Crítica: Elefante Branco


 

Os (raros) críticos do atual cinema argentino costumam dizer que se ele limita a falar dos problemas e angústias existenciais da sua pequena burguesia. Certamente ignoram nomes fundamentais como Pablo Trapero e Adrian Caetano. Talvez não tenham visto filmes excepcionais deles como “El Bonaerense”, “Leonera”, “Un Oso Rojo”.

Agora Pablo Trapero nos trás seu último filme, que estreou esta semana , “Elefante Branco”, protagonizado por Ricardo Darín, Jérémie Renier e Martina Gusmán. “Elefante Branco” é puro favela-movie, bem ao estilo brasileiro e passa bem longe da classe média portenha.

Ambientado numa favela na periferia de Buenos Aires que cresceu em torno do esqueleto de um enorme prédio inacabado, projetado para ser o maior hospital da América Latina. Com o abandono do prédio vieram as invasões, o crescimento desordenado, a violência, a marginalização, o abandono, o tráfico de drogas e tudo mais que conhecemos bem por essas paragens. O sacerdote Julián(Darín) tem como missão de vida amenizar a vida e os problemas dos habitantes da comunidade, tendo que lutar contra a violência policial, a burocracia da máquina pública e a guerra entre gangues de traficantes. Para lhe ajudar no seu trabalho, resgata das selvas peruanas o Padre belga Nicolás(Renier) e ainda conta com o apoio da assistente social Luciana(Martina Gusman). Mas como de boas intenções o inferno está cheio, nem sempre conseguem alcançar seus objetivos e a compreensão do sistema vigente. O trio arrisca sua vida para defender seu compromisso e sua lealdade com os moradores do bairro.

Mais uma vez Trapero nos mostra sua visceralidade, não poupando o espectador da violência, retratando com intensidade e realismo esse universo pouco conhecido da região da Grande Buenos Aires. Realizando um filme que possui uma narrativa por vezes dura, mas muito envolvente. A Buenos Aires de Trapero não é a Recoleta e nem Palermo, é a periferia que interessa Trapero. Aquela que quando saímos do aeroporto de Ezeiza e pegamos a estrada rumo a Buenos Aires ignoramos as placas indicando sua entrada, como  La Matanza, por exemplo, aonde turistas nem sonham em chegar perto.

Aqui na capital achamos que lá é o endereço da delinquência, mas quem vive ali são os que vêm fazer nossa comida, limpar nossa casa, são gente comum. O cinema brasileiro está mais habituado a retratar esse mundo; aqui isso não é usual. Ninguém vai lá.”

Disse Trapero à Folha de São Paulo.

Trapero para alcançar seu objetivo conta com a contribuição sempre valiosa e correta de Ricardo Darín e principalmente do ator belga Jérémie Renier. Renier começa a se firmar como um dos mais interessantes atores europeus contemporâneos, depois de ter tido uma atuação perfeita em “My Way”, aonde incorporou o cantor francês Claude François.  Desta vez interpreta com grande equilíbrio um padre europeu, idealista, repleto de angústias internas, que reage por instinto aos conflitos que enfrenta.

Mais um grande filme de Trapero, num filme humanista e com altíssimo teor de crítica social.


Palpites para este texto:

  1. Francisco Carneiro da Cunha -

    Respondendo ao Questionário Proust, meu pai (1917-1979), à pergunta Quais os heróis da vida real que mais admira, respondeu: Os missionários urbanos. Assistindo a esse belo filme eu quase fui obrigado a concordar com ele, em que pese minha bronca com todas as igrejas do cristianismo oficial espalhadas pelo globo. De fato, um filme belíssimo mercê de sua história, de seus atores e de sua direção. Bravo!

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