Crítica: Vila Maria


 

vila maria

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* Fotos de Cena: Ana Lúcia Araújo.

4-estrelas12Estreou nesta semana no Teatro Gonzaguinha, localizado dentro do complexo cultural do Centro Calouste Gulbenkian, na Praça XI o espetáculo “Vila Maria”, uma deliciosa comédia de costumes escrita e dirigida por Marco dos Anjos.

Marco dos Anjos, responsável por alguns dos mais interessantes espetáculos infantis apresentados na cidade nesses últimos anos, investe agora no teatro adulto, centrando sua história no sertão nordestino, aonde seus personagens gravitam em torno de um sociedade arcaica e presa a valores conservadores, criando para esse ambiente situações divertidas e diálogos afiadíssimos, fazendo o público rir de uma sociedade altamente patriarcal, em que a figura emblemática do pai, mesmo que morto, sela o destino das mulheres da família, doa a quem doer.

Vila Maria 7 (foto Ana Lúcia Araújo)

Para fugir dessa sina é que são criados os ingredientes e a armações de “Vila Maria”. Após a perda do patriarca, a única esperança da família Santíssima sair da miséria é que a filha caçula, Maria José(Débora Ozório) se case com o herdeiro família De Tal, Fulano(Johnny Ferro), devido a promessa feita pelo finado coronel em seu leito de morte. Apaixonado pela  já prometida Maria José, José Maria(Felipe Valle) decide impedir esse casamento a qualquer custo, contando com o auxílio da irmã do meio da família Santíssima, Maria do Meio(Paula Barbosa), além de Pedrobó(Samuel Paes de Luna) e Ana Maria(Cristiane Maquiné). A partir daí inúmeras situações se apresentam em  meio às maquinações de José Maria para conseguir se casar com sua amada Maria José.

Marco dos Anjos satiriza e brinca o início ao fim com esses valores atávicos e com o enraizamento de normas ancestrais e reacionárias, mostrando o ridículo das sociedades presas ao tempo passado, utilizando-se da criação de personagens muito bem delienados, de uma trama originalíssima e alegre.

São ao todo 11 atores em cena, que a ágil direção de Marco dos Anjos cria uma dinâmica extremamente interessante em cena, aonde obriga o espectador a ficar atento não só ao que ocorre no primeiro plano, mas também à periferia da encenação, com situações interessantes ocorrendo em todos os cantos do palco. O risco de elencos grandes em cena é a presença de personagens desnecessários e que acabam por fazer “espetáculos diferentes” numa mesma peça, fato que não ocorreu em “Vila Maria”, aonde Marco soube conduzir seu elenco a uma atuação igualitária, em que cada personagem tem sua função e importância em cena. Apesar da boa atuação do elenco como um todo, podemos pinçar alguns destaques individuais, como Felipe Valle, num papel central na trama, com grande dinamismo em cena e Samuel Paes de Luna, como Pedrobó, personagem divertidíssimo. Outro membro do elenco a ser destacado mesmo sem ter um papel protagônico na trama é Cristiane Maquiné, como Ana Maria. De Cristiane passamos sempre a esperar alguma tirada, arrancando boas gargalhadas com o personagem que além de bastante engraçado, nos divertia com a volúpia existente dentro de si. Excelente atriz Cristiane Maquiné.

Felipe Valle, Cristiane Maquiné, Samuel Paes de Luna e Paula Barbosa

Marca autoral tanto dos trabalhos de Marco, como da Trupe do Experimento, os atores são os responsáveis também pela trilha sonora do espetáculo, utilizando-se de elementos típicos do nordeste brasileiro, tendo como som guia o violão Felippe Mesquita, através do qual todo o elenco toca e canta com bastante alegria, numa trilha sonora dirigida por Daniel Carneiro, através de músicas criadas pelo próprio Marco dos Anjos.

Outro aspecto a ser destacado é a cenografia de Eric Fuly, que soube explorar com eficiência uma das facetas mais impressionantes da religiosidade do sertão nordestino, o apego à imagem, assim como a proliferação de retratos de família e a figura de Padre Cícero em posição central. O belo cenário de Eric Fuly tem papel importante para o êxito da proposta do diretor. É preciso ressaltar também os belos figurinos de Paulo Kandura.

É nesse universo da “Vila Maria” de Maria José, do Meio, das Dores, da Guia, Santíssima, Ana, todas essas Marias que tais como “senhoras soberanas”, de onde origina a etimologia de seus nomes, tomam às rédeas de um espetáculo encantador.

Serviço: Vila Maria – uma comédia arretada.

Teatro Gonzaguinha. Rua Benedito Hipólito, 125 – Praça XI. Centro.
Sex e sab. às 20h e dom às 19h. R$ 40.
Temporada: de 6 a 29 de junho. Livre.

 Vila Maria 4 (foto Ana Lúcia Araújo)FICHA TÉCNICA:
Texto e direção: Marco dos Anjos.
Elenco:Bayron Alencar, Cristiane Maquiné, Débora Ozório, Felipe Valle, Johnny Ferro, Muriel Vieira, Nina Pamplona, Paula Barbosa, Priscila Galvão, Roberta Portela e Samuel Paes de Luna.
Músico: Fellipe Mesquita
Figurino: Paulo Kandura
Cenografia: Eric Fuly
Assistentes de Cenografia: Gabriela Medeiros e Cris Ferreira
Preparação Corporal: Fabrício Ligiero
Direção Musical: Daniel Carneiro
Músicas: Marco dos Anjos
Iluminação: Elton Pinheiro e Marcelo Mármora
Desinger gráfico: Bayron Alencar
Direção de Produção: Marco dos Anjos
Assistente de Produção: Felipe Valle e Maria Penna Firme
Realização: TRUPE PRODUÇÕES ARTÍSTICAS

Vila Maria 2 (foto Ana Lúcia Araújo)


Palpites para este texto:

  1. Concordo com todos os itens da crítica. Só acho que ficou faltando falar da perfeita atuação de Roberta Portela, que reúne um grande talento, tornando a peça profunda e ao mesmo tempo engraçada. Parabéns a todos em especial a Roberta, grande atriz.

    • Olá Luciana. Obrigado pela participação. Sim, Roberta Portela tem também uma atuação importante. Concordo com sua observação, “profunda e ao mesmo tempo engraçada”, um personagem que após a morte do patriarca é responsável pelos destinos da família, carregando consigo os valores de uma sociedade aonde os homens ditam as regras de vida dos filhos. Roberta consegue mesclar a intensidade que o seu personagem necessita com o humor proposto no texto do Marco.

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