Editorial: Recuperamos nossa Capacidade de Indignação


 

 

 

Nesse momento tudo que paira no ar são as dúvidas. O que querem? Contra quem protestam? Por que fazem?

Essa falta de certezas talvez seja a grande angústia de quem está do outro lado do balcão. Como é possível um movimento chegar aonde chegou sem que se conseguisse identificar uma liderança física? Só enxergam lideranças difusas e sem articulação nos mais diferentes centros do país. Não existem partidos por trás, não há uma Central Sindical, não há a UNE, a OAB. Atordoados continuam a perguntar: O que querem, por Deus?

Tudo começou com um pequeno grupelho protestando contra o aumento das tarifas de ônibus e pela reinvindicação do passe livre em São Paulo e em poucos dias o país se transformou num enorme caldeirão, com a Av Paulista, av Rio Branco e Praça dos Três Poderes completamente tomadas por um sentimento coletivo de cidadania e de indignação. Desde as famosas greves do ABC nos final da década de 70 que não se fez nenhum grande ato ou manifestação nesse país sem que tivesse(para o bem e para o mal) a participação do PT. Mas agora essa falta de liderança política serve apenas para deixar quem nos governa sem referências. “Quem vamos acusar?”, se perguntam no Palácio do Governo(seja lá em que Palácio for)

É uma manifestação claramente com intenções políticas para desestabilizar o governo”! Bradariam as autoridades vigentes em qualquer tipo de situação nessas horas. Mas agora eles não sabem contra quem dizer tal chavão. Em São Paulo fica mais difícil ainda. Protestam contra Alckmin! “Ah! Então é coisa de petista”, podem dizer alguns. Ué, mas gritam também contra Haddad!!!! “Ah! Então é coisa de tucano”, podem dizer outros numa confusão mental que toma conta da classe política.

Durante as passeatas, alguns grupos políticos ensaiaram tentar tomar o protagonismo e a frente das manifestações, como PSOL e PSTU. Tomaram logo um chega prá lá. Esse movimento é apartidário! É lindo ver a multidão mandando abaixarem suas bandeiras para não desqualificar o genuíno grito das ruas.  É lindo ver o povo gritando a plenos pulmões que eles não tinham partido! Aquelas pessoas não queriam ser vistas como pau mandados de partidos, estavam lá apenas por suas consciências. Os partidos políticos “não as representam”.

Afinal, o que querem? Talvez nem elas saibam. Só sabem que tem dentro de si um grito de indignação. Foi por esse país que está aí que seus pais saíram às ruas em 84 para pedir DIRETAS JÁ??? Foi por isso que saíram para gritar FORA COLLOR???

O aumento das tarifas de ônibus foi a gota dágua que fez derramar a indignação, em São Paulo. Como uma epidemia, se alastrou por todo o Brasil. Saem não só pela tarifa de ônibus. Muitos ali nem usam transporte público. Saíram por tudo que está aí: mensaleiros, Marcos Feliciano, Renans Calheiros, Henriques Alves, Sarneys, Cabral e seus amigos empreiteiros, assembleias legislativas que fazem o que querem, um congresso nacional que ignora a vontade popular, policiais corruptos e violentos, a impunidade, a roubalheira, o descaso. Querem uma saúde pública, educação e transportes com padrão FIFA. Ética é a palavra chave. Mas o cheiro de podridão e do esgoto deixa cada dia o ar mais irrespirável.

À beira da Copa do Mundo, vemos as empreiteiras e governos fazerem com os estádios o mesmo que fazem com qualquer obra pública nesse país. Só que dessa vez não passaram desapercebidos e ignoravam o que esse gigante anestesiado ainda tivesse o poder de se indignar. Como sempre, ganharam concorrências viciadas, cobrando preço X, porém com o poder dos aditivos contratuais cada estádio acabou saindo por X+ Y + Z. E cadê as obras de mobilidade urbana? Cadê o legado?

A percepção que me passou é que há uma diferença no foco dos protestos de São Paulo, Rio e Brasília. Havia uma pauta em comum, mas em cada uma dessas cidades percebi uma ênfase diferente, o que de certa forma comprova a tese de uma falta de articulação e de liderança nacional, o que acho positivo. Em São Paulo, o tema principal é realmente as tarifas de ônibus. No Rio, senti que havia uma reinvindicação por ética e justiça. Já em Brasília fiquei com a impressão que a PEC 37 era o carro chefe.

Outro aspecto interessante foi de certa maneira o simbolismo de onde acabaram essas 3 passeatas, sem entrar no mérito da violência utilizada por uma minoria de vândalos. No Rio terminou em frente à ALERJ, em São Paulo em frente ao Palácio dos Bandeirantes e em Brasília no Congresso Nacional. Será coincidência a escolha de 3 lugares tão emblemáticos de cada uma dessas cidades? Ou foi a força do inconsciente coletivo?

Assim como a vaia que Dilma levou na abertura da Copa das Confederações não foi fruto de orquestração. Lógico que prontamente desqualificada como algo feito por meia-dúzia de integrantes da elite.

Mas é preciso ter os pés no chão. Os “ativistas de Facebook” já estão colocando banners com a foto de Dilma pedindo seu Impeachment. Calma lá minha gente. Não há razão para tanto. E basta lembrar que se isso vier a acontecer teremos na presidência…Michel Temer!!!! E se Temer não assumir entra o presidente do Senado, que é…..Renan Calheiros. E se esse for impedido, quem assume é…Henrique Alves, Presidente da Câmara. Portanto, vamos continuar vaiando Dilma quando tivermos que vaiar e aplaudir quando for justo, mas deixemos a mulher aonde está.

O mais importante já está feito, recuperamos nossa capacidade de nos indignar.


Palpites para este texto:

  1. Achei o texto sensacional. Realmente fica claro que nao existe um unico foco, e em muitos momentos sem foco algum. Hoje teve uma manifestacao pequena na frente do consulado Brasileiro em DC (washington) e gritavam, “se a tarifa nao abaixar o mundo vai parar”. Essa frase na minha opiniao mostrou a falta de consciência e um pouco (talvez muito) a idea do oba-oba do irei conforme a onda. Mas enfim, acho muitissimo valido o povo lutar pelo o seu direito e lutar pacificamente.

    Obrigada pelo o texto/post,
    Kelly

    • Obrigado, Kelly. Na verdade está todo mundo tentando entender e decifrar o que está acontecendo. Na televisão inúmeros comentáristas e sociólogos tentam compreendê-lo. Provavelmente nem quem participou tenha um motivo específico. As pessoas protestavam porque estão fartas de tanto descaso, corrupção, impunidade, etc, etc. O aumento da tarifa foi o estopim que detonou essa bomba que agora os governos não sabem como desarmar.

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