Crítica: Dentro de Casa


 

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Não restam dúvidas que François Ozon é um dos mais prolíficos cineastas do cinema francês, consegue manter uma média de praticamente 1 filme por ano, o que é muito difícil para um diretor que possui requintes autorais. Mais importante que a quantidade é que Ozon mantém permanentemente sua capacidade de construir “grandes filmes populares”, ou seja, filmes com uma qualidade artística e que ao mesmo tempo sempre obtém boa resposta de público, equação nem sempre fácil de elucidar.

Ozon entra em cartaz no Brasil agora com “Dentro de Casa”, filme que alcançou um bom êxito de bilheteria na França e na Europa, ganhou o Festival de San Sebastian e ainda levou 6 indicações ao César. Nesse filme Ozon brinca com a metalinguagem, com alguma dose de suspense aonde aborda a temática da invasão da intimidade e do voyeurismo, aonde faz uma pequena reverência a Hitchcock(“Janela Indiscreta”), utilizando-se em determinados momentos um estilo que lembra um dos mais igualmente prolíficos diretores franceses de todos os tempos, Claude Chabrol.

Com uma estrutura narrativa mesclando habilmente realidade com ficção, “Dentro de Casa” conta a história de Germain(Fabrice Luchini) um professor de literatura frustrado que mantém um casamento estável e rotineiro com a galerista Jeanne(Kristin Scott-Thomas). Começa a dar aulas no liceu Gustave Flaubert aonde recupera seu interesse pelo seu ofício estimulado pelas redações de seu aluno Claude(Ernst Umhauer), que narra em seus textos as experiências pessoais e os subterfúgios utilizados para penetrar na casa e no seio de uma bem estruturada família de um colega de sala, Rapha(Ughetto Bastien), família bem diferente daquela que Claude possui. Incentivado pelo professor, Claude prossegue em seu objetivo de entrar a cada dia mais na intimidade dessa típica e medíocre família de classe média suburbana, nesse processo vai igualmente crescendo seu interesse e obsessão na mãe do seu colega, Esther(Emmanuelle Seigner), uma entediada dona de casa. O jogo desenvolvido pelo professor e seu aluno acaba indo longe demais, desencadeando uma série de eventos que fogem do controle do professor.

Além de um roteiro muito bem estruturado, algo típico nos filme de Ozon, conta com um elenco a altura da história que quer contar. Fabrice Luchini, um dos melhores atores franceses, vive um professor enfastiado com seu ofício e que vê na criatividade de seu aluno uma centelha de alguém que pode vir a ser o grande escritor que ele não conseguiu ser. O jovem ator Ernst Umhauer vive um jovem oriundo de uma família desestruturada, que em determinados momentos parece querer tomar à força um lugar naquela família, atuando como um perfeito anjo mau. Emmanuelle Seigner, não é lá uma grande atriz, mas funciona bem em determinados papeis, como foi o caso de sua Esther, uma mulher no centro de uma família aparentemente bem estruturada, mas que no fundo não passa de uma mulher medíocre intelectualmente, frustrada e entediada, quase que uma Madame Bovary contemporânea, faltando apenas um empurrão para lançar voo na busca das fantasias e emoções que Emma Bovary viveu nas páginas de Flaubert.

Em torno dessa estranha relação entre o mestre e seu discípulo, Ozon explora todos os mistérios da perversidade humana em relação ao voyeurismo e a atração por jogos perigosos, prendendo o espectador com seu talento de  grande contador de histórias.


Palpites para este texto:

  1. Bem interessante.

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