Em Breve: Makunaíma, o Outro


 

Makunãima

Um Macunaíma diferente daquele que foi eternizado por Mário de Andrade. É o que o grupo do Núcleo de Estudos das Performances Afro-Ameríndias (NEPAA) propõe na comédia dramática  “Makunaíma, o Outro”, que estreia dia 20 de novembro, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Zeca Ligiéro, autor e diretor da colagem cênica feita em cima da pesquisa do NEPAA, apresenta a história produzida a partir do trabalho do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, que estudou os povos indígenas da América do Sul – a obra também serviu de base para o escritor brasileiro escrever Macunaíma – o herói sem nenhum caráter. A peça será apresentada na sala 26, que fica no 4º andar do CCBB, de quinta a domingo, às 19h30, até 18 de janeiro de 2015.

A produção levou quatro anos para reunir todo o material para a peça, que foi montada em três meses de trabalho. No palco, só mulheres: Emilia Alcoforado (Makunaíma),  Marise Nogueira (Theodor Koch-Grünberg), Débora Campos e Rachel Araújo (que se revezam em vários papéis), tendo ainda Tainá Louven (Stand-in). Elas encenam a historia das rápidas transformações no norte da Amazônia experimentadas por um etnólogo alemão e registradas em seu  diário e das lendas ouvidas, além de filmes sem som e cantos gravados entre 1911 e 1913.  Zeca Ligiéro optou por um elenco de mulheres para dar uma versão menos “heroica” e mais eficiente deste encontro de culturas europeia e ameríndia.

A narrativa fala sobre homens (europeus e nativos) no meio da selva, procurando recriar a realidade desfazendo os estereótipos sobre o já conhecido  “Macunaíma”, personagem de ficção preguiçoso e sem caráter constantemente associado ao índio brasileiro que enxergamos na ideia nacionalista de Mário de Andrade. “Makunaima, o Outro” cerca-se de atributos de uma divindade mágica e transformadora, mas, sobretudo, de um caráter de desobediência e de um profundo apetite, que no campo das tradições afro pode se aproximar da ideia de Exu, segundo o diretor. “Quando soube que Mário de Andrade havia lido em alemão as histórias que deram origem ao seu Macunaima fiquei curioso. Afinal queria saber mais sobre o lado indígena do Macunaima, uma vez que no romance o personagem é muito mais um mestiço que propriamente um ameríndio. Ao conhecer os mitos fiquei fascinado, e quis conhecer o diário do Koch-Grunberg”, conta Zeca Ligiéro.

“Após ver o nosso espetáculo o espectador poderá se perguntar: mas, afinal, quem é este tal de Makunaima?  A resposta completa talvez não consigamos dar conta. Mas não enganamos o público com truques, tudo o que sabemos sobre ele foi através da ótica do alemão Theodor Koch-Grünberg, e por isso nos debruçamos sobre a historia da descoberta dos mitos a ele relacionados em busca de um entendimento sobre o pensamento mágico que levou a criar este misterioso personagem”,  explica o diretor. A montagem pretende aproximar o espectador das músicas, dos rituais, das imagens do universo ameríndio e sua cosmovisão, sem pretender criar um teatro documentário, mas utilizando-se de alguns códigos contemporâneos de forma que a viagem do alemão possa ser reatualizada e vislumbrada como a de muitos outros antropólogos que entram ainda hoje (cem anos depois) nas selvas e savanas da África, Américas e Ásia em busca dos materiais dos selvagens, os indígenas, o “outro” que tanto fascina e que ainda assim amedronta com seus rituais antigos e seus hábitos não “civilizados”.

Destacam-se os 10 números musicais em que o elenco canta, dança e toca instrumentos (flauta, banjo, percussão e sanfona). Os personagens estão embutidos em inúmeras narrativas, nas quais os animais também fazem parte e contracenam com humanos, já que dentro da cosmovisão ameríndia toda a natureza é parte da inteligência divina. “Para o espetáculo aprendemos músicas das tribos que foram gravadas pelo alemão, assim como músicas contemporâneas cantadas pelas tribos Macuxi e  Taulipang. “Falamos deste embate ocorrido há exatamente cem anos, mas reflexionando sobre o que pode estar acontecendo hoje na região do entorno do Monte Roraima. Aliás, Macunaima, ou melhor, Makunaima, não é brasileiro, mas latino-americano já que a maioria dos Taulipang estão na Venezuela e na Guiana Inglesa”, explica Ligiéro.

Sobre o NEPAA

Em atividade desde 1998, o Núcleo de Estudos das Performances Afro-Ameríndias (NEPAA) foi inicialmente concebido para abrigar os estudos culturais afro-brasileiros e ameríndios, valorizando tanto as atuações sociais quanto as performances artísticas em suas relações com diversas comunidades e seus contextos históricos e políticos. Ao longo dos anos, o objetivo do NEPAA se ampliou ao privilegiar outras estéticas também não hegemônicas, abrindo espaços para pesquisa e criação de uma arte que se articula tanto com as tradições, como com a contemporaneidade e, portanto, passou a incluir áreas como o teatro do oprimido, o teatro de rua e a arte relacional entre outros.

Atualmente, o NEPAA conversa com pesquisas contemporâneas sobre performance arte, ativismo politico, arte relacional, teatro político e teatro de rua, teatro de brincantes, além daquelas performances culturais ligadas às tradições afro-brasileiras e ameríndias que deram origem ao Núcleo.

Sobre o diretor Zeca Ligiero

Doutor em Performance Studies pela New York University, Estados Unidos (1998) e pós-doutor em Performance Studies pela NYU, Estados Unidos (2002). Linha de Pesquisa: Estudos da performance e discursos do corpo e da imagem. Zeca Ligiéro possui graduação em Direção Teatral pela UNIRIO (1972), mestrado (1988) e doutorado (1997) em Performance Studies – New York University.

Atualmente é professor associado da UNIRIO e coordenador do Núcleo de Estudos das Performances Afro-Ameríndias (NEPAA). Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Direção Teatral, atuando principalmente nos seguintes temas: performance, performance afro-brasileira, cultura afro-brasileira, cultura popular e teatro experimental e pedagocia teatral.

Entre seus livros destacam-se “Divine Inspiration from Benin to Bahia” (1993, EUA), “Iniciación al Candomblé” (1995, Colômbia), “Malandro Divino, a vida e a lenda de Zé Pelintra” (2004), “Carmen Miranda: uma performance afro-brasileira” (2007, Brasil) e “Teatro e dança como experiências comunitárias”, organizado com Victor Hugo Adler e Narciso Teles (2009). Atualmente é o curador do Acervo Augusto Boal na UNIRIO.

FICHA TÉCNICA
Texto e Direção: Zeca Ligiéro
Elenco: Emilia Alcoforado, Débora Campos, Marise Nogueira, e Rachel Araújo
Stand-in: Tainá Louven
Assistente de direção: Tainá Louven e Raisa Mousinho
Cenografia e adereço: Carlos Alberto Nunes
Assistente de cenografia: Marcello Vilar
Cenotécnico: Divany Souza e Alvarito Sosa
Figurino: Daniele Geammal e Luna Santos
Assistente de Figurino: Thársila Rocha
Costureira: Inês da Conceição Costa
Direção musical: Chico Rota
Trilha: Chico Rota, Zeca Ligiéro e domínio público
Preparação corporal: Denise Zenicola
Assistência ameríndia: Germando Wapishana
Criação de máscara: Marise Nogueira
Assistente de confecção de máscara: Flávia Lopes
Macramê (trama) das mascaras: Emilia Alcoforado
Desenho e operação de luz: Luiz Miguel
Montagem de luz: Raisa Mousinho
Operador de som e video: Ramon Alcântara e Telma Lemos
Assessoria de imprensa: Mais e Melhores
Projeto gráfico: Fernando Nicolau e Bruno Dante
Fotografia: Flavia Fafiães
Produção: Marta Paiva
Assistente de produção: Jéssica Esteves
Coordenação de Produção: Marise Nogueira e Quinto Elemento Produções Artísticas
Projeto e Idealização: Zeca Ligiéro
Realização: Quinto Elemento Produções Artísticas e Grupo Nepaa


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