Crítica: War


 

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Por Renato Mello.

Renata Mizrahi atingiu a um raro estágio de carreira em que não necessitamos saber do que se trata seu espetáculo. Basta ser “um texto de Renata Mizrahi” para se tornar obrigatório aos que frequentam a cena teatral. Isso ocorre quando determinado artista ou criador encontra na maturidade artística e na evolução do seu trabalho uma identidade particular mesclada com um padrão de qualidade que reconhecemos imediatamente sua assinatura, sem perder a capacidade de se renovar ou mesmo surpreender.  É justamente o caso de Renata Mizrahi, com uma sequência de espetáculos de altíssimo grau de qualidade e sendo responsável por alguns dos mais interessantes textos apresentados nesses últimos anos, seja no teatro infantil ou no adulto, como “Coisas que a Gente não Vê”, “Os Sapos”, “Silêncio!” e “Galápagos”.

Seu mais novo projeto, “War”, estreou no dia 07 de agosto numa temporada no Sesc Tijuca até o dia 30 de agosto. Posteriormente o espetáculo se apresentará no Sesi Centro(de 03 a 26 de setembro).

War” marca o reencontro do texto de Renata com a direção de Diego Molina, uma parceria de 10 anos, desde que ambos ainda estudantes de teatro da UNIRIO fundaram a Companhia Teatro de Nós, pela qual realizaram espetáculos como “Joaquim e as Estrelas”, “Um Dia Anita” e “Bette Davis e a Máquina de Coca-Cola”. Juntos na Companhia, ou em projetos em separado, Diego e Renata traçaram seu desenvolvimento como criadores de teatro até desaguarem já maduros e com uma bela bagagem para uma proposta teatral excelente, como é o caso específico de “War”.

Um jogo de tabuleiro cujo objetivo é a conquista de territórios. No seu entorno 3 casais num encontro de velhos amigos e que o desencadeamento das movimentações irá revelar uma sucessão de crises, frustrações e sentimentos ocultos, fazendo com que na verdade 2 jogos paralelos, o do tabuleiro e o das relações humanas, estejam sendo disputados naquele apartamento tão distante da Zona Sul carioca. Os dilemas e a pressões por que estamos todos sujeitos por questões financeiras, profissionais, sociais ou emocionais são colocadas no palco de modo a gerar uma imediata identificação com temas que se fazem presentes, no caso em particular para os moradores do Rio de Janeiro, uma cidade com um dos custos de vida mais altos do país, que na busca por uma melhor qualidade de vida, seus habitantes se vem obrigados a procurar uma solução nem sempre satisfatória para manterem seus projetos e como isso pode acabar afetando as relações amorosas ou interpessoais. Através desses 6 personagens, Renata e Diego criam um quadro de toda uma geração, hoje na casa dos 30 a 40 anos.

O texto de Renata Mizrahi se aprofunda na investigação das relações humanas a partir da exacerbação dos sentimentos originada por um fato gerador de aparência inicial inconsequente. O roteiro delineia de modo bastante eficiente cada um dos 6 personagens que com pequenos gestos e intenções já é norteado ao público suas essências e características, mas deixa aberto o caminho para as reações inesperadas e surpresas imersas no inconsciente de cada um deles, isso tudo a partir da construção dramatúrgica primorosa, com um cuidado por cada palavra dita e com diálogos absolutamente saborosos, repletos de sarcasmos e acidez, numa busca desesperada daquelas almas pelo afeto perdido(ou talvez jamais encontrado). Renata Mizrahi explora com enorme competência o terreno do humor, sabedora da terrível arma que só ele é capaz para revelar verdades desconcertantes.

Diego Molina trabalha com muita inteligência todas as camadas que o texto lhe proporciona. Não desperdiça nenhuma possibilidade, aprofundando em cena a gama de sentimentos expostos sabendo dosar a tonalidade necessária para cada momento, mesmo quando é pedido um pouco de exacerbação. A dinâmica imposta é eficiente com diferentes acontecimentos num mesmo quadro, sem poluir ou deixar algum aspecto confuso, criando cenas inteiramente casadas com as necessidades dramatúrgicas. Sua direção de atores é extraordinária, conduzindo todo o elenco a um trabalho de composição acertada, com todos os atores mesmo que em distintas intensidades estejam de fato fazendo o mesmo espetáculo.

