Crítica: Vamp, o Musical


 
Fotos: Felipe Panfili

Foto: Felipe Panfili

Por Renato Mello

Não levá-lo a sério, eis a principal premissa de “Vamp”.

Vamp”, propriamente, não se leva a sério! Não faço tal afirmação com um viés negativista, mas avalizando toda uma proposta teatral na sua essência e isso é justamente sua principal virtude. É divertida, mas acima de tudo passa a sensação de que o próprio elenco se diverte em cena. Recebi inúmeros relatos que datam de sua estreia sobre erros técnicos e descompassos, mas ao assisti-lo somente após ter se passado 1 mês de sua apresentação inaugural, a sensação é que correções foram feitas e com a recorrência, sua máquina de produção foi melhor azeitada.

Em cartaz até o dia 7 de maio no Teatro Riachuelo, trata-se de uma linha de frente que se abre no mercado de musicais brasileiros, assim como já acontece com a montagem em São Paulo de “Roque Santeiro”, “Vamp” é uma franquia da novela homônima exibida nos anos 90 na TV Globo, escrita por Antônio Calmon, que igualmente é o responsável pelo tratamento dramatúrgico desta adaptação aos palcos teatrais, concebido cenicamente por Jorge Fernando e dirigido por Diego Morais.

Segundo já aponta sua própria sinopse oficial, conta “a história de Natasha(Claudia Ohana), uma cantora que vende a alma para o Conde Vlad(Ney Latorraca), em troca do sucesso na carreira. Ele, apaixonado por sua presa, fará de tudo para conquista-la, mas, com o passar do tempo, Natasha, arrependida, só tentará se livrar dele e da maldição de ser vampira para sempre. Para isso, parte em busca do Medalhão do Poder, escondido na cidadezinha litorânea de Armação dos Anjos, onde encontra a família do Capitão Jonas(Luciano Andrey). Natasha vai até lá, com a desculpa de gravar o clipe de uma música, causando comoção na comunidade local. Vlad descobre seu plano e, para se vingar, transforma o paraíso em uma cidade tomada por vampiros”.

Foto: Felipe Panfili

Foto: Felipe Panfili

O grande dilema que esse gênero de empreitada apresenta reside em como sintetizar coerentemente 150 capítulos em um espetáculo teatral de cerca de 2 horas, o que justamente foi um dos grandes entraves expostos, resultando numa ausência de melhor delineamento da função e na composição de alguns personagens, que ficaram deslocados na trama, caso mais específico do Capitão Jonas, Carmem Maura, Mattoso e Mary Mattoso. Assim como as motivações desses personagens diluíram-se no roteiro de Antônio Calmon. O resultado final da dramaturgia acabou impedindo “Vamp” de alçar voos dramatúrgicos mais ambiciosos equivalentes ao tamanho da sua produção, independentemente que ali resida algo de despretensão.

Um dos aspectos a serem ressaltados é a maneira inteligente com que Diego Morais encontra boas soluções cênicas, compondo quadros criativos e potentes que exploram com habilidade todo o imenso espaço físico que tem a sua disposição, ampliando a área esquadrinhada por seu desenho, alcançando uma aproximação e mesmo comunicação mais acentuada da narrativa, que agrega capacidade na organicidade do projeto.

Vamp” é um espetáculo feito a medida para Ney Latorraca tomar conta as ações, nesse aspecto, tanto o texto de Calmon, quanto a direção de Diego Morais foram bastante hábeis em abrir caminhos para o “show particular” de Latorraca. Mais do que ser simplesmente o protagonista, podemos dizer que Latorraca coloca o público no bolso com seu enorme carisma e grandiloquência. Brinca, improvisa, debocha de si e dos outros, faz mise-en-scènes particulares, impossibilitando tirar do alcance do público todas as atenções de seus movimentos quando surge em cena. Ney Latorraca não se preocupa em cantar ou com composições, é apenas um personagem de si mesmo, encantando a todos com sua presença enigmática e personalista.

Claudia Ohana, embora notadamente não seja possuidora de timbres e capacidade vocais privilegiadas, impõem-se em cena com seu carisma e com uma composição bastante coerente, que impulsiona credibilidade para suas ações.

Foto: Felipe Panfili

Foto: Felipe Panfili

Pedro Henrique Lopes é um dos principais destaques do espetáculo, interpretando Gerald. Lopes, um ator de enorme capacidade, técnica vocal apurada utilizada nas modulações necessárias às funções de seu personagem, vigoroso nas zonas do humor ao compor cenas divertidíssimas com Latorraca, além de adequação no trabalho corporal. Ótima atuação de Pedro Henrique Lopes!

Evelyn Castro é uma atriz que já carrega em seu histórico uma invejável desenvoltura dentro do humor. Novamente a atriz exibe um arsenal de recursos técnicos que realça as características de Miss Penn Taylor, atingindo com sobras seus objetivos, além de extrema técnica vocal.

Claudia Netto, irreconhecível fisicamente sob o visagismo de Martin Macias, mas impondo ao espetáculo toda uma zona de segurança ao seu entorno pela sua vasta capacidade como atriz e cantora, levando à cena alguns dos momentos mais engraçados através da expansão de sua proposição sobre o Madrácula, a mãe aportuguesada do Conde Vlad.

