesso que bateu de antemão um entusiasmo. Motivos eu tinha de sobra: 1) Tocou de cara minha formação cinematográfica e a lembrança de muitas horas de estudo da obra pioneira de Méliès. 2) A presença de Márcio Nascimento interpretando o papel-título, a quem considero como um dos maiores atores de teatro infantil desse país e que recentemente já nos elevou ao mundo dos sonhos com interpretações incríveis do Barão de Münchausen e do Gigante Egoísta de Oscar Wilde. 3) O alto nível de seu elenco, com a presença de Marco dos Anjos, um excelente diretor de teatro infantil que pela primeira vez eu veria atuando e Felipe Valle, integrante da Trupe do Experimento e que em tempos recentes interpretou brilhantemente o protagonista de “O Pequeno Autor”. 4) Uma ótima ficha técnica que incluía entre outros o talentosíssimo Daniel Carneiro na direção musical e a iluminação de Ana Luzia de Simoni, de quem venho acompanhando trabalhos de grande qualidade.

Expectativas são sempre perigosas, levam-nos quase que irremediavelmente para uma zona sombria de decepções. Porém ao deixar a sala o meu sentimento era de entusiasmo. Poucas coisas me deixam mais contentes que um espetáculo infantil que tenha a real capacidade de me alçar ao mundo dos sonhos. “Um Sonho Para Méliès” conseguiu.

Em cartaz no Oi Futuro de Ipanema, “Um Sonho Para Méliès” é um projeto idealizado e dirigido por Flávia Lopes e permanecerá em cartaz numa temporada que se estenderá até o dia 25 de setembro.

Em rápidas linhas e seguindo sua sinopse original, “em uma Paris imaginária do final do século XIX, Méliès sonha de dentro da sapataria de seu pai em viajar até a lua. Stela, estrela de seus sonhos e musa inspiradora, diz ao menino que ‘Um filme é sonhar de olhos abertos’. Mesmo desencorajado pelo pai, George Méliès segue seu coração e vira mágico ilusionista. Ao guardar seus sonhos de infância em uma caixinha cheia de estrelas, tem a ideia de transformar sonhos em realidade filmando ‘A Viagem à Lua’ – um marco nos efeitos visuais cinematográficos”.

A compreensão de que o universo de Méliès contenha todos os elementos para se construir uma atmosfera lúdica e propícia ao teatro infantil foi de grande felicidade por parte de Flávia Lopes. Georges Méliès foi um dos privilegiados espectadores que se encontravam naquele histórico 28 de dezembro de 1895 no Grand Café de Paris em que os irmãos Lumière assombraram o mundo com a primeira projeção de imagens em movimento de um prosaico trem chegando na estação. Ao contrário dos irmãos Lumière, que tinham uma visão científica e experimental da invenção, Méliès foi o primeiro a perceber a plataforma que tinha a sua disposição para exteriorizar sua inesgotável capacidade imaginativa., por isso é considerado o pai do cinema de ficção. Criou os primeiros efeitos especiais e foi um pioneiro igualmente no experimento das cores, pintando artesanalmente fotograma por fotograma. Dirigiu mais de 500 filmes, sendo “Viagem à Lua” considerado seu grande clássico, um precursor da ficção científica. Méliès terminou seus dias falido e pobre. Eram “tempos difíceis para os sonhadores”.

O processo colaborativo de Aline Macedo para a idealização de Flávia Lopes mescla consistentemente elementos ficcionais e reais para construir uma narrativa que ressalta um clima mágico, por vezes onírico e que abraça todo o processo de concepção cênica proposto pela diretora.

Para transpor para os palcos toda a ilimitada criatividade de Méliès, Flávia Lopes apoiou-se em diferentes técnicas para embasar sua narrativa, como a manipulação de boneco, a projeção e a arte da palhaçaria. Criou um espaço cênico que se assemelha com uma caixa, remetendo aos pequenos teatros-cabarés parisienses do início do século XX para dar vida ao Théatre Robert-Houdin, do qual Méliès era proprietário e realizava espetáculos de ilusionismo, lugar que anteriormente pertencera a Jean Eugène Robert-Houdin. É nesse espaço físico  que se dá todo o processo de criação cênica do espetáculo. A cenografia assinada por Tuca contribui decisivamente para a ambientação de magia que impregna a atmosfera, apoiada por um desenho de luz de Ana Luzia de Simoni que destaca as necessidades dramatúrgicas, pontuada com eficiência pela direção musical de Daniel Carneiro e Wagner Barreto, e pela boa utilização da sonoplastia nos preenchimentos dramatúrgicos.

A diretora cria com um desenho de cena utilizando gags e técnicas de cartoons, que conjuntamente com uma adorável coordenação de movimentos, explora o espaço físico e insere as projeções que costuram uma dinâmica que dão uma composição cênica impactante e que adensa a atmosfera necessária. Em relação as projeções, as imagens de filmes de Méliès integrando-se com o elenco dão um ganho na dimensão dramatúrgica e a colagem de filmes de “Tempos Modernos” de Chaplin, passando por “ET” e” Guerra nas Estrelas” despejam uma carga emocional pela ambientação.

