Deus da Carnificina


 

Cotação: Bom.

“O Nazismo está presente dentro de todos nós, só está a espera de uma oportunidade de se manifestar”, tal frase nunca saiu de minha cabeça desde que a ouvi de um professor de história nos tempos de colégio. Em menor grau “Deus da Carnificina” fala sobre o ser primitivo que habita dentro de nós, apesar de todo o verniz que utilizamos na vida social para que nossa verdadeira essência não seja revelada.

Esse novo filme de Roman Polanski é uma adaptação da peça teatral homônima de Yazmina Reza, provavelmente a mais badalada dramaturga européia da atualidade. O roteiro escrito a quatro mãos pela dupla(Reza e Polanski) mantém-se fiel ao texto original, mantendo uma estrutura cinematográfica simples, com 95% do filme rodado em estúdio. Tal como costuma ocorrer nessas adaptações teatrais, o filme tem sua base estruturada na força dos diálogos e no trabalho dos atores. Nota-se muito pouco o dedo de Polanski na direção, o que neste caso específico é um grande mérito do diretor, tal como ja havia feito em outra adaptação teatral que realizou, “A Morte da Donzela” em 1994. Não se trata de teatro filmado, apesar de fazer todo o filme com apenas 1 cenário e 4 atores em cena que passam 80 minutos falando, discutindo, gritando e se agredindo mutuamente, sendo que jamais o tédio dá o ar de sua graça, mantendo o espectador permanentemente atento a batalha psicológica travada pelos quarteto.

No filme, uma briga entre garotos resulta com um ferido pelo outro. Os pais do menino machucado recebem em sua casa os pais do menino agressor. A conversa é à princípio extremamente civilizada, cercada por uma certo constrangimento, com pequenas lições de moral jogadas sutilmente, mas no decorrer do filme os ânimos vão se acirrando, a polidez e urbanidade inicial vão dando lugar a agressividade, a mesquinharia e a verdadeira essência desses 4 seres vai aos poucos se revelando, mostrando um retrato do senso de moralidade e a podridão da nossa sociedade.

A todo momento a conversa vai sendo interrompida pelo celular de Alan(Christopher Waltz), um cínico advogado de uma empresa multinacional da indústria farmacêutica acusada de fabricar remédios que produz graves efeitos colaterais. Já sua mulher, Nancy(Kate Winslet), é elegante, educada e à princípio constrangida pelo comportamento inoportuno do marido. O outro casal é formado por Penélope(Jodie Foster), mulher de princípios rígidos, com mania de arrumação, sensível, amante das artes e seu simplório marido(John C. Reilly), um vendedor de produtos domésticos à principio bonachão e gentil mas que aos poucos revela seu lado truculento.

O trio interpretado por Christopher, Kate e Reilly consegue permanentemente manter a alta tensão do filme com a força dos seus diálogos e suas interpretações, a nota destoante fica por conta de Jodie Foster, a ponto de não sabermos se a chata é sua personagem ou a velha Foster de sempre.

Deus da Carnificina” é um filme menor de Polanski, porém não significa que seja pior que seus filmes anteriores, pelo contrário, é um bom filme. Polanski demonstra que mesmo fazendo filmes completamente diferentes no tamanho, ambientação e na escala, sente-se à vontade para achar o tom que cada filme necessita.


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