Edu Lobo – 70 Anos


 

Edu Lobo está completando 70 anos. Já escrevi sobre Edu no tempo em eu que frequentava um outro botequim, mas diante do simbolismo da data e da sua grandiosidade, Edu vale  inesgotáveis textos.

Mesmo para mim, nascido em 1970, causa-me impacto a imagem daquele jovem de ar um tanto tímido e gestos contidos naquela noite antológica de 1967 no teatro Paramount em que os versos daquela canção feita em parceria com Capinam arrebatava o país, como podemos acompanhar no belíssimo documentário de Renato Terra, “Uma Noite em 67”.

 

– Quando você olha pro Edu de 67 com 22 anos, como você encara aquele garoto? Pergunta Renato Terra.

Edu respira fundo e faz uma reflexão:

Pois é…engraçado, eu não encaro muito como um garoto. Minha vida era de certa forma, mais madura. Me preocupava muito com essas coisas, com carreira, com a música e eu acho que sempre fui muito obsessivo com isso, sei lá, que tipo de música fazer, quanto tempo vou durar, quando vai acabar esse negócio de fazer música, entendeu. Como se fosse um feitiço que pudesse durar pouco tempo e acabar. Eu via muito essa coisa de compositores do mundo inteiro que esta não sei aonde, aí veio a idéia de uma melodia genial que o cara saiu correndo pra casa e tal. Eu nunca tive uma melodia que veio atrás de mim.  

A força da música de Edu naquele momento nacional foi tanta, que declinou da possibilidade de virar um astro. Seu temperamento e personalidade não permitiriam. Saiu do país no auge da popularidade para estudar orquestração nos Estados Unidos. Queria sair cantor e voltar compositor. Assim ocorreu.

De 1965 para cá, quando Elis Regina arrebatou com “Arrastão”, Edu Lobo construiu uma das mais sólidas carreiras da música brasileira. Certa vez Adriana me fez uma pergunta desestabilizadora: Quem é melhor, Chico Buarque ou Edu Lobo?  Mesmo para um apaixonado pela obra de Chico, da qual me gabo de conhecer TODAS as músicas, tal questionamento me deixou confuso. Respondi com o silêncio, deixando correr o DVD “Vento Bravo” que assistia naquele momento. O fato é que qualquer parceria de Chico Buarque com Edu Lobo é sempre um momento da mais plena elevação artística.

 

Esse DVD “Vento Bravo”, citado acima, é um belíssimo retrato para compreendermos melhor o homem que está por trás dos clássicos eternos.  É daqueles trabalhos que devemos guardar para o resto de nossos dias em na estante para revermos sempre de tempos em tempos. Extremamente revelador e tocante, como quando Edu fala sobre Torquato Neto, seu parceiro em “Pra Dizer Adeus”. Edu conta o impacto quando soube através de uma notícia dada no rádio sobre o suicídio cometido por Torquato e acaba fazendo uma nova releitura daquela letra. Uma letra parecia ser de amor se transforma subitamente numa despedida: Adeus/ Vou prá não voltar/ E onde quer que eu vá/ Sei que vou sozinho/ Tão sozinho amor/ Nem é bom pensar/ Que eu não volto mais/ Deste meu caminho…” Chico Buarque dá um depoimento interessante, ao dizer que após a Bossa Nova, Edu Lobo tenha sido sua maior referência no início de carreira. Ele cita algumas de suas canções do período mostrando-as como mera influência da bossa nova, até que apareceu a música de Edu na sua vida e pôde descobrir que havia outros caminhos a seguir.Tentando fazer um retorno no tempo, creio que posso imaginar o impacto e talvez a ruptura, que a música de Edu tenha causado naquele período um tanto turbulento de nossa história. Num período que a música brasileira ainda vivia de “um cantinho, um violão, um amor e uma canção” surge a força das músicas de Edu como “Arrastão” e “Ponteio”. Era realmente algo novo e vigoroso, vindo daquele violão comandado por um jovem tímido, influenciado pela cultura popular, pelo cultura nordestina, a própria bossa nova, Villa Lobos, João do Vale, Sérgio Ricardo, Carlos Lyra(em fase de negação à bossa nova) e principalmente, com um forte conteúdo social. Outro momento que vale muito: o encontro de Edu com Gianfrancesco Guarnieri(na sua última aparição em vida na televisão) realmente dava para notar a debilidade física de Guarnieri. Juntos fizeram o “Arena Canta Zumbi”, em especial “Upa Neguinho”.

É interessante acompanhar a evolução artística de sua obra, daquelas primeiras influenciadas pela cultura popular e pelo turbilhão daqueles anos 60 aonde havia permanentemente um elemento impactante até se tornarem mais sofisticadas melodicamente e harmonicamente já nos anos 80, quando lança junto com Chico Buarque “O Grande Circo Místico”, uma trilha composta para o ballet do Teatro Guaíra que se tornou um dos maiores discos já lançados no Brasil.

 

Nesses 50 anos, a música de Edu ganhou letras de alguns dos maiores letristas brasileiros como Vinícius de Moraes, Abel Silva, Cacaso, Capinam, Chico Buarque, Gianfrancesco Guarnieri, Joyce, Paulo César Pinheiro, Ronaldo Bastos, Ruy Guerra, Torquato Neto, além do próprio Edu, que embora tenha feito pouquíssimas letras na carreira é autor de um das mais belas e singelas: “Cordão da Saideira”.

 

Após a morte de Tom Jobim, em minha opinião Edu passou a ser o mais completo compositor da nossa música, por isso a data simbólica de 70 anos é um momento que deve ser aproveitado para podermos lembrar de sua trajetória, viajar ao longo de sua vastíssima obra, relembrar fatos marcantes, ouvir histórias curiosas e apreciar toda a riqueza das suas melodias.

Quanto ao dilema me imposto pela Adriana, respondi “salomonicamente” que considero Chico o melhor letrista e Edu o melhor “melodista” da música brasileira. Resposta que me rendeu a acusação de ter ficado em cima do muro. Pode ser, mas é o que realmente penso, são dois gênios, cada um na sua seara, que quando se juntam produzem algumas das mais lindas canções que já ouvi em minha vida. Embora também ache que Chico é um ótimo músico e Edu um ótimo letrista(haja visto “Cordão da Saideira”, que é uma das minha músicas favoritas). Mas que Edu é muito mais afinado que Chico, isso é.

Abaixo, entrevista de Edu Lobo para a Globo News


Palpites para este texto:

  1. Há quem diga que as melhores obras do Chico Buarque é quando ele compõe em parceria,sei lá.Só sei que Edu e Chico,quando trabalham juntos,são complementares.

  2. claudio sila coutinho -

    Boa noite. Ha anos, desde que ouvia a Radio Jornal do Brasil tinha a satisfação de ouvir na interpretação de Emilio Santiago a música Cena Breve – Edu Lobo e Cacaso. O disco é o Amor de Lua ultima faixa. “… Como é que vai? Que bom ti ver, eu ia mesmo te escontrar, não me esqueci, é cedo ainda, espere mais …. VC terá essa letra.

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