É necessário destacar a excelente absorção da capacidade do elenco formado por Marcio Nascimento, Aline Macedo, Caio Passos, Carla Barros, Felipe Valle, Marco dos Anjos, Muriel Vieira, Nina Pamplona e Wagner Barreto, que responde com eficiência às exigências propostas pela diretora. No papel protagonista a presença de Márcio Nascimento é quase que garantia para o êxito da proposta. Trata-se de um ator de inesgotáveis recursos técnicos, que em cena faz tudo parecer muito simples. Márcio possui um domínio de palco absoluto e com um brilhante trabalho de composição, em que pode perceber o cuidado com cada detalhe, desde o visagismo de Mona Magalhães, a utilização de máscara sem que sua expressividade tenha sido minimamente afetada, a capacidade de comunicação e o trabalho corporal. Marco dos Anjos é outro destaque positivo, numa composição singular para o vilão Max, que remete a uma mistura de Groucho Marx com Dick Vigarista, mas sua movimentação, o andar e a maneira como utilizava sua capa me lembrava demais a Tião Gavião, o grande vilão de “Os Apuros de Penélope”. Adorável presença de Marco dos Anjos!  Caio Passos demonstra boa presença, humor, expressão corporal, empatia e utilização da técnica da palhaçaria. Felipe Valle explora sua grande capacidade cômica, boa movimentação e realiza bom trabalho de composição, sabendo dosar sua carga de humor pela correta modulação vocal. Muriel Vieira divide-se entre Stela e Cassandra, com graça e empatia. Aline Macedo faz um interessante trabalho com uma maior interiorização, expressiva e boa técnica corporal. Carla Barros e Nina Pamplona, como Josephine Sanzussô e Amélie Soleil, respectivamente, realizam um trabalho de apoio mútuo, atuando de forma harmônica, completando um elenco que demonstrou em sua totalidade um ótimo nível técnico. Importante destacar o trabalho do visagismo realizado por Mona Magalhães, atuando com grande êxito junto ao  elenco.

Ótimo trabalho de criação por parte dos figurinos de Bruno Perlatto. Apropriados tanto dentro do período, quanto do ambiente da narrativa, com importante contribuição para o processo de composição do espetáculo.

Um Sonho Para Méliès” é na minha opinião, um dos mais belos espetáculos infantis do ano até esse momento. Tem a capacidade de elevar-nos para a fantasia por um percurso repleto de beleza e poesia.

“UM SONHO PARA MÉLIÈS”
SERVIÇO
Temporada: 06 de agosto a 25 de setembro de 2016
** não haverá apresentação nos dias 10 e 11 de setembro.
Local: Oi Futuro Ipanema
Dia|hora: Sábado e Domingo, às 16h
Endereço: Rua Visconde de Pirajá, 54 – Ipanema
Valor: R$20 (inteira)\R$10 (meia).
Classificação: Livre
Telefone: 3131-9333
Duração: 80 minutos
Bilheteria: Terça a sexta e feriados, das 15h às 21h, e aos sábados e domingos, das 14h às 21h.
Capacidade: 90 lugares

FICHA TÉCNICA
Idealização e Direção: Flávia Lopes
Elenco: Márcio Nascimento como George Méliès
Aline Macedo (Toto), Caio Passos (Sasha), Carla Barros (Josephine Molière), Felipe Valle (Jaques Lecoq), Marco dos Anjos (Max Vigarista), Muriel Vieira (Stela e Cigana Cassandra) e Nina Pamplona (Amelie Soleil)

Dramaturgia: Aline Macedo em processo colaborativo
Direção Musical: Daniel Carneiro e Wagner Barreto
Figurino: Bruno Perlatto
Assistente de figurino: Pamela kopp
Cenografia: Tuca
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Visagismo e caracterização: Mona Magalhães
Assistente de maquiagem: Lucas Drigues
Preparação Vocal: Verônica Machado
Oficina de palhaçaria: Cris Munõz, Flávia Lopes e Matheus Lima
Máscaras: Atelier Gravulo (Flávia Lopes e Marise Nogueira)
Boneco: Atelier Gravulo (Flávia Lopes e Marise Nogueira sob supervisão de Maria Adélia)
Assistente de confecção de máscaras: Juliana Mangorra.
Vídeos e programação visual: Guilherme Fernandes
Assessoria de imprensa: Aquela que Divulga
Direção de produção: Pagu Produções Culturais
Coordenação de produção: Bárbara Galvão, Carolina Bellardi, Fernanda Pascoal
Produção executiva: Mariana Gomes e Milena Monteiro
Assistente de produção: Juliana Soares
Operador de Luz: Kadu Moura


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