Entrevista: Agatha Duarte


 
Foto Danilo Sérgio

Foto Danilo Sérgio

Por Renato Mello.

Um dos grandes destaques da temporada teatral de 2015, como atriz e  dramaturga, Agatha Duarte volta aos palcos teatrais. Agora para atuar em “O Matador de Santas“, remontagem do texto de Jô Bilac. Nessa entrevista Agatha Duarte nos fala sobre esse novo espetáculo e sobre o grande êxito de sua “Em um Lugar Chamado Lugar Nenhum“.

BC:- Gostaria que você comentasse um pouco sobre seu trabalho dentro do Grupo Teatral LoucAtores.
AD:- O LoucAtores tem uma linda trajetória. Apesar de não fazer oficialmente parte do grupo, realizo alguns trabalhos com eles dos quais tenho muito orgulho. Esse ano de 2016 está sendo especialmente importante, pois o grupo completa dez anos de estrada com diversos prêmios e críticas positivas no currículo. Certamente não é algo muito comum de se encontrar nos dias de hoje.
Fiz meu primeiro espetáculo com o LoucAtores em 2014: o infantil “Jubaia, o recanto das cores”. Desde então, continuo com o grupo rodando os SESCs do Rio de Janeiro com dois trabalhos infantis. No final do ano retrasado eles me presentearam com o convite para participar da montagem do “Matador de Santas”, um premiado texto do Jô Bilac e eu, é claro, aceitei de imediato.
Além dos que eu participo, o grupo LoucAtores tem muitos outros espetáculos. Vale realmente à pena conferir o trabalho deles.

BC:- Quais são as vantagens de desenvolver um espetáculo através de um trabalho de grupo?
AD:- Sempre fui acostumada a realizar trabalhos por contratos, que é o mais comum no cenário teatral carioca contemporâneo.
Lembro de que, quando cheguei ao primeiro ensaio com o LoucAtores, fiquei completamente encantada com a força do grupo. Um grupo que se conhece há anos, que se entende com um olhar, com uma respiração.
Uma marca característica deles é o foco no trabalho de coro, que é brilhantemente conduzido pelo diretor Daniel Ferrão, mas que sei que não seria possível se não fosse a afinidade e o desejo de produzir de cada um dos integrantes. Além de atores, cada um tem seu talento específico, seja para maquiar, produzir ou conceber figurinos. Tudo se resolve ali. De vez em quando eles chamam pessoas de fora, pois acreditam que teatro também é intercambio, mas todos tem a plena consciência de que, mesmo não estando em cena naquele momento, são peças chaves para o trabalho acontecer.
Trabalho de grupo é um trabalho potente, que não tem espaço para o ego. O grupo está ali para servir a arte e não o contrário.

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O Matador de Santas Foto: Danilo Sérgio

BC:– Por que a opção por montar “O Matador de Santas”?
AG:- No fim de 2014 foi lançado pela FETAERJ o edital Novas Cenas, que naquele ano estava homenageando o Jo Bilac. Os grupos interessados se inscreviam e podiam indicar qual texto do Jo tinham mais interesse em montar. Eu não participei desse processo, mas o Anderson Alcântara e o Léo Torres, que são os produtores do grupo, disseram que o texto os arrebatou de tal maneira que eles não poderiam ter optado por outro (mesmo sabendo que o “Matador de Santas” era o mais disputado no edital). Foi uma escolha arriscada, mas não poderia ter dado mais certo. Corremos contra o tempo e levantamos o espetáculo em menos de dois meses com ensaios intensos e estreamos em dezembro de 2014 na Biblioteca Parque Estadual. Em 2015 fomos convidados para participar da Mostra Zona Norte de Teatro do SESC e de dois importantes festivais: o 37º Premio Paschoalino 2015 – FETAERJ (onde tivemos 12 indicações incluindo melhor espetáculo e prêmio para melhor figurino) e o Festival Nacional de Teatro de Duque de Caxias (onde tivemos prêmio de melhor ator e indicação de melhor atriz).

BC:- Quem é Jorgina, a personagem que você interpreta?
AD:- Jorgina é uma mulher de classe média, completamente infeliz no casamento e frustrada com a vida que leva. Quando uma série de assassinatos começa a acontecer em sua cidade ela fantasia uma possibilidade de escapar da mediocridade de sua existência e ganhar algum reconhecimento social quando passa a observar pela janela o dia-a-dia de seu suspeito vizinho.
É uma personagem fascinante, cheia de contradições e camadas. Prato cheio para uma atriz.