Adorável atuação conjunta de Osvaldo Mil e Lívia Dabarian, com um ótimo jogo cênico dos atores, responsáveis por alegres momentos, independente das nítidas, deficiências do processo de composição dramatúrgico para seus personagens dentro do contexto da narrativa, superadas por obra e graça de suas interpretações, e sobretudo por parte de Livia Dabarian, com enorme potência vocal. A concepção no roteiro dos seus personagens ficou nitidamente aquém da capacidade de ambos atores.

Os mais prejudicados pelos problemas narrativos foram Érika Ribas(Carmen Maura) e Luciano Andrey(Capitão Jonas), com personagens que deveriam ser preponderantes, mas mesmo que o autor não lhes tenha retirado o peso, acabaram deslocados dentro da contextualização cênica planejada.

O elenco se complementa com corretas atuações de Xande Valois, Thadeu Matos, Gabriella Di Grecco, Oscar Fabião, Mariana Cardoso, Duda Santa Cruz, Daniel Brasil, Rafa Mezadri, Talita Real, Mariana Gallindo, Lana Rodhes, Laura Ávila, Carol Costa, Carol Botelho, Jessica Gardolin, Renan Mattos, Lucas Nunes, Matheus Paiva, Leonardo Senna, Franco Kuster, Murilo Armacollo, Gustavo Della Serra, Marina Mota, Gabriel Querino, Andressa Tristão e Leonardo Rocha

A direção musical de Tony Lucchesi não logra graduar a intensidade musical, o que seria preponderante para diluir sob seu escudo as falhas narrativas, com um resultado final que demonstrou alguma tibieza, muito em razão de canções inéditas especialmente compostas para o espetáculo,  que não cativam, conseguindo alavancar com mais preponderância quando da utilização das canções mais conhecidas como “Doce Vampiro”, “Gita”, “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”, “Alô, Alô. Brasil”, “Noite Escura” e principalmente com “Thriller” sob uma banda que demonstra competência, composta por Guilherme Borges(pianista regente), Victor Pires(teclado),  Léo Bandeira(bateria), Pedro Aune(contrabaixo), Márcio Carvalho(guitarra), Thais Ferreira(violoncelo) e Vítor de Medeiros(clarone, clarinete, flauta, flautim e saxofone).

O trabalho coreográfico de Alonso Barros tem a inteligência de explorar com sensibilidade a capacidade heterogênea do elenco, principalmente como deixa Latorraca livre para “brincar”, ficando de maneira muito nítida a ótima composição em sua recriação de “Thriller”.

Destacável a cenografia José Claudio Ferreira, que une a grandiosidade do tamanho do espetáculo com a funcionalidade nas diversas trocas de cenário, utilizando-se raríssimas vezes da exposição da contrarregragem, algo que infelizmente vem acontecendo mais que necessário em outros espetáculos

Ótimo desenho de figurinos a cargo de Lessa de Lacerda, contextualizando diversas situações que o roteiro apresenta, sempre com desenhos de qualidade e contribuindo para a veracidade e personalidade dos vários personagens.

Iluminação de Maneco Quinderé adequando de maneira acertada as muitas proposições e ambientações da narrativa de Calmon.

Vamp” é um musical grandioso em seu tamanho, mas que tem objetivos dramatúrgicos mais modestos. Seu objetivo primordial é divertir, o que cumpre.

Foto: Ana Branco

Foto: Ana Branco

FICHA TÉCNICA
Texto – Antonio Calmon
Direção – Jorge Fernando
Diretor Assistente – Diego Morais
Coreografia – Alonso Barros
Direção Musical, Arranjos e Preparação Vocal – Tony Lucchesi
Cenografia – José Claudio Ferreira
Figurino – Lessa de Lacerda
Visagismo – Martin Macias
Desenho de Luz – Maneco Quinderé
Desenho de Som – Carlos Esteves
Produção de Elenco – Marcela Altberg
Assistente de Direção – Pedro Rothe
Assistente de Coreografia – Alan Resende
Orquestração e Assistente de Direção Musical – Alexandre Queiroz
Assistente de Cenário – Daniele Fontes
Figurinista Assistente – Teresa Abreu

SERVIÇO
Local: Teatro Riachuelo Rio (Rua do Passeio, 38/40 – Cinelândia)
Temporada: 17 de Março a 04 de Junho de 2017 (de quinta-feira a domingo)
Horários: Quinta e sexta às 20h30, sábado às 16h30 e 20h30, domingo às 18h
Cadastro para pré-vendas: Sites www.teatroriachuelorio.com.br e www.vampomusical.com.br

Preços:
5ªs e 6ªs: R$130 – Plateia VIP; R$100 – Plateia e Balcão Nobre; R$50 – Balcão
Sábados às 16h30 domingos: R$150 – Plateia VIP; R$120 – Plateia e Balcão Nobre; R$50 – Balcão
Sábados às 20h30: R$180 – Plateia VIP; R$120 – Plateia e Balcão Nobre; R$50 – Balcão

*Preços promocionais de pré-vendas:
5ªs e 6ªs: R$90 – Plateia VIP; R$70 – Plateia e Balcão Nobre; R$30 – Balcão
Sábados às 16h30 domingos: R$120 – Plateia VIP; R$40 – Plateia e Balcão Nobre; R$40 – Balcão
Sábados às 20h30: R$150 – Plateia VIP; R$90 – Plateia e Balcão Nobre; R$50 – Balcão

Capacidade: 1.000 pessoas
Duração: 2 horas (com intervalo de 15 minutos)
Classificação etária: Livre
Mais informações: www.teatroriachuelorio.com.br e www.vampomusical.com.br


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