Crítica: Uma Carta Perdida


 

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Por Renato Mello.

4-estrelas12Uma pequena preciosidade se encontra em cartaz neste momento no minúsculo, porém simpaticíssimo e aconchegante Teatro Café Pequeno, no Leblon. Trata-se de “Uma Carta Perdida”, uma deliciosa comédia de costumes com tons políticos do autor romeno Ion Luca Caragiale, dirigida por Daniel Belmonte.

Uma Carta Perdida” é uma peça inédita no Brasil e foi montada pelo esforço pessoal de ex-alunos do Tablado, que utilizaram-se do expediente do financiamento coletivo para levantar a verba necessária e colocar de pé o espetáculo. Os atores tomaram conhecimento do texto através do acervo de livros doados aos alunos do Tablado após a morte do professor de teatro Bernardo Jablonski.  Com muita dedicação, montado na raça, o espetáculo reflete em cena toda a paixão que nele foi depositada, resultando num ótimo trabalho e repleto de acertos.

Num momento em que a campanha eleitoral brasileira se torna acirrada e com reflexos detestáveis inclusive nas redes sociais, nada mais oportuno assistirmos um texto que satiriza o circo dos bastidores da política com suas regras e convenções peculiares, para vermos o quão ridículo pode ser esse universo. Embora a peça tenha sido escrita em 1884 e se ambientar na Romênia dessa época, encanta por sua atemporalidade, pois é possível se identificar de imediato com o teatro que assistimos diariamente nos bastidores de qualquer prefeitura ou assembleia por esse Brasil afora. O texto de Caragiale(adaptado por Daniel Belmonte e Adriano Martins) alcança com maestria a síntese e a crítica abrangente aos costumes políticos e familiares. Situou sua trama na eleição da câmara romena de 1883, que tinha como finalidade emendar a Constituição e a Lei Eleitoral, numa luta pelo poder em que as partes antagônicas usavam todo e qualquer tipo de arsenal à disposição para manter a “ordem pública”. Todo esse jogo ocorre em 4 atos a partir de uma carta de amor extraviada, tomando proporções desastrosas para a reputação de figuras importantes daquela sociedade.

O trabalho de encenação de Daniel Belmonte merece ser destacado. Além da ótima direção de atores e da construção de belas cenas, agradou-me em especial o ritmo impresso à montagem e a maneira como tirou proveito de todos os cantos do Teatro Café Pequeno, criando uma movimentação para o elenco que deixava o público em permanente atenção. Utilizou de maneira interessante em determinados momentos o recurso dos atores se misturarem em meio à plateia, fazendo o espectador se sentir como um membro da Assembleia Legislativa e das suas discussões.

O elenco de “Uma Carta Perdida” é formado por: Adriano Martins(Prefeito Tipanesco), Pedro Tomé(Policial Pristanda), Bruna Brignol(Nadja Trahanake), André Pellegrino(Zoe Trahanake),  João Sant’Anna(Farfuridi), Daniel Zumbrinsky(Branzovenesco), Rodrigo Arruda(cidadão embriagado), André Dale(Nae Catzavenco) e Alexandre Duvivier(Agamitza Dandanake). Adriano Martins é sem dúvida o que mais chama a atenção como o Prefeito Tipanesco, numa atuação que leva o público às gargalhadas com o seu tipo burlesco e patético. Adriano em cena é garantia de belas risadas permanentemente. Num registro diferente, André Dale também se destaca como Nae Catzavenco, o advogado e jornalista de grande habilidade demagógica, criativo, mestre da arrogância e das intrigas, não medindo esforços para chantagear e falsificar sob a pele de um idealista honesto. André Pellegrino tem uma composição muito bem conduzida, inclinando-se entre uma fragilidade do medo que paralisa e a necessidade de achar forças para encontrar uma saída sensata para o furacão que o ameaça.  Mesmo os papeis não protagônicos apresentam boas atuações, fundamentais para que o trio de atores citados(Martins, Dale e Pellegrino) consigam render de maneira tão satisfatória. É o caso de Pedro Tomé, Bruna Brignol, João Sant’Anna, Daniel Zumbrinsky, Rodrigo Arruda e Alexandre Duvivier que juntos formam um elenco coeso e cada um deles com bastante personalidade em cena em seu momento de brilho individual.

O figurino de Anouk van der Zee, Raquel Dimantas e Marianna Pastori é um belo achado, que ajudam não só na distinção da personalidade de cada personagem, como são responsáveis, nos pequenos detalhes, por realçar algumas características de composição e ainda consegue brincar ironicamente com os contrastes, como os tipos vividos por João Sant’Anna e Daniel Zumbrinsky. Outro acerto, que não pode ser omitido é a minuciosa pesquisa musical feita por Rodrigo Miravalles.

Uma Carta Perdida” é um caso de que o sincero amor ao teatro pode perfeitamente andar junto com a qualidade e sem ser usado como desculpas por eventuais falhas. Trouxe um grande autor desconhecido dos palcos brasileiros, numa bela montagem conduzida com competência.

Por fim, deixo registrado minha solidariedade com o personagem de Rodrigo Arruda e para as próximas semanas faço meu, o seu questionamento: – Em quem eu voto?

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Uma Carta Perdida
Texto de Ion Luca Caragiale  adaptado por Daniel Belmonte e Adriano Martins
Direção: Daniel Belmonte
Teatro Café Pequeno-Av Ataulfo de Paiva, 269
Sextas, Sábados e Domingos- 20h30
Temporada- De 5/10 a 26/10
Duração:1h10
Preço: Inteira 30,00/Meia 15,00
Classificação:12 anos

FICHA TÉCNICA
Texto: Ion Luca Caragiale
Adaptação: Adriano Martins e Daniel Belmonte
Direção: Daniel Belmonte
Elenco: Adriano Martins, Alexandre Duvivier, André Dale, André Pellegrino, Daniel Zubrinsky, João Sant’Anna, Bruna Brignol, Felipe Couto e Rodrigo Arruda.
Iluminação: Felipe Lourenço
Figurino: Anouk van der Zee, Raquel Dimantas e Marianna Pastori
Pesquisa musical: Rodrigo Miravalles
Cenografia: Julia Marina
Visagismo: Marianna Pastori
Diretor de arte: Colmar Diniz
Produção: Marina Henriques e Ivan LP
Ass. de produção: Isadora Krummenauer
Design gráfico: Victoria Scholte
Apoio Audiovisual: HM Multimídia
Assessoria de Imprensa: Leila Meirelles


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