Crítica: Uma Flor de Dama


 
Foto: Rodolfo Araújo

Foto: Rodolfo Araújo

Por Renato Mello

Em cartaz para temporada até o dia 19 de fevereiro no Teatro Poeira, “Uma Flor de Dama” apresenta uma amplitude na investigação realizada por Silvero Pereira, após a repercussão alcançada por seu espetáculo anterior “BR-Trans”.

Dama da Noite”, uma flor que exala exuberante e peculiar perfume durante a noite, título igualmente do conto de Caio Fernando Abreu sobre o qual Silvero Pereira desenvolveu sua dramaturgia. O texto de Silvero Pereira demonstra capacidade de abordar com profundidade suas questões, expondo as dores acumuladas desde o lar paterno para ressignificar estereótipos ainda vigentes sobre a complexidade que habita cada ser humano e suas vivências dentro do universo da travestilidade e transexualidade.  O resultado final desse trabalho é um espetáculo bem-sucedido artisticamente.

Na solidão do camarim se dá o ponto de partida na montagem de sua estruturação, tanto dramatúrgica quanto interpretativa. A ilusão fugaz de ser por instantes o centro do mundo na exuberância da dublagem de “I’ve Never Been To Me”, para em seguida numa mesa de bar desfiar o novelo de suas dores, buscando o eco da sua interlocução em contrapartida com julgamentos permanentes.

Silvero Pereira  expande sua interpretação na utilização de recursos mais além do mero discurso, algo que seria previsível em se tratando de um monólogo. O personagem lança suas primeiras palavras apenas após 20 minutos de representação, porém o seu trabalho corporal e expressivo possibilita desde as primeiras cenas um claro entendimento do quadro que se desenha e do personagem retratado, sem que ocorra nesses momentos qualquer tipo de oscilação narrativa, pelo contrário, a representação seduz desde os primeiros movimentos. Domina plenamente todas as ações, explorando as nuances que propõe sua dramaturgia para aprofundar de maneira sensível e comovente, mas sem jamais perder o humor e o sarcasmo, as intenções com que se move o personagem.

 Percebe-se na sua concepção cenográfica 3 divisões muito bem delineadas, que podemos nomenclaturar informalmente como cenas profissional, social e privada. De início o personagem no seu camarim já nos informa aspectos de sua atividade, numa representação que nos remete de alguma forma aquela canção homônima de Chico Buarque. Uma mesa de bar, um copo e uma garrafa de cerveja delimita o campo social e é ali que todas suas angústias, o estabelecimento da cumplicidade do público se desenvolve e onde ocorre a dilatação da potência dramática. Diante de uma privada de banheiro podemos testemunhar o desmonte e desfiguração do ser perante a crueldade do mundo que espreita do lado de fora.

O desenho de luz extremamente bem cuidado de Renato Machado e Silvero Pereira dialoga permanentemente com o desenvolvimento narrativo. A luz bem marcada revela os detalhes que a construção cênica propõe, ampliando o espectro humano que sombreia o personagem.

Mais além de ser uma espetáculo necessário no espiral de violência em todos os níveis que domina a sociedade brasileira, “Uma Flor de Dama” dá o pontapé inicial na temporada carioca de 2017 de maneira positiva, na apresentação de um trabalho de qualidade e personalidade.

Uma Flor de Dama
Teatro Poeira
05 de janeiro a 19 de fevereiro
Quinta a sábado 21 h e domingo 19h

Dramaturgia, direção e atuação: Silvero Pereira
Desenho de luz: Renato Machado e Silvero Pereira
Administração e Produção:  Quintal Produções Artísticas


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