Biografias em Debate – Parte 2: Liberdade de Expressão ou Invasão de Privacidade?


 

E segue em clima cada vez mais quente a discussão, a qual falamos no post passado(leia AQUI), sobre a polêmica no meio artístico-literário da necessidade ou não  de autorização prévia do artista ou familiares para publicação de biografias.

A discussão hoje chegou às raias da baixaria nas redes sociais, tendo Paula Lavigne, a porta voz e representante dos defensores da censura a esse gênero literário, como protagonista. Em sua conta no twitter, bateu boca com a jornalista Mônica Bergamo, chamando-a até de “encalhada“:

Entre outras coisas, escreveu:

Eu tenho q trabalhar. @monicabergamo ganha p encher o saco das pessoas. Eu nao. Tw ñ oaga as minhas contas. To indo! Vamos elevar o astral!

A um retwitt de Mônica Bergamo, Lavigne reagiu com três bombásticos adjetivos:

“chata, recalcada e encalhada”.

.

Mônica Bergamo, por seu lado:

Em resposta “a informação de q entrevista à Folha foi dada por escrito, @PaulaLavigne diz que sou encalhada.

.

o barraco foi conseqüência da acusação de Paula Lavigne de ter sido deturpada em sua “lamentável” entrevista na Folha no último fim de semana, a qual reproduzimos no post passado um pequeno trecho.

O tema sobre a questão das biografias, já apelidada de Lei Roberto Carlos,  voltou a ganhar as principais páginas dos principais cadernos culturais da grande imprensa nacional.

Enquanto bate boca pelo Twitter, o Procure Saber, que Paula lidera, se reúne hoje “para afinar o discurso contra as biografias não autorizadas. O grupo já esteve com a Ministra Cármen Lúcia, relatora, no STF, da Adin que pede o fim da necessidade de autorização dos biografados”, como noticiou em sua coluna Ancelmo Gois.

Como se sabe, o grupo é bom de lobby, como a recente aprovação de isenção de impostos para a produção de CDs e DVDs, assim como ainda travam uma enorme briga numa outra polêmica relacionada ao Ecad.

Hoje, diretamente da Feira de Frankfurt, o sempre sereno e equilibrado Laurentino Gomes entrou na briga. O jornal O Globo publicou duras críticas sobre a postura dos músicos que defendem o direito ao veto sob a alegação de invasão de privacidade.

“Paula Lavigne diz que os artistas só “querem a verdade”. Esse é um argumento perigoso, usado pelo regime militar. É difícil entender como artistas que foram censurados pela ditadura se arrogam o direito de censurar o trabalho de biógrafos…  Nós, jornalistas, escritores e biógrafos, entendemos que toda pessoa tem direito à proteção legal de sua imagem contra difamações, calúnias ou injúrias. Isso, no entanto, não autoriza ninguém a impedir a circulação de um livro ou reportagem. Deixem que jornalistas, escritores e biógrafos trabalhem. Se eles mentirem ou cometerem injustiças, que sejam punidos de acordo com a lei. Mas sem censura!”

.

Para ajudar a aumentar a temperatura, Benjamin Moser, autor da biografia “Clarice” escreveu uma carta aberta na Folha de São Paulo. Entre outras coisas afirmou:

“Fico constrangido em dizer que achei as declarações suas e da Paula, exigindo censura prévia de biografias, escandalosas, indignas de uma pessoa que tanto tem dado para a cultura. Para o bem dessa cultura, preciso dizer por quê.

Primeiro, achei esquisitíssimo músicos dizerem que biógrafos querem ficar com “fortunas”. Caetano, como dizem no Brasil: fala sério. Ofereço o meu exemplo. A biografia de Clarice ficou nas listas de mais vendidos em todo o Brasil.

Mas, para chegar lá, o que foi preciso? Andei por cinco anos pela Ucrânia, pela Europa, pelos EUA, pesquisando nos arquivos e fazendo 257 entrevistas. Comprei centenas de livros. Visitei o Brasil 12 vezes.

Você acha que fiquei rico, depois de cinco anos de tais despesas? Faça o cálculo. A única coisa que ganhei foi a satisfação de ver o meu trabalho ajudar a pôr Clarice Lispector no lugar que merece”

.
Voltando ao Globo, Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara também foi duro em relação a questão. Questionado se caso a legislação brasileira se aplicasse a outros países, algumas histórias como “Frank Sinatra está resfriado”, de Gay Talese; “Shout”, de Philip Norman, sobre os Beatles; a até seu “Che” poderiam nunca ter sido publicadas. O Quão seria ruim para o leitor?

“Seria muito ruim. Como se vivêssemos numa sociedade orwelliana ou, em comparação com o mundo real, seria algo equivalente em maior ou menos grau a situações comuns em países como Rússia, Irã, China, Cuba, Sudão, Zimbábue, Síria, Arábia Saudita, alguns dos países mais repressivos do mundo.”

.
Em contra partida, um novo grupo de artistas resolveram aderir ao lobby contra as biografias, reivindicando pagamento aos biografados ou herdeiros. Artistas, cabe ressaltar, sem a mesma expressão do grupo que encabeça o movimento, nomes como Nasi e Wilson das Neves.

Ainda segundo a Folha de São Paulo, Caetano Veloso teria escrito em sua conta no twitter e depois deletado: “Querem fazer biografias sem autorização? Ok! Mas paguem ao biografado“.

A Folha de São Paulo trouxe mais declarações de importantes biógrafos sobre o tema:

Fernando Morais declarou sobre a proibição:

“É pré-colombiano

.
Já Mario Magalhães disse:

De acordo com a lei atual, o Cabo Anselmo poderia impedir a circulação de uma biografia independente. O Cabo Anselmo tem o direito de impor à história uma biografia chapa-branca? Afinal, a ditadura acabou ou não?”

Enquanto a chama a polêmica permanece a arder, só resta aguardar pelo texto dominical de Caetano no Globo aonde deverá defender com unhas e dentes, com sua já conhecida e confusa argumentação, a permanência da censura.

Igualmente enquanto a discussão segue, não podemos esquecer que a magistral biografia de Noel Rosa, escrita por João Máximo e Carlos Didier, permanece proibida, mesmo após mais de 60 anos após sua morte


Palpites para este texto:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

julho 2017
D S T Q Q S S
« jun    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031