Crítica: Django Livre


 

Antes de mais nada devo confessar que não gosto de Quentin Tarantino. Incomoda-me seu cinismo e o personagem que criou para si, do pseudo ignorantão, mais um intuitivo que técnico, quando na verdade sabemos que não é verdade. Tarantino tem todo o domínio de sua arte, sabe perfeitamente o que quer, para aonde quer ir e como fazer para alcançar seu objetivo. Sempre foi assim, desde seu primeiro filme, “Cães de Aluguel”. Sei reconhecer suas virtudes, sabe falar do vazio americano como ninguém, escreve diálogos primorosos e é um estupendo diretor de atores. Ressuscitou e tirou grandes desempenhos de atores decadentes ou notórios canastrões, como um John Travolta, um David Carradine, entre outros.

Mas devo dizer que apesar de toda minha má vontade achei “Django Livre” um belo filme. São 2 horas e 40 minutos de um grande vigor, tudo tão bem ritmado que nem se nota a duração do filme. Todas as suas virtudes que citei acima estão permanente presentes nele e os defeitos que citei estão um pouco mais diluídos. Assim como mais uma vez sua trilha sonora é um espetáculo a parte.

Django Livre” tem seu título tirado de um clássico do western spaghetti dos anos 60, “Django”, filme protagonizado por Franco Nero, que faz uma participação no filme de Tarantino. Em 1858, às vésperas da guerra civil americana, o escravo Django(Jamie Foxx) é libertado de um destino cruel pelo caçador de recompensas Dr King Schultz(Christoph Waltz). Django o acompanha em suas atividades buscando e matando alguns dos criminosos mais procurados do sul dos Estados Unidos, aprendendo todos os segredos dessa atividade. O seu principal objetivo é encontrar e resgatar sua esposa Broomhilda(Kerey Washington) adquirida pelo escravocrata Calvin Candle(Leonardo Di Caprio), dono de uma das maiores plantações da região e também um dos fazendeiros mais cruéis da região.

Django” está indicado em cinco categorias: Melhor filme, ator coadjuvante, roteiro, fotografia e edição de som. Em relação à indicação de ator coadjuvante, Mais uma vez os irmãos Weinstein, produtores do filme, dão o velho golpe da indicação ao Oscar de um ator principal como coadjuvante. Assim fizeram com Juliette Binoche em “O Paciente Inglês” e Catherine Zeta-Jones em “Chicago”. Mas o caso mais gritante foi Javier Bardem em “Onde os Fracos não têm Vez”. Christoph Waltz está soberbo, seu personagem é fascinante e seus diálogos saborosíssimos, mas para mim ele é tão protagonista quanto Jamie Foxx e não seria injustiça se ele fosse indicado na categoria de Ator Principal, mas na categoria de coadjuvante ele entra como um dos favoritos.

Não é só Waltz que está muito bem, todos estão ótimos, afinal como já disse, Tarantino é um excepcional diretor de atores. Jamie Foxx e Di Caprio perfeitos. Samuel L Jackson irreconhecível, só quando acabou o filme é que fui alertado quem era ele. Don Johnson entra na lista dos notórios canastrões ressuscitados por Tarantino.

Mas Tarantino é Tarantino e não resiste aos seus “clichês tarantinescos”, seus cacoetes, que uma alma benevolente poderia denominar “estilo”.  É mais forte que ele e na parte final tem que soltar seu festival de sangue jorrando pelas paredes e o seu herói matando 50 homens armados até os dentes.

Mas a homenagem a Sergio Leone feita por Tarantino é muito bem sucedida, com direito até a Ennio Morriconi e Luis Enriquez Bacalov, duas das verdadeiras essências do gênero, levando ao arrepio os insones que vagavam pelas madrugadas assistindo aos velhos western spaghettis de Franco Nero ou Giulianno Gemma.


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