Desde que o Samba é Samba


 

Cotação: Bom.

É na efervescência do bairro do Estácio de Sá entre 1928 e 1929, em meio a malandros, prostitutas, sambistas, mães-de-santo e violência policial, que Paulo Lins mergulha o universo de seu novo livro “Desde que o Samba é Samba“, lançado pela editora Planeta, seu primeiro romance após os estrondoso impacto que causou com “Cidade de Deus“, lançado há 15 anos atrás.

Naquele Estácio estava sendo gestado um movimento sócio-cultural-religioso que seria responsável pela formação da identidade cultural e do imaginário pelo qual o Brasil viria a ser permanentemente associado a partir das décadas seguintes, era o nascimento da umbanda, do samba e a criação da primeira Escola de Samba do Brasil.

Se até aquele momento com seus maxixes e lundus, os bambas estavam na Cidade Nova, aonde Donga, João da Baiana e Sinhô davam as cartas, o Estácio abria passagem para mostrar que ali também havia algo que merecia ser exaltado e admirado, o samba batucado, sob a liderança de Ismael Silva, auxiliado por Bide e pelo instrumento que esse acabara de inventar, o surdo. Suas músicas começam a ser descobertas e divulgadas pelos maiores artistas da época, principalmente Francisco Alves e Mário Reis, tornando o Estácio um ponto obrigatório para artistas e intelectuais, aonde um grupo de boêmios passou a exercer fascínio nas áreas mais elitizadas da então capital federal. O velhos maxixes e lundus já não os interessavam, queriam o novo samba, com seu ritmo contagiante e suas letras simples, porém singelas e diretas, escritas por pessoas de pouco estudo, mas de muita vivência. O Estácio representava a vanguarda, nas idéias e na criação, de onde surge por obra desse mesmo grupo a primeira Escola de Samba, a Deixa Falar, que em seu primeiro ano saiu com meros 50 integrantes pelas ruas do Estácio e chegou na Praça Onze com 400 foliões. No ano seguinte começou com 400 e terminou com 1200, a conseqüência disso conhecemos até nossos dias. Era o Estácio de Ismael Silva, Bide, Mano Edgar, Baiaco, Tibélio dos Santos, Nílton Bastos e Brancura. É através desse último, Brancura, que Paulo Lins vai revelando todo o universo do mítico bairro, utilizando-o como o principal fio condutor da história.

Segundo Paulo Lins declarou a Veja, Brancura representa a malandragem, os valentões, os capoeiras, e era bonitão, deixava as mulheres loucas”. Criou então um triângulo amoroso entre ele, a prostituta Valdirene e o funcionário público Sodré, utilizando a cena cultural e social do Estácio como pano de fundo. Paulo acaba por romantizar a figura desse malandro, que era um dos mais temidos cafetões da região do Mangue, aonde agenciava cerca de 120 prostitutas, criando nele um ser quase romântico e com alguma crise de consciência em relação às próprias atitudes, quando na verdade se tratava de um sociopata. Sambista dos bons, Brancura é definido por João Máximo e Carlos Didier no brilhante livro “Noel Rosa, uma Biografia”, como “mau, doido, sempre sentindo prazer em sangrar mulheres…vive usando a navalha pelo prazer sádico de ver o sangue jorrar”, além de desfigurar mulheres, entre outras barbaridades chegou até a queimar um mendigo e era um notório ladrão de sambas alheios. São fatos que Paulo não menciona, de seu extenso prontuário policial utiliza apenas seu “casamento na delegacia” por ter deflorado uma adolescente, mas mesmo nesse caso, Paulo carrega tintas suaves e românticas. Brancura, faleceu em 1935 aos 27 anos, em estado de loucura devido a sífilis, quando estava preso na Ilha Grande.

