Crítica: Yank! O Musical


 
Foto: Carol Pires

Foto: Carol Pires

Por Renato Mello

A fugacidade da temporada de “Yank! O Musical” em 2017, com escassas 10 sessões, talvez tenha sido fator determinante para só retornar quase 1 ano depois de sua estreia em palcos brasileiros. Escrevo isso com algum amargor, pois entendo que tinha então bons requisitos para almejar uma maior repercussão.

Sem vínculo com qualquer dos grandes produtores que circundam o teatro musical brasileiro, se “Yank!” agora retorna aos palcos deve exclusivamente a persistência dos seus membros que entendem ter uma boa história para contar e algo que lhes acrescente artisticamente. Bem apropriado ao espírito da obra original dos irmãos Zellnik, que passou por vários estágios até sua estreia oficial no circuito off-Broadway em 2010. Se podemos encontrar algo de positivo nesse processo entre temporadas é uma percepção pessoal quase de um work in progress, um visível amadurecimento desde a estreia lá atrás no Teatro Serrador para essa atual temporada no Teatro dos 4. Alguns apontamentos precisam ser feitos, mas o resultado final é positivo.

Com o libreto e letras assinados por David Zellnik e música de Joe Zellnik, segundo sua própria sinopse oficial, “traz ao palco duas das coisas mais assustadoras que podem existir: ir para a guerra e apaixonar-se pela primeira vez. Sua inspiração é nos clássicos filmes e peças musicais dos anos 40, com um diferencial: é uma história de amor entre dois homens”. Stu(Hugo Bonemer) entra muito jovem ao exército, ainda incerto de sua sexualidade. Após a fase de treinamento ao invés de ir para o front de batalhas, vai trabalhar na revista do Exército “Yank”, mas não antes de conhecer Mitch(Conrado Helt), um soldado do seu pelotão com quem inicia uma  amizade cujos sentimentos evoluem para uma relação maior de afetividade e atração sexual entre ambos.

Embora seja até possível encontrar uma leitura política, entendo que “Yank!” acima de tudo é uma história de amor entre um casal do mesmo sexo que deseja simplesmente viver suas emoções como numa relação qualquer, independente do cunho homossexual, sob um ambiente repressor em época hostil a esse tipo de relacionamento. Enxergar por esse viés, em minha opinião, eleva o musical a um melhor patamar do que buscar elementos que viessem a demarcar uma posição, que o colocaria em termos mais ambiciosos, e por consequência, contraditoriamente acabaria por lhe esvaziar. É justamente essa relação afetiva o mais relevante, fazendo de “Yank!” uma bonita história de amor que mescla humor e drama em doses equilibradas, envolvida por canções que sustentam o seu arco narrativo, com tradução e versões realizadas por Menelick de Carvalho e Vitor Louzada.

2ª temporada - foto de Carol Pires-

Foto: Carol Pires

A concepção cênica de Menelick de Carvalho encontra boas soluções, embora por vezes esbarrem na ausência de recursos para uma melhor dinâmica, notadamente nos elementos cenográficos poucos funcionais que sujam um pouco a movimentação e a fluência, assim como algum decréscimo na pujança nos arranjos musicais, embora acertadas as resoluções da direção musical de Jules Vandystadt sobre uma partitura com algum grau de complexidade. Independente de algumas dificuldades, a montagem alcança as particularidades da construção narrativa e permite sua boa reverberação pela ambientação, muito em função de uma boa direção de atores e a sensibilidade do diretor no aprofundamento das cenas.

Hugo Bonemer tem uma sólida interpretação na defesa do protagonista Stu, extravasando sutilmente a confusão de sentimentos por que passa o seu personagem com a descoberta da sua sexualidade. Bonemer se comunica com inteira adequação através dos seus atributos técnicos, principalmente a capacidade vocal e uma expressividade que se adequa a gangorra emocional pela qual passa seu personagem. A interpretação de Conrado Helt apresenta alguns níveis de oscilação, quando o ator demonstra uma potente modulação vocal(não me refiro apenas ao canto), mas há alguns aspectos titubiantes na ausência de um delineamento dos picos emocionais do personagem. Leandro Terra explora com competência alguns dos melhores momentos de humor da apresentação. Bruno Ganem encontra uma dualidade acertada em personagens difusos entre si. O elenco se completa com atores com capacidade técnica, afinados com a proposta, atuando, cantando e defendendo bem seus papeis, como Fernanda Gabriela, Dennis Pinheiro, Leonam Moraes, André Viéri, Alain Catein, Robson Lima e Rhuan Santos.

As coreografias de Clara da Costa inserem-se dentro do processo narrativo, interagindo com a proposta cênica do diretor Menelick de Carvalho. Os figurinos se apresentam de acordo com o universo retratado no espetáculo.

Além de bravura e visível ardor por aqueles que o fazem, “Yank!” é um espetáculo legitimamente meritório e que se apresenta com níveis artísticos qualitativos. Merece temporadas mais generosas para que sua história tenha um maior alcance e afluência de público.

-Yank - foto de Carol Pires

Foto: Carol Pires

YANK! – O Musical
Teatro dos Quatro
Shopping da Gávea
R. Marquês de São Vicente, 52 – Gávea, Rio de Janeiro
Temporada: de 6 de março a 2 de maio
Terças e quartas às 20h
Tel: (21) 2239-1095
Classificação: 16 anos
Duração: 130 min
Valor do ingresso: R$ 60,00
Lotação: 402 lugares

Ficha técnica:
Elenco: Hugo Bonemer, Leandro Terra, Fernanda Gabriela, Conrado Helt, Dennis Pinheiro, Leonam Moraes, André Viéri, Alain Catein, Bruno Ganem, Robson Lima e Rhuan Santos.

Libretto e Letras: David Zellnik
Música: Joe Zellnik
Tradução e Versões: Menelick de Carvalho e Vitor Louzada
Direção Geral: Menelick de Carvalho
Direção Musical: Jules Vandystadt
Coreografias: Clara da Costa
Desenho de Luz: Daniela Sanchez
Direção de Arte: Vitor Aragão
Programação Visual: Thiago Fontin e Raphael Jesus
Assistência de Direção: Vitor Louzada
Assistência de Direção Musical e Regência: Ciro Magnani
Direção de Produção: Leandro Terra
Produção Executiva: George Luis
Assistência de Produção: Igor Miranda e Mayara Luana
Realização: Silhueta Produções
Assessoria de Imprensa: Ribamar Filho / MercadoCom


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