Entrevista: Adriano Coelho


 

Por Renato Mello

rsz_1b_adriano_coelho_iiSubverter uma das grandes obras teatrais da história é a proposta por Adriano Coelho e Beto Bruno com seu espetáculo “Édipo Rei, um Acidente Mitológico”, em cartaz no Teatro Ipanema até 9 de abril.

Segundo a autora do texto Laura Rissin, “a proposta é fazer um espetáculo divertido, satirizando uma tragédia tão definitiva. O humor ajuda a lidar com as questões tratadas na peça, que nessa versão inclusiva, cita diferentes formas de amor ”. A partir da sua dramaturgia, o espetáculo busca extrair os aspectos cômicos das linhas originais de “Édipo Rei”, a tragédia que Sófocles escreveu em 427 A.C.

O espetáculo foi montado sem nenhum patrocínio, exclusivamente pelo esforço pessoal dos produtores Adriano Coelho e Beto Bruno, com a contribuição de todos os criadores  envolvidos no processo. Nesta entrevista ao Botequim Cultural,  Adriano Coelho, que assina também a direção, revela como surgiu a ideia de adaptar a obra, o processo de criação, sua percepção sobre a receptividade do espetáculo e as dificuldades encontradas na viabilização de projetos culturais no Rio de Janeiro.

Foto: Junior Fritto

Foto: Junior Fritto

BC: – Que elementos de “Édipo Rei” despertaram seu desejo de criar o espetáculo?
AC: – Acredito que o trágico e o cômico andem lado a lado. Então, diante de um texto tão trágico, tão fundamental, por que não exercitar o humor, a ironia crítica? Tem também um aspecto específico de “Édipo Rei” que eu gosto muito e que não está tão presente em outros textos trágicos: o tom investigativo. Édipo quer descobrir sua origem e vai até as últimas consequências para conseguir. Às vezes me sentia lendo um romance de tribunal.

BC: – Para subverter é fundamental conhecer profundamente a obra matriz. Como foi esse processo de imersão na obra de Sófocles para criar sua visão particular?
AC: – Em 2002, conheci Laura Rissin, a autora do texto. Estávamos numa mesma equipe de um programa de tv. Era meu primeiro trabalho nesta área. Ficamos amigos e resolvemos estudar as tragédias gregas, sabe-se lá o porquê(risos). Na leitura de “Édipo Rei”, paralisamos. O texto é muito forte, muito bom.  Acredito que para digerir toda aquela tragédia, acabamos resolvendo parodiar tudo o que estava ali. Foi inevitável. Deste processo todo, Laura escreveu o texto.
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BC: – Que aspectos da obra original foram mais considerados na dramaturgia de Laura Rissin e de que maneira foram trabalhados dentro do que vocês propunham? Como se deu esse processo até o resultado final? Quais foram os maiores desafios?
AC: – Laura escreveu o texto entre 2002 e 2003. Como disse, na época estudamos o original, debatemos e Laura escreveu.  Anos mais tarde, quando reencontrei meu amigo Beto Bruno(ator e produtor) o convidei para montarmos o texto. Como haviam se passado mais de dez anos, procurei Laura e pedi que ela atualizasse alguns trechos e reescrevesse o final, para dar mais teatralidade ao texto. Foi com esse texto alterado que procuramos elenco e iniciamos as leituras e, em seguida, ensaios. Laura é muito talentosa, experiente roteirista de tv e cinema e faz parecer ser muito fácil todo esse processo. Mas, é claro, que foi trabalhoso e exigiu muitas revisões. O maior desafio num trabalho desses é não cair num humor burro, tosco, raso. Fomos atrás de um humor inteligente que se comunicasse com a público.
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Foto: Junior Fritto