Camilo Pellegrini, Clara Santhana, Fabrício Polido, Natasha Corbelino, Ricardo Gonçalves e Verônica Reis, formam um belo e coeso elenco, como já foi comentado acima, com atuação homogênea, competente e cada um dos integrantes encontrando seu registro pessoal para revelar todo um manancial de angústias. Atuação irretocável de Ricardo Gonçalves, interpretando o personagem André, que de forma sutil acaba conduzindo a todos para o labirinto de frustrações a partir de seu próprio fracasso de manter a qualidade criativa de outrora,  de um relacionamento que parece com os dias contados, a pressão social que lhe cobra um emprego formal em detrimento dos seus “devaneios” artísticos, acrescido do desespero de se sentir desterrado em algum longínquo condomínio da antiga agitação e possibilidades que Copacabana lhe proporcionava com sua fauna humana inesgotável de recursos.  Ricardo consegue jogar com muita verdade utilizando todos os recursos da ironia e do sarcasmo, com uma grande presença cênica e uma força viva em sua atuação. Verônica Reis mantém seu personagem numa corda bamba entre o humor ferino e a devastação de sua alma, percurso transcorrido de modo milimétrico pela atriz, que atravessa com competência tanto seu lado cômico, quanto o desespero de um personagem perdido no mundo dos tarjas pretas. Camilo Pellegrini vive Sérgio, que busca a aceitação num mundo que é inferior as suas próprias qualidades como indivíduo, num personagem que vai revelando interessantes nuances ao longo do espetáculo e interpretado com bastante sensibilidade pelo ator. Natasha Coberlino, Marília, bem-sucedida profissionalmente, mas vive o desespero do fracasso de um relacionamento que vê desmoronar diante dos seus olhos, pelas diferentes visões de mundo e de ideais de vida o marido. Uma composição bastante interessante por parte de Natasha, encontrando um tom bastante adequado para expor suas dores. Fabrício Polido, Gustavo, personagem que busca camuflar seus fracassos pessoais através da acidez e de uma visão crítica sobre a vida alheia, papel bem defendido pelo ator. Clara Santhana, Laura, talvez quem encontra uma maior lucidez, justamente por ser um corpo estranho naquele universo. Consegue enxergar de fora a miséria humana daqueles personagens. Clara utiliza com acerto as armas da comédia e um bom trabalho de expressão corporal, em mais uma bela atuação de uma atriz carismática após sua retumbante representação de Clara Nunes no espetáculo “Deixa Clarear”.

Um dos aspectos mais interessantes de “War” é o cenário assinado por Lorena Lima e Diego Molina, com uma ambientação típica de um apartamento de classe média, com inserções de elementos que remetem a uma certa nostalgia de um passado feliz, como uma vitrola ou um aparelho telefônico típico do final dos anos 80. O cenário dialoga permanentemente com a dramaturgia e com os personagens, que engenhosamente vai se desconstruindo em paralelo com os personagens. Ótimo trabalho de criação de Lorena Lima e Diego Molina.

Os figurinos de Patrícia Muniz parecem querer brincar com os personagens e vestem de modo adequado a cada um, sendo um interessante instrumento de apoio ao processo de composição dos personagens.

A trilha sonora de Renata Mizrahi contribui e se mescla com a dramaturgia, ajudando na compreensão dos personagens. Uma síntese dos desejos inacabados de uma geração.

Iluminação criada Anderson Ratto, com correção dentro da proposta.

War” é mais um belo espetáculo escrito por Renata Mizrahi, que encontrou em Diego Molina um casamento perfeito entre texto e direção para realizar uma peça teatral que com humor consegue ser profundo na abordagem de questões e dilemas tão presentes nos nossos dias.

Foto: Renato Mangolin

FICHA TÉCNICA
Texto e Trilha sonora: Renata Mizrahi
Direção: Diego Molina
Cenário: Lorena Lima
Elenco: Camilo Pellegrini, Clara Santhana, Fabrício Polido, Natasha Corbelino, Ricardo Gonçalves e Verônica Reis
Direção de arte e Figurinos: Patrícia Muniz
Iluminação: Anderson Ratto
Direção de movimento: Juliana Medella
Assistente de direção: Carolina Godinho
Fotos e Vídeos: Ananda Campana
Programação visual: IviSpezani
Intérpretes de Libras: JDL Acessibilidade na comunicação
Direção de produção: Maria Alice Silvério
Produção e Realização: Companhia Teatro de Nós

SERVIÇO
WAR
-Comédia dramática
-Classificação indicativa: 12 anos
-Estreia: 7 de agosto
-Nº de apresentações: 24
-Duração: 90 min.

-Local: Sesc Tijuca
-Dias e horários: 7/08 a 30/8 (sexta a domingo), às 20h
-Sessões com Libras: 14 e 23 de agosto
-Lotação: 228 lugares
-End.: Rua Barão de Mesquita , 539 – Tijuca- Rio de Janeiro
-Telefone: (21) 3238-2072
-Ingressos: Inteira R$ 20; R$ 10 (estudantes e idosos); R$ 5 (associados Sesc)

-Local: Teatro SESI – Centro
-Dias e horários: Quintas, sextas e sábados, às 19h30 (3, 4, 5, 10, 11, 12, 17, 18, 19, 24, 25 e 26 de setembro)
-Sessões com Libras: 17 e 26 de setembro
-Lotação: 350 pessoas
-End.: Av. Graça Aranha, 1 – Centro – Rio de Janeiro
-Telefone: (21) 2563-4164 (bilheteria)
-Ingressos: Inteira R$ 30; Meia R$ 15


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