Crítica: Wicked


 

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Por Renato Mello.

Fotos: Marcos.Mesquita.

Um dos maiores sucessos da Broadway nesses últimos anos, o musical “Wicked” chegou aos palcos brasileiros numa temporada iniciada no dia 4 de março no Teatro Renault, São Paulo, produzida pela T4F que obteve permissão para captar R$ 15 milhões pela Lei Rouanet.

Em setembro último tive a oportunidade de assistir a versão original, o que me possibilitou 6 meses depois algumas considerações e tecer um arco comparativo pelo fato de seus detalhes ainda estarem muito frescos em minha mente. Portanto, antes de mais nada, posso afirmar com segurança: não deve nada a Broadway.

Desafio: Aonde é a Broadway e aonde é São Paulo? (arquivo pessoal)

Desafio: Aonde é a Broadway e aonde é São Paulo? (arquivo pessoal)

Tal afirmação pode ser recebida de diferentes prismas, tanto como um elogio, quanto uma ironia.

Mas olhemos pelo viés positivo. “Wicked” é a prova perfeita que o teatro musical que se faz hoje no Brasil é de extremo apuro técnico por parte de nossos atores, bailarinos, cantores, músicos e técnicos. Temos a capacidade de realizar qualquer tipo de musical em nível similar ao que se faz nos mais avançados centros, embora isso não seja nenhuma novidade para quem conhece bem esse meio. Outro aspecto muito reconfortante é termos acesso aos melhores espetáculos com belas montagens e sem a obrigatoriedade de procurarmos o exterior.

Quando  menciono o tom irônico me refiro a uma reprodução fidelíssima que de algum modo tolhe a criatividade e a reinvenção, através de um espetáculo que remete inteiramente ao original. Na cenografia, figurinos, coreografias, arranjos, iluminação, mesmo em pequenos gestos e detalhes. Lógico que sabemos que cada caso é diferente, com variantes nas exigências e liberdades concedidas, obrigando a contratação de técnicos de confiança dos detentores dos direitos, inclusive com poder decisório sobe a escolha do elenco. Por isso mesmo esse tipo de produto é conhecido como “franquia”.

Feita essa longa reflexão, voltemos para a afirmação em negrito escrita parágrafos acima. Opto por enxergar na afirmação os méritos da montagem.

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Wicked” é uma recriação a partir do universo clássico de “O Mágico de Oz”, livro de L Frank Baum e eternizado no cinema a partir da sua adaptação cinematográfica de 1939 com Judy Garlard. A história de “Wicked” se inicia num tempo anterior a chegada de Dorothy a Oz, no encontro de Elphaba(Myra Ruiz), a Bruxa Malvada do Oeste com Glinda(Fabi Bang) a Bruxa Boa do Norte ,na faculdade de Shiz em a convivência de ambas as tornam amigas, mas a rivalidade surge a partir de uma enorme diferença de personalidades e principalmente, pelo interesse pelo mesmo homem(André Loddi e Jonathas  Faro se revezando no papel).

Estreou oficialmente na Broadway em 2003 com músicas compostas por Stephen Schwartz e libreto escrito por Winnie Holzman. Logo tornou-se um fenômeno de bilheteria e crítica. Entre os eixos principais para tanto sucesso podemos justamente destacar uma dramaturgia sólida, consistente, que capta para si toda a fantasia encontrada “O Mágico de Oz”. Aborda com muita sensibilidade questões sobre o sentimento gerado a partir da rejeição e da diferença, assim como lança um olhar crítico sobre a brutalidade de um estado opressor. As canções de Stephan Schwartz possuem beleza e força melódica que se aderem à perfeição na estrutura narrativa, mesclando música e texto de uma maneira que soa espontânea, não notando-se rupturas nas formas de comunicação dos personagens.

Rachel Ripani, como diretora residente, mantém-se dentro da fidelidade à obra original, construindo com bastante competência a ocupação do espaço físico e dando bastante consistência cênica para a apresentação, possibilitando uma boa fluência ao espetáculo.

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Um dos pontos mais importantes para se destacar é sem a menor dúvida as extraordinárias atuações de Myra Ruiz e Fabi Bang. Duas atrizes que despertaram todas as atenções em 2015, mesmo sem serem protagonistas, pelas mãos de Charles Möeller e Claudio Botelho em “Nine” e “Kiss me Kate”, respectivamente. Estabelecem um ótimo jogo cênico a partir da heterogeneidade(em todos os sentidos) de seus personagens e mesmo na busca de seus registros. Enquanto a Elphaba de Myra Ruiz se bate contra a intolerância, sendo despejada ao desespero por um mundo de desprezo e decepções, Fabi Bang trabalha com bastante espontaneidade o humor, através de um excelente trabalho de modulação vocal e a correta exploração corporal. Ambas possuem inegável técnica vocal, cobrando uma maior exigência de Fabi, que passa a sensação de atingir os mais altos tons com enorme facilidade.

Na apresentação que assisti coube a André Loddi interpretar Fiyero. Uma atuação correta por parte do ator e com segurança no canto.  Importante destacar igualmente as boas presenças de Sérgio Rufino(Mágico de Oz), Adriana Quadros(Madame Morrible) e Giovanna Moreira(Nessarone).

No aspecto técnico há que elogiar as irrepreensíveis reproduções do musical original, com a cenografia de altíssimo grau de complexidade, mantendo a mesma grandiosidade e capacidade de despertar um sentimento opressivo. Excelentes figurinos em suas formas e acabamentos. Direção musical sob a competente regência da maestrina Vânia Pajares, reproduzindo com perfeição a riqueza melódica das composições de Stephen Schwartz.

Faço uma crítica para a falta de informação em relação a equipe técnica para que eu pudesse nominar cada departamento e seus responsáveis. É bem verdade que recebi o programa completo na entrada, mas confesso que ao arrumar minhas malas de volta para o Rio perdi meu exemplar. Fiz buscas pelos mais variados sites, principalmente o site oficial da produção (http://wickedomusical.com.br/) e não localizei tais informações. Espero ser desmentido.

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Todos os elogios ao trabalho de iluminação, que pelo motivo descrito acima não posso nominar o responsável. Tem fundamental importância para o êxito cênico do espetáculo, a construção estética e da atmosfera proposta, contribuindo para a criação das ambientações e a complexidade de  sentimentos transmitidos pelas necessidades dramatúrgicas, em especial a magistral cena que encerra o 1º ato.

Por fim, apesar de ter ouvido umas dez vezes da cadeira imediatamente atrás de mim que “não deve nada a Disney”(oi???), eu posso afirmar que “Não deve nada a Broadway”, independente de ser um aspecto positivo ou negativo. Como acredito que no papel crítico reside captar a proposta do espetáculo, entendo que a afirmação é bastante positiva.

Wicked” é um espetáculo primoroso, com duas atrizes maravilhosas que transmitem encantamento do início ao fim.


Palpites para este texto:

  1. REGINA CAVALCANTI -

    AMEI, REVER WICKED NO BRASIL! INTERPRETAÇÕES MARAVILHOSAS!

  2. Fani Bang reina na peça!

    Myra é ótima,as Fabi está ainda superior.

  3. Fabi Bang reina na peça.
    Myra é ótima, mas Fabi está ainda superior!

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