Crítica: Zoológicos


 

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Por Renato Mello.

Terminou na semana que se passou a temporada do espetáculo “Zoológicos”, que esteve em cartaz no Centro de Artes Calouste Gulbenkian, sala Gonzaguinha. O espetáculo tem a direção de Leandro Mariz e marca a estreia como de um novo autor no cenário teatral carioca, John Marcatto.

Mas quem perdeu, deve renovar as esperanças, pois a produção planeja voltar com o espetáculo no início do ano que vem, provavelmente em algum teatro da Zona Sul carioca. Seria uma boa notícia, pois trata-se em uma peça teatral que merece uma maior visibilidade e destaque. Se “Zoológicos” foi colocado de pé, deve-se a persistência de 2 jovens atores, o próprio John Marcatto e Gloria Dinniz, recém saídos da Unirio, que com a cara e a coragem levantaram uma produção ousada e com uma narrativa bastante arrojada. A entrada no projeto de um diretor experimentado como Leandro Mariz, que tem a exata noção do que quer e de onde quer chegar, foi sem dúvida um grande ganho para os seus idealizadores.

Zoológicos” coloca em cena 4 personagens, na verdade assassinos que deixaram a pouco tempo uma instituição de ressocialização, defrontando suas relações conjugais, ou meramente sexuais, num permanente jogo patológico, perverso, sádico, amoral ou qualquer outro sentimento de natureza negativa que podemos nos lembrar, aflorando em cada um deles todo o lado sombrio e animalesco da atormentada alma humana, chegando ao seu limite extremo.

Para viver sentimentos com tal grau de intensidade, naturalmente o texto de Marcatto exige de seus atores um esforço físico e mental no mais elevado grau. Mas o elenco formado por Gloria Dinniz(Ilana), John Marcatto(Babu), Renato Krueger(Antônio) e Sharah Ezequiel(Kika), sem nenhuma exceção vai às últimas consequências com total despudor e intensidade máxima. O ótimo trabalho corporal dos atores é um dos aspectos que devem ser ressaltados, para isso é preciso destacar a preparação corporal de Julio Wenceslau com o elenco, fundamental para que atingissem tão boas atuações. O nível de atuação entre os 4 é similar, mantendo o equilíbrio do embate travado, com todos no mesmo tom de interpretação, mas com um destaque para a atuação de Renato Krueger, um ator que atinge uma visceralidade que prende a respiração do público toda vez que seu personagem assume o primeiro plano.

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A direção de Leandro Mariz tem seu ponto alto na direção de atores, num trabalho milimétrico e ajudando a encontrar um tom comum, mesmo que seja um tom acentuado, mesmo porque o texto pede esse registro. Cria um clima caótico em cena, sabendo com muita habilidade colocar e tirar o ator de cena(mesmo que permaneça no palco) e não desperdiça nenhuma palavra ou gesto contidos no texto.

O belo trabalho de cenografia ajuda a acentuar o clima sufocante, com suas jaulas, roldanas e cadeiras, à frente de um fundo preto, em conjunto com a boa e eficiente iluminação assinada por Luciana Liege. É preciso destacar os figurinos assinados por Bya Feliciano, fundamentais na composição dos personagens e ao mesmo tempo capta todo a penúria da alma contida naqueles seres.

Resta-nos aguardar que John Marcatto e Gloria Dinniz consigam prolongar a vida de “Zoológicos”, pois seria uma pena terminar precocemente um trabalho dramatúrgico bastante original e particular. Se com quase nada já conseguiram montar um espetáculo com esse nível e qualidade, imagine o que farão quando tiverem um mínimo de apoio.

Zoológicos
Autor: John Marcatto
Direção: Leandro Mariz
Elenco: Gloria Dinniz, John Marcatto, Renato Krueger e Sharah Ezequiel


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