Essa trama ficcional de Paulo é narrada de maneira irregular e não é o mais interessante do livro, a tal ponto que em determinados momentos seus protagonistas são praticamente deixados de lado, até porque o melhor é a recriação que faz da atmosfera e do ambiente em volta dos protagonistas, aonde fez um bom e incansável trabalho de pesquisa, mas mesmo esse trabalho não ficou livre das polêmicas.

Dois aspectos especificamente me incomodaram no livro, um é a linguagem chula que Lins utiliza para descrever ações. Por mais que estejamos na zona do baixo meretrício e obviamente o linguajar empregado não é dos mais empolados naquela geografia, soa gratuita a maneira como abusa desse vocabulário na sua narração, nos diálogos seria até natural que ocorresse. O outro aspecto é a utilização praticamente de “pseudônimos” para com os personagens do entorno dos protagonistas. Ismael Silva é no livro todo somente “Silva”, Francisco Alves é” Alves”, Manuel Bandeira é “Manuel”, Mario de Andrade é “Mario” e assim por diante. Fica às vezes difícil identificar alguns personagens históricos para quem não é muito afeito ao tema, e mesmo para quem é conhecedor do tema, leva um tempo para ter a certeza sobre quem está se referindo. Já que fez uma pesquisa tão extensa, qual o problema de identificar claramente esses personagens? Até porque esse universo é o melhor do livro.

Mas como referi em parágrafo anterior, o livro não ficou livre das polêmicas, principalmente em relação à suposta homossexualidade de Ismael Silva. O jornalista e pesquisador Sérgio Cabral diz que já tinha ouvido falar sobre isso: “Só que nunca vi gesto, atitude ou mesmo uma frase dele que o identificassem como gay”, em recente artigo à Folha de São Paulo, escreveu:

Apesar do título, a obra de Paulo Lins nada acrescenta à história do samba, até porque os personagens, de um modo geral, apesar de identificados pelos nomes e pelos sambas que compuseram, percorrem as páginas adotando um comportamento que nada tinha a ver com a realidade.

No livro, Ismael Silva, além de homossexual, era cachaceiro e capaz de enfrentar a polícia numa briga (“Silva deu um rabo de arraia numa das autoridades que não gostavam de samba”, escreveu), um retrato facilmente recusado por quem conheceu o grande compositor

O escritor Flávio Moreira da Costa, autor da biografia de Nelson Cavaquinho considera muito frágil a tese de Lins:

A prova é pífia, pois ele diz que ouviu de uma pessoa que lhe afirmou categoricamente.

Outro importante pesquisador, Haroldo Costa, afirma que não existe tal confirmação:

Nas ocasiões em que estive com ele, nada me fez suspeitar disso.

Ainda sobre tal polêmica, Cabral indaga:

Qual a importância das preferências sexuais de um compositor para a história do samba carioca?

Tal como afirmou Flávio Moreira da Costa, Lins realmente declarou à Veja que a base para tal apontamento reside na afirmação categórica de “uma pessoa”:

uma pessoa me afirmou isso categoricamente. E levei essa entrevista para São Paulo no dia em que aquele jovem foi atingido por uma lâmpada na rua por ser gay. Pensei que, se não falasse do assunto, eu estaria sendo preconceituoso. Foi uma investida contra o preconceito.

Já em resposta ao artigo de Cabral, publicou na mesma Folha de São Paulo:

Não vou tirar a palavra veado de um romance que une ficção e realidade para deixar em paz os homofóbicos de plantão. O que se tem de discutir não é a homossexualidade de personagens históricos e sim o espancamento e assassinato de pessoas por causa dos desejos e dos amores que se tem na vida.

A polêmica serve para Paulo Lins manter sua aura de “enfant terrible” da literatura brasileira.  “Desde que o Samba é Samba”, título tirado a linda canção de Caetano Veloso, é um livro de altos e baixos.


Palpites para este texto:

  1. Palavras chulas é o que há,em nossa literatura e no nosso cinema.Um horror.Quanto a conhecer a preferência sexual de um autor-compositor,ajuda-nos na compreensão global do ser humano.

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