O Matador de Santas foto: Danilo Sérgio

O Matador de Santas foto: Danilo Sérgio

BC:- Como é interpretar um personagem criado por Jô Bilac, um autor que como poucos consegue trabalhar com sentimentos extremos num mesmo personagem?
AD:- A concepção de direção foi crucial para nos ajudar na construção dessas personagens tão complexas. O Daniel Ferrão (diretor) optou por uma proposta de encenação bem peculiar, onde cada personagem é interpretada por dois atores ao mesmo tempo, seguindo a linha de pesquisa e identidade do grupo. O objetivo foi justamente criar as várias perspectivas de um mesmo universo, exprimir os conflitos psicológicos das personagens.
Fizemos alguns workshops antes de efetivamente pegar no texto. Eu e o Rohan Baruck fomos presenteados com a Jorgina. Nós construímos juntos cada gesto, cada olhar.  Foi um trabalho de extrema confiança.

BC:- Jô Bilac teve algum tipo de participação na criação do espetáculo? Chegaram a receber algum tipo de retorno ou opinião dele?
AD:- O diretor Daniel Ferrão participou de um workshop com o Jô que estava previsto dentro do edital Novas Cenas. Foi a partir dessa troca que o Daniel veio com a ideia de duplicar as personagens. Trabalhar potencializando os extremos dessas criaturas que são tão bem dissecadas pelo Jô.
Como ainda não tivemos uma temporada com o espetáculo, o Jo não conseguiu tempo hábil para prestigiar o nosso trabalho, mas o convite para o Ziembinski já foi feito e esperamos que dessa vez nossas agendas batam.

BC:- Como foi a participação de “O Matador de Santas” no Festival Nacional de Teatro de Duque de Caxias?
AD:- Ficamos super contentes por termos participado do festival, pois eles têm uma seleção bastante rigorosa. O espetáculo foi extremamente bem recebido e elogiado pelo público e pelo júri técnico. O Rohan(Baruch) levou muito merecidamente, diga-se de passagem o prêmio de melhor ator e eu fui indicada a melhor atriz.

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O Matador de Santas Foto: Danilo Sérgio

BC:- Quais são suas expectativas para essa temporada de “O Matador de Santas” num teatro Ziembinski inteiramente renovado?
AD:- As melhores possíveis. Estamos num teatro de tradição como o Ziembinski numa ocupação que já está sendo super bem falada. Não podíamos estar mais felizes com o convite da ocupação Ziembinski (COM)Vida para celebrarmos os dez anos do grupo LoucAtores com um texto tão importante em um espaço mais que especial.
Queremos levar o maior número de pessoas possível para assistir a esse trabalho que nos é motivo de tanto orgulho.

BC:- Ano passado você fez sua estreia como autora e interpretou seu próprio texto. Em que aspecto essa experiência acrescentou no modo como você enxerga o processo teatral?
AD:- Acredito que eu tenha ficado mais atenta ao processo como um todo. Antes do “Em um lugar chamado Lugar Nenhum” eu trabalhava somente como atriz, mas ali eu passei a ter encargos também como autora e produtora.
A quantidade de afazeres de um produtor teatral é algo realmente chocante, mas quando o espetáculo estreou e tive o retorno do público, comecei a sentir mais na pele a responsabilidade da autora. Acho que eu não tinha noção de que minhas palavras pudessem realmente modificar a vida de alguém. O número de recados, depoimentos e conversas informais com a plateia após o espetáculo foi surpreendente. Eu comecei a ficar mais consciente da função social do artista. Antes me perguntavam qual a minha profissão e eu respondia “atriz”, hoje já respondo “artista”.

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BC:- “Em um Lugar Chamado Lugar Nenhum”, peça de sua autoria, teve um grande êxito de público e crítica. Haverá uma nova temporada?
AD:- Estamos, por enquanto, com apresentações agendadas para SESCs. No dia 8 de abril vamos fazer o espetáculo no SESC Niterói, e nos dias 20 de maio no SESC Ramos e 27 e 28 de maio no SESC São Gonçalo. Para a gente é muito interessante rodar com esse espetáculo. Quando ele foi concebido sonhávamos em levá-lo para cidades do interior do Brasil e estou trabalhando para isso, mas ainda quero fazer pelo menos mais uma temporada no RJ e outra em SP.

BC:- Além de “Matador de Santas” e “Em um Lugar Chamado Lugar Nenhum” você estará em breve participando de outros espetáculos. Poderia falar um pouco sobre eles?
AD:- Além desses dois, estou envolvida em outro projeto com o ator e produtor Gabriel Garcia de leituras dramatizadas de contos do Gabriel Garcia Marquez. Fomos contemplados no edital Viva o Talento e realizaremos leituras de três contos desse genial autor colombiano. Vamos nos apresentar nos dias 9 e 10 de abril as 19 e às 20 horas (duas sessões por dia) no Castelinho do Flamengo. Também na ocupação Ziembinski (COM) Vida faremos a leitura dos contos nos dias 13 e 27 de abril.

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Com a estatueta do Prêmio Botequim Cultural 2015, como Melhor Atriz pelo espetáculo “Um Lugar chamado Lugar Nenhum”


Palpites para este texto:

  1. Parabéns Agatha, você é maravilhosa!

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