Crítica: Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?


 
Foto: Carol Beiriz

Foto: Carol Beiriz

Por Renato Mello

Seguramente um dos melhores espetáculos que se apresentaram no Rio durante o 1º semestre da atual temporada, “Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?” permanecerá até 29 de julho no Teatro das Artes, Shopping da Gávea”, para retratar com sensibilidade e humor o cotidiano de um relacionamento marcado pela diferença de idade.

O texto de Yuri Ribeiro(com argumento co-assinado por Claudia Wildberger) a partir das suas próprias experiências pessoais funciona como um motor que permite vasculhar os vários escaninhos sentimentais que gestam uma relação de amor. Por mais sublime e puro que seja essa afetividade, há uma consciência desde as primeiras linhas do quão tortuosa será a trilha seguida, mas a opção é vive-la plenamente e deixar-se perder pelos seus desvãos, de forma a não encontrarem a finitude do tempo futuro. Conta a história de Andrea(Paula Burlamaqui), que inicia uma relação com Daniel(o próprio autor Yuri Ribeiro), ele bem mais novo do que ela. Ambos viverão situações cotidianas provocadas pela diferença etária, responsável maior pelos conflitos narrativos, principalmente com o filho de Andrea, Caio(Vitor Thiré). O tempo aqui funciona como um “personagem abstrato” que de formas diferentes invade a história e traz algumas reflexões no sentido tanto da sua separação em espaços distintos, quanto uma medição comparativa de intervalos entre eventos reais, aproximando-se de alguma forma de um anti-realismo proposto por Kant para a compreensão da experiência dos sentidos e sentimentos.

Numa perspectiva de descolamento da dramaturgia com a criação cênica, a transmutação de dois caminhos distintos alimentando-se mutuamente proporcionam um elemento teatral instigante. Embora seja uma temática já abordada por variantes dentro de um mesmo viés, há consistência na formatação proposta por Yuri Ribeiro, permitindo explorar ternamente particularidades e sem jamais perder de vista o humor. Mas sem dúvida, a criação cênica de Jorge Farjalla eleva a proposta a um patamar original, encontrando sob a tenda de um picadeiro os elementos oníricos que sobrepassam o comodismo cartesiano imposto por um palco italiano, como o formato do Teatro das Artes, para percorrer um semicírculo em sentido horário que contorna os distintos ciclos de qualquer relação amorosa, com fases fixas, demarcando  um lugar comum independente da variabilidade dos integrantes e dos diversos tempos do ciclo vital do amor, expondo conflitos que pouco a pouco arraigam o abismo entre os amantes, dependendo exclusivamente deles a sua transponibilidade. Traduzindo de forma mais objetiva, a maior virtude de Farjalla é criar um universo particular para a história que tinha em mãos, fazendo de “Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ser Triste?” uma obra de bastante originalidade.  Nessa imposição da ambientação onírica proposta por Farjalla inserem-se outros elementos importantes, como a opção de uma paleta puxada para os tons ocres, além de cenografia e representação que surgem como alegorias, desde o enorme objeto cênico giratório assinado por José Dias, amplificando metaforicamente o turbilhão interno dos personagens, que por sua vez surgem como simbologias, numa configuração em arquétipos que possibilita o encontro de traços sutis de uma analogia entre Pierrot e Colombina, até mesmo um Arlequim se buscarmos aspectos freudianos na rivalidade entre o namorado e o filho.

Foto: Carol Beiriz

Foto: Carol Beiriz

Nessa atmosfera circense, Yuri Ribeiro compõe um personagem que remete a aspectos chaplinianos, como um herói fadado ao fracasso, do palhaço triste, buscando uma representação diante da amada que não condiz com sua verdade interior, não por maldade, apenas um reflexo de sua insegurança diante de uma suposta complexidade que enxerga na amada. Esse processo de Yuri Ribeiro é conduzido de forma sensível por um extravasamento de sentimentos que progressivamente vão sustentando suas ações.  O personagem de Paula Burlamaqui tem a responsabilidade de conduzir uma história que encobre sua vida em contextos conflituosos em vários alcances. A atriz acerta na tonalidade sóbria, que lhe permite entrar com o mesmo equilíbrio tanto nas zonas emocionais, quanto humorísticas da dramaturgia. Vitor Thiré interpreta diferentes personagens, atuando propositalmente num desenho próximo ao caricatural que cabe muito bem na linha representativa de Jorge Farjalla, acentuando o tom do humor e realizando uma boa impostura corporal que contribuem consideravelmente ao êxito de sua atuação. A presença de Jujuba Cantador alcança uma relevância sobretudo cênica, sobrepondo-se a dramatúrgica, elevando o tom da ambientação aos níveis desejados pelo diretor em seus aspectos “clownescos”, por sua expressividade e pelo alcance de seu acordeão.

A iluminação de Jacson Inácio e Wladimir Freire acentua os aspectos lúdicos do espetáculo, colorindo as lonas de circo com pequenas lâmpadas atravessadas pelo cenário, gerando um matiz fantasioso.

Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?” representa uma proposta exitosa se entendermos a construção teatral de um aspecto mais amplo, desde sua dramaturgia e sua concepção artística, mas sem deixar igualmente de ressaltar um desenho de produção impecável. Suas sessões lotadas não são obras de um mero acaso.

Foto: Carol Beiriz

Foto: Carol Beiriz

FICHA TÉCNICA
Autor – YURI RIBEIRO
Argumento – CLAUDIA WILDBERGER e YURI RIBEIRO
Direção Artística – JORGE FARJALLA
Diretora Assistente – RAPHAELA TAFURI

Elenco – PAULA BURLAMAQUI, YURI RIBEIRO, VITOR THIRÉ e JUJUBA

Figurinos – JORGE FARJALLA
Preparação Corporal – JORGE FARJALLA
Preparação Vocal – PATRÍCIA MAIA
Trilha Sonora – JOÃO PAULO MENDONÇA
Direção de Arte e Cenografia – JOSÉ DIAS
Desenho de Luz – JACSON INÁCIO e VLADIMIR FREIRE
Fotos – CAROL BEIRIZ
Visagismo – ROSA BANDEIRA
Gerência de Marketing – MAURÍCIO TAVARES
Produtor Executivo – TATIANNA TRINXET
Assessoria de imprensa – DANIELLA CAVALCANTI
Produtores associados – CLAUDIA WILDBERGER e FREDERICO REDER

SERVIÇO
Temporada: 1º de junho a 29 de julho
Estreia para convidados: dia04 de junho (segunda), às 21h
Local: Teatro das Artes
Endereço: R. Marquês de São Vicente, 52 – Gávea (Shopping da Gávea)
Horário: Sexta e Sábado, às 21h | Domingo, às 20h
Ingresso: R$ 80,00 (inteira)
Gênero: comédia romântica
Classificação: 12 anos
Duração: 70 minutos
Horário da bilheteria: 15h às 20h, de segunda a domingo. Após às 20h, apenas espetáculos do dia.
Telefone: (21) 2540-6004
Vendas: www.divertix.com.br
Capacidade: 421 lugares


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