Foto: Junior Fritto

BC: – Para traduzir em humor uma obra clássica, existe algum tipo de limite ou tudo é permitido? É possível transformar uma tragédia numa comédia e ainda assim encontrar a essência da obra original?
AC: – É um terreno muito perigoso. Mas, como já disse antes,  o trágico e o cômico andam lado a lado. A questão é exercitar a comédia inteligente, atingir um lugar de crítica que só o humor consegue chegar. A essência da obra original está lá: Édipo continua procurando sua origem.
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BC: – Quais foram seus maiores desafios na concepção cênica do espetáculo?
AC: – O texto é ambicioso, se passa em Tebas, com coro, ação, etc. O meu maior desafio como encenador foi dar movimento, ritmo e cadência para toda a ação descrita. E, também, verdade aos diálogos dos atores.
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BC: – Que percepção você tem tido da acolhida do público com “Édipo e o Rei, um Acidente Mitológico”?
AC: – Fizemos poucas sessões até agora, mas o público tem sido incrível. É impressionante como o espetáculo cresce com a plateia. Vale notar, também, que há momentos em que não imaginávamos que a plateia reagiria, nos surpreendemos com as reações.
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BC: – Como se deu a escolha do elenco? Que qualidades você enxerga nos seus atores para conduzir sua história?
AC: – Procurei por atores de teatro. Pedi indicações para amigos da área e marquei algumas leituras do texto. Eu já conhecia o Beto Bruno(que produz o espetáculo e interpreta o Creonte), a Gabriela Rosas (atriz paulista que interpreta Jocasta), o Francisco Vitti(que interpreta Édipo), o Breno Motta ator de Minas que se divide entre o coro e Tirésias e pastor) e o José Karini Laio).  A estes juntou-se o Cadu Libonati coro e corifeu) e Ranther Mello (coro e mensageiro). São todos talentosos, versáteis e estavam muito disponíveis para as minhas ideias. Além disso, nos ensaios, contribuíram muito para encenação com suas sugestões.
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BC: – Você viabilizou o espetáculo sem patrocínios, com recursos próprios. Foi uma opção pessoal ou você percebe uma retração grande de agentes públicos e patrocinadores para viabilizar projetos culturais?
AC: – Não existe uma política cultural na cidade. Fato! Durante anos, Beto e eu tentamos viabilizar o projeto via editais, leis de incentivo. Não conseguíamos captar. Enfim, acabamos resolvendo arcar com as despesas. Contamos com alguns apoios culturais e com uma equipe técnica formada por talentosos amigos, que toparam trabalhar de graça. Sem eles, não conseguiríamos. Faço questão de citá-los: Lessa de Lacerda( figurinos), William Andrade (iluminação), Matheus VK (trilha sonora), Thiago Willians (direção de movimento), João Irênio (cenografia) e Carla Nascimento ( direção de produção).
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BC: – Dentro desse tipo de “engenharia financeira” que você se utilizou, você vislumbra algum retorno financeiro ou esse aspecto era secundário?
AC: – Não faço este tipo de expectativa. Encaro como um investimento na minha carreira. Valeu cada centavo que gastei. Aprendi muito. É como se eu tivesse feito um MBA em direção e produção teatral(risos).
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BC: – Que expectativas você tem para a carreira “Édipo e o Rei, um Acidente Mitológico”?
AC: – Já estou muito feliz que estejamos em cartaz.  Mas, é claro, que quero vida longa para a peça. Desejo que a gente circule por alguns teatros no Rio e, depois sigamos carreira para outras cidades. Quero muito ir para São Paulo com a peça. E festivais também.

Foto: Junior Fritto

Foto: Junior Fritto

FICHA TÉCNICA
Direção: Adriano Coelho
Texto: Laura Rissin
Direção de Produção: Beto Bruno e Carla Nascimento

Elenco: Francisco Vitti, Gabriela Rosas, José Karini, Beto Bruno, Breno Motta, Cadu Libonati e Ranther Melo

Figurino: Lessa de Lacerda
Iluminação: William Andrade
Trilha Sonora: Matheus Von Krüger
Coordenação de comunicação: Cristiana Lobo
Assessoria de Imprensa: Cristiana Lobo
Mídias Sociais: Natália Voss e Grasiele Schmit
Design: Dani Cabral e João Galhardo
Realização: Evoé Produções Artísticas

Serviço:
“Édipo e o Rei, um acidente mitológico”
Temporada: 25 de março a 09 de abril
Local: Teatro Ipanema
Endereço: R. Prudente de Morais, 824 – Ipanema, Rio de Janeiro
Horário Nobre: Sábado, às 21h, domingo e 2ª às 20h
Ingressos: R$ 40,00 (inteira) R$ 20,00 (meia)
Capacidade: 222 lugares
Telefone: (21) 2267-3750
Duração: 60 minutos
Classificação: 14 